Yoga é um assunto sério e sim, você pode se machucar. Graças a Deus, isso está esclarecido

Texto de Sarah Knapton, editora de ciências do jornal britânico The Thelegraph e professora de Yoga, traduzido pelo Nowmastê – publicado originalmente em 2017, aqui.

Pincha Mayurasana

A prática do Yoga nunca esteve tão popular no Ocidente. Novas aulas e tipos de Yoga parecem surgir a cada dia e o serviço de saúde pública da Grã-Bretanha (N.N. – e de diversos outros países, inclusive Brasil) já recomenda o Yoga para uma série de condições físicas e mentais. E, como é inevitável cada vez que um exercício físico atinge tais proporções, estudos científicos aparecem para tentar comprovar e também contestar benefícios e perigos.

Apenas na última semana (N.N. – junho de 2017), três destes estudos foram publicados. Os dois primeiros foram positivos, mostrando que Yoga melhora dores nas costas e pode ajudar vítimas de derrame a recuperarem o equilíbrio e a resistência. Mas o terceiro, da Universidade de Sydney, na Austrália, sugere que essa prática ancestral pode fazer mais mal do que bem,   provocando dores “musculoesquelética” em mais de um entre 10 participantes e piorando condições crônicas.

A dor se tornou tão severa em um terço dos casos que os participantes tiveram que ficar fora da ativa por três meses, levantado suspeitas de que, longe de ser uma atividade segura, o Yoga é, na realidade, pior para lesões que a média de todos os outros esportes.

Onde está a verdade? Será que o “cachorro olhando para baixo” ou a “saudação ao sol” devem ser ensinados com aviso de “perigo a saúde”?

Tendo passado meses estudando para me tornar uma professora de Yoga, eu descobri que Yoga, como toda atividade física, é tão fácil ou tão difícil quanto você a torna. Se você se senta feliz meditando em lótus, o pior que pode acontecer é uma câimbra. Agora, se você tentar se aprimorar na pose do escorpião na beira de um penhasco do mar Egeu para impressionar os seguidores do Instagram, uma visita ao pronto-socorro será bem provável.

O que a pesquisa de Sydney prova é que o Yoga tem que ser levado com seriedade como toda modalidade de exercício. Enquanto que, por muito tempo, a prática foi relegada a um simples alongamento.

No site do NHS (serviço de saúde pública da Grã-Bretanha), por exemplo, está escrito: “A maioria das formas de Yoga não é fortes o suficiente para contar como parte dos seus 150 minutos de atividade física moderada”. Uma afirmação que fica ainda mais ridícula quando o mesmo site classifica “caminhada rápida” e “cortar grama” como exercício moderado.

Na realidade, a não ser que você escolha uma prática de Yoga restaurativa, a maioria das aulas nos dias de hoje inclui uma boa dose de atividade cardiovascular e de força, torções e algumas posturas bem complicadas de equilíbrio sobre os braços e inversões. O perigo surge justamente quando você mistura tudo isso a uma tradição cultural de “no pain no gain” que encoraja os alunos a irem sempre além de seus limites.

A situação se exacerba com a necessidade tóxica de autovalidação nas mídias sociais. O Facebook está lotado de posturas perigosas que podem parecer impressionantes ao pôr do sol, mas que deixam os professores de Yoga de cabelo em pé.

Para mim, o caminho até o Pincha Mayurasana – uma difícil postura avançada sobre os antebraços – foi traçado com hematomas e lágrimas. O meu sofá ainda está quebrado da vez em que cai sobre ele; e a minha parede ainda tem todos os arranhões de tantas invertidas que não deram certo.

Só agora, que sou uma professora qualificada de Yoga, percebo os erros no meu caminho. Os asanas – posturas de Yoga – são apenas um dos oito pilares do Yoga. Neles estão exercícios respiratórios, meditação e vários códigos de vida, como tratar o mundo e a si mesmo com gentileza. Isso significa fazer as coisas lentamente, no seu limite, não além dele.

O objetivo é você chegar naquilo que os atletas chamam de “flow”, uma meditação em movimento onde as preocupações passadas e futuras se dissolvem. Feito corretamente, devagar e com consciência, através do tempo, as posturas difíceis podem se tornar naturais. Você deve flutuar para uma invertida sobre os braços e não ficar no limiar do perigo, que é o que acontece quando você tenta sem ter praticado o suficiente.

Isso dito, no meu primeiro Pincha – que durou alguns segundos apenas – eu senti como se tivesse alcançado um grande marco, um rio de endorfina inundou meu corpo e minha autoestima foi as alturas.

Da mesma forma, uma flexão para trás não deve acontecer de um dia para o outro. O que você aprende no Yoga não deve ser apenas uma postura, mas também uma lição de perseverança, tenacidade e controle. Invertidas sobre a cabeça te ajudam a superar o medo. Então existe uma lição a ser aprendida quando vamos além da nossa zona de conforto.

Mas a verdadeira mágica acontece fora do tapetinho. Em alguns casos, sabe-se que Yoga pode ser tão bom quanto um remédio para depressão ou ansiedade. Estudos também descobriram que Yoga pode diminuir os efeitos colaterais da quimioterapia, ajudar a aliviar asma, dores nas costas, melhorar o funcionamento do cérebro em idosos e ser tão bom quanto aeróbica, bicicleta e caminhada na diminuição do risco de doenças cardíacas.

Pode ser que até ajude a concertar DNA, de acordo com um estudo publicado pela Universidade de Coventry.

Ivana Buric, do Brain, Belief and Behaviour Lab, do Centro de Psicologia, Comportamento e Conquista da Universidade de Coventry disse: “Milhões de pessoas ao redor do mundo já aproveitam os benefícios das práticas de de corpo-mente como Yoga ou meditação, mas o que talvez elas não percebam é que esses benefícios começam no nível molecular e podem modificar a forma como funciona nosso código genético”.

E quando você leva em conta que 50% dos corredores se machucam todos os anos, de repente um em 10 machucados de Yoga começa a parecer bem baixo. Aprofunde-se no estudo de Sydney e você também verá que 74% dos participantes disseram que dores já existentes melhoraram com a prática.

Colocado de uma nova forma, você tem sete vezes mais chance de ter um impacto positivo do que negativo ao praticar Yoga.

Yoga também ensina determinação, paciência, perseverança e entendimento e respeito pelo seu corpo.

Como diz a professora Donna Farhi: “Estamos praticando para viver, não vivendo para praticar. Yoga é mais sobre ficar sobre seus próprios pés do que sobre a sua cabeça”.


Nota do Nowmastê – Em cinco anos de Nowmastê, conversando com professores e alunos e também praticando Yoga, já me deparei com algumas pessoas que se machucaram um pouquinho ou um montão praticando Yoga. Muitas delas (como no meu caso mesmo) pura e simplesmente por, de forma relapsa, irem além de suas capacidades em dado momento. Outras por, conscientemente, ignorarem os sinais do corpo. Sabe aquele corredor que continua correndo mesmo com dor no joelho até ele se estropiar? No Yoga isso também acontece. Nos meus aprendizados, ouço constantemente que o maior desafio do Yoga é aprender a ouvir o corpo e não se deixar enganar pelo ego. E este é um senhor desafio. Principalmente porque ele é pessoal e intransferível. Um bom professor certamente pode te ajudar, mas só você tem a capacidade de entender e fazer o que o seu corpo realmente precisa.

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