Yoga e “Tradição”

Por Mario Reinert*, do Namaskara Estúdio de Yoga

Estatua de Patanjali na Índia.

Dentro do Yoga, como em tudo mais, existe a tensão entre transformação e a permanência, a inovação e a manutenção dos costumes e tradições.

Tudo que existe neste mundo material e manifesto, está sujeito à mudanças, como diz a máxima budista, “a única coisa permanente é a impermanência”. Se tudo está sob o efeito do tempo, é natural que as mudanças ocorram. Dentro da manifestação dual do universo não há sequer uma coisa que não sofra a ação do tempo.

Isso pode ser visto na maneira como o conhecimento era transmitido no no passado, era feito oralmente do mais velho para o mais novo, isso ajudava inclusive no respeito ao mais velho, pois era ele que detinha o conhecimento.

O tempo passou e veio a escrita, que possibilitava que este conhecimento fosse armazenado sem que ninguém o memorizasse. Com certeza houveram contestações sobre como a escrita iria acabar com a inteligência do homem, que não mais guardaria os dados ele mesmo, mas dependeria de um artifício externo para a memória.

Muitos foram os que se opuseram à escrita e, em culturas como a indiana, esta transição levou séculos para se efetivar, ainda hoje se vê saudosamente a época dos Rishis (sábios) que eles sim detinham todo o conhecimento em sua memória. Mas esta mesma escrita que fez com que o homem não mais utilizasse a memória da mesma maneira, abriu espaço para que novas áreas do cérebro fossem utilizadas e possibilitou um universo novo em descobertas.

O que podemos dizer então da internet nos dias atuais, onde uma nova mudança se estabelece, não memorizamos mais nada, não temos mais as coisas escritas fisicamente por perto, livros etc… pois com algumas tecladas no Google acessamos conceitos, ideias, definições, que não mais serão memorizadas por nós, quem dirá pelas futuras gerações. O que fica deste e de inúmeros outros casos é que a mudança em si não é o problema e, se esta mudança existe, é porque há uma necessidade de adaptação de uma forma antiga para a atual.

Quando falamos em Yoga não poderia ser diferente, na transformação de prakṛti (o mundo manifesto) os métodos e técnicas mudam, incorporam outros métodos e vivem esta mesma tensão entre tradição e inovação.

O mais interessante é que mestres de linhas ditas “tradicionais”, linhas estas defendidas por seus discípulos, foram grandes inovadores de seu tempo. Sri Krishnamacharya por exemplo, ensinou mulheres e teve contato com linhas de ginástica indianas e ocidentais, estas foram incorporadas ao seu método no tempo que estava a serviço do Marajá de Mysore. (Para mais informações ver: The Yoga Tradition of the Mysore Palace N. E. Sjoman (Author) – Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice by Mark Singleton)

Só como exemplo, já ouvi de professores ocidentais de Yoga, que não se deve fazer propaganda, pois isto não seria tradicional, mas estes contraditoriamente tem seus nomes em sites que os divulgam e arranjam workshops e trabalhos, estes mesmos professores falam da tradição de Krishnamacharya e especialmente de alguns de seus discípulos, só esquecem de que sob o comando do Marajá de Mysore, Krishnamacharya liderava o seguinte programa de divulgação do Yoga pela Índia: “YOGA PROPAGANDA”. É isso mesmo, Sri Krishnamacharya viajou por toda a Índia com verdadeiros shows divulgando o Yoga, fazendo seu coração parar de bater e colocando crianças e jovens para fazer posturas acrobáticas e assim chamar a atenção da audiência e fazer propaganda pelo Yoga.

Não quero de maneira alguma dizer que então vale tudo e que toda mudança é ótima e que temos somente que transgredir. Temos sim é que refletir sobre o que fazemos e como fazemos e, se realmente faz sentido tentar repetir dogmaticamente algo simplesmente porque é tradicional, ou porque todo mundo faz.

Não precisamos ser tão duros como Albert Einstein: “A tradição é a personalidade dos imbecis”. Mas ainda hoje em países da África, por “tradição” retira-se o clitóris das mulheres para que não sentindo prazer não possam trair seus maridos, são mais de 130 milhões de mulheres que foram e outras serão ainda submetidas a esta barbárie.

Tradições também podem surgir por meio de descobertas e com ótimas intenções, mas tendem a tornar-se ao longo do tempo maneiras de manipular e manter as pessoas sob controle do sistema. Como a frase que houvi há bastante tempo: “Tradição Família e Propriedade”, desde que por “Tradição a Propriedade seja da minha Família”.

Do outro lado, o das novidades, temos misturas absurdas, tudo virou Yoga, os “Yoga-qualquercoisa”. Mistura-se duas coisas aparentemente com bons resultados dentro de suas esferas, como se a mistura, o elemento desta fusão fosse ser muito bom. São inúmeras as novas técnicas de Yoga que surgem empacotadas nas pratereiras do consumo, estas vem dar vazão ao “epiritual-cool” e descolado, que se espalha por academias e espaços que vendem autoconhecimento como bem de consumo. Sem desmerecer, é claro, as exceções que existem no meio de toda esta loucura mercadológica.

Para resumir, não é porque é tradicional que é bom e não é porque é uma novidade que é ruim.

No Yoga Sutra de Patanjali (texto importante sobre o Yoga) por exemplo, encontramos muitas alusões ao equilíbrio entre os opostos complementares, abhyasa (prática, repetição) e vairagya (despego), ou sthira (firme) e sukha (confortável), creio que este equilíbrio também entre a “transformação” e a “permanência” é fundamental, levando-se em consideração a capacidade de adaptação de cada um. A rotina e a tradição que para um significa a liberdade, para outro significa a prisão.

Não importa o que façamos, inevitavelmente as novidades virão, a mudança acontecerá queiramos ou não e o que podemos fazer como Yoguis é observar as mudanças, não nos apegarmos a elas e cultivar o saber interior de que nosso “Eu” está para além do espaço e tempo, que já somos eternos e livres de limitação, mas que as ferramentas maravilhosas que dispomos, por mais sagradas e reveladas que sejam, uma vez manifestas estarão sob a ação do tempo.

E independente de ser um transgressor ou tradicionalista, é fundamental respeitar e agradecer a todos os que vieram antes de nós e que possibilitaram que este conhecimento fosse passado adiante, como diria Isaac Newton “se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”.

Observe-se e pratique!

Namastê!

*Mario busca ensinar o Yoga de maneira individual, respeitando os limites e características de cada aluno e com foco em uma prática de autoconsciência. No caminho do Yoga há mais de 15 anos, acredita que ao ensinar em pequenos grupos ao mesmo tempo em sala é possível dar atenção individual e ajudar no desenvolvimento da prática pessoal de cada aluno.

Arquiteto formado pela FAU-USP, sempre praticou atividades físicas, especialmente artes marciais, praticou diversos estilos(Muay Thay, Judô, Ju Jitsu, Boxe etc…) com destaque para o Aikido, no qual chegou a faixa prêta.

Seu primeiro contato com a prática do Yoga foi buscando a cura para uma tendinite por uso do computador(LER), encontrou a cura com a prática e desde então dedica-se ao estudo do Yoga. Fez seguidas viagens à Índia para estudar, lá praticou o método Ashtanga Vinyasa em seu local de origem, a cidade de Mysore no sul da Índia, Filosofia Indiana e a meditação Vipassana.

Fez também diversos cursos entre os quais, parte da formação de Iyengar Yoga com o professor Kalidas Nuyken em(SP), Pránáyámas com BNS Iyengar(Mysore, Índia), Filosofia Indiana com os Professores Nagaraj Rao e Gangadhara(Mysore, Índia), Bhagavadgita e Upanishads com DR. Satianarayana Das – (NJ- US), Fundamentos da Anatomia do Yoga e “Colocando princípios em prática” com Leslie Kaminof e Amy Matthews (NY, US), entre outros.

Hoje dedica-se a uma prática equilibrada, que inclui a prática de Ásanas de maneira consciente, estudos dos textos do Yoga, Sankhya, Vedanta e Sânscrito, além de Anatomia e outros campos que propiciem o desenvolvimento da consciência. Também dirije o Namaskara Estúdio de Yoga ao lado de sua esposa Renata Ventura.

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