Yoga – para todos os corpos

Por Aline Micelli*

Gordofobia é uma expressão usada para mostrar o preconceito sofrido pelas pessoas que possuem corpos considerados fora do padrão de beleza e saúde. Padrão esse instituído pelos órgãos de mídia e outros formadores de opinião (incluindo ai a classe médica). É notório que muitas pessoas consideradas gordas não apresentam qualquer tipo de alteração no seu estado de saúde, quando, outras mesmo magras, dentro do limite aceito pela medicina, sofrem de doenças como diabetes, hipertensão e tantas outras doenças nas quais o fator peso sempre é apresentado como principal vilão.

Devido a essa mentalidade ser gordo (que, no caso da mulher a exclusão se torna mais gritante por causa dos padrões rígidos impostos a beleza feminina) é o atual mal do século do mundo globalizado. Para a sociedade de consumo a gordura não vende, é o que se deve evitar a todo e qualquer custo, mesmo que isso possa provocar desordens alimentares, psicológicas e, em casos mais extremos, até mesmo a morte.

Com uma breve pesquisa é possível encontrar exemplos fictícios (recentemente numa novela do horário nobre acompanhamos o caso de uma personagem gorda e suas dificuldades) e casos reais de gordofobia. Todo mundo conhece ou já viveu seus dias de pesadelo na escola, na festa, na loja quando a vendedora olha pra você e já anuncia que não tem o seu número. Isso é o mínimo, existem agressões muito maiores e que são praticadas porque a maior parte da sociedade prefere ignorar o assunto e classificar as pessoas gordas como descuidadas, incapacitadas e preguiçosas.

Dentro da comunidade de Yoga, que na raiz da palavra sânscrita evoca o sentido de UNIÃO, a gordofobia também se faz presente. Não poderia ser diferente, o Yoga hoje vende muito porque acompanha a onda da loucura Fitness que tomou conta do mundo. Quanto mais magro, torneado e aparentemente saudável, melhores são as suas chances de sucesso. O Yoga virou artigo de consumo e, suas posturas, o troféu de muitos que não cansam de publicar suas façanhas corporais nas redes sociais.

Nada contra publicar fotos de posturas, pelo contrário, a estética de boa parte pode ser um incentivo a mais para quem deseja aprender. O que deve ser colocado em questão é o conteúdo de mídia criado em torno do que se define nos estúdios de Yoga, nas revistas e outras publicações do gênero, como um corpo saudável. Cansei de ouvir nas épocas em que estou um pouco acima do peso que meu Kapha, um dos três tipos de doshas indianos da medicina ayurvédica (que é mais propenso a reter líquido e armazenar gordura) estava em desequilíbrio.

Ser uma Kapha em desequilíbrio já me colocou na berlinda algumas vezes e, confesso, não foi nada agradável. Desde colegas de profissão que ficavam admirados com a minha capacidade de fazer uma prática “do início ao fim” até o constrangimento de servir de modelo e ter que desfilar durante uma aula de Ayurveda num curso de formação de professores. Pra piorar a situação ainda tive que ouvir que sendo Kapha, adjetivo bonitinho pra gorda, a minha vantagem era ser considerada a amante mais quente dos 3 doshas. Na frente de umas 30 pessoas, apenas, imagina a vergonha.

Descobri com o estudo que outra bela qualidade de Kapha é ser amoroso. Em diversas situações tive que usar desse amor para perdoar pessoas que amava e ainda amo. Foi o Yoga que me ensinou a amar, colocando meu corpo em movimento, fazendo a energia dentro de mim despertar. Era 2012 e, cheia de aulas para ministrar e muita correria em plena cidade de São Paulo acabei emagrecendo. Estava bem magra, não tinha fome e escondia de todo mundo minhas pedras na vesícula. Eu sabia que com a cirurgia as coisas iriam mudar, o meu corpo voltaria a inchar, novamente teria de me recolher.

Ano passado fui parar no hospital com início de pancreatite. Eram as pedras, elas haviam dado seu movimento final, dessa vez a ação do meu corpo era de repulsa e quase me levou a morte.

A volta da cirurgia teve abdômen inchado, quilos a mais, dores e muita gordofobia. E, não falo isso de vítima, a primeira a se discriminar era eu mesma, depois, o que ouvia da boca dos outros, era só o universo jogando de volta o que eu ainda estava aceitando como certo. Foram necessários mais alguns meses até que eu entendesse que, novamente, não é meu corpo, nem o de ninguém, o mais importante no Yoga é a vida.

Toda a base filosófica e prática do Yoga está voltada para a valorização da vida dentro e fora da gente. A vida em comunidade, esse amor que todo mundo fala e quase não pratica. Não interessa se a instrutora de Yoga é a mais sarada do planeta, se ela não me transmitir amor, carinho e confiança a mágica de toda essa tradição sagrada não tem como ser realizada. E, saber disso me fez perceber como quase me destruí para não ganhar peso. Como adiei uma cirurgia que era fundamental pra minha saúde e quase paguei muito caro por isso.

Ah, sim, existe aquele método de limpeza de rim e vesícula baseado num tratamento ayurvédico. Só quero deixar bem claro, que com a estrita recomendação do meu médico, esse tratamento não é recomendado para pessoas com cálculos do tamanho dos meus. As chances de pancreatite eram enormes e, foi seguindo a orientação desse profissional que não utilizei dessa estratégia para me curar. Outra coisa que quero deixar clara é que não está comprovado cientificamente porque se formam os cálculos na vesícula. Mais uma doença que dá em todos os tipos de corpos, gordos e magros.

O papel desse texto era despertar a necessidade de trabalhar um tema como gordofobia para que mais pessoas possam utilizar o Yoga como uma ferramenta da sua liberação. Lembrando que as posturas são apenas a ponta do iceberg energético, mental, devocional e transcendental do Yoga, existem muitos universos a serem desbravados. É minha vontade que todos se dispam de suas limitações, que a mídia e quem atua no meio inclua corpos de todos os formatos, possibilidades e tamanhos em suas divulgações.

Que o amor possa servir de escudo e transformar vidas.

Namastê!

aline

*Aline é jornalista formada pela PUCRS, professora de Yoga há mais de 10 anos, com formações em Hatha Yoga e há dois anos formada pela professora Micheline Berry em Vinyasa Flow Yoga. Cozinheira, taróloga, flamenca e apreciadora da humanidade. Tem também um blog no qual divide suas histórias lúdicas, escritos pelo seu lado mais selvagem, chamado Lili e o Mundo.

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