Yoga é religião?

Por Miguel Homem*, via Dharma Bindu

A resposta à pergunta dependeria necessariamente do que se entende por religião e por Yoga. O Yoga não se encaixa no conceito de religião, tal como é entendido por um católico ou muçulmano. Desde o pontos de vista convencional, o Yoga não é definitivamente uma religião. É que as religiões monoteístas como o Cristianismo ou o Islão divulgam a ideia de um Deus personificado, habitando um lugar definido, diferente e separado do resto da Criação.

Por oposição, na visão do Yoga, Brahman assume o papel de Criador e Criação ao mesmo tempo. Ora, o Yoga, se entendido como a descoberta do ser humano como sendo Brahman, poderia ser visto como religião, entendida a palavra no seu sentido etimológico de religare. União é também uma das traduções da palavra Yoga. Sucede, no entanto, que esse sentido tem de ser entendido no contexto, no sampradaya do Yoga. Sem isso, correr-se-ia o risco de ver o buscador e aquilo que é buscado como algo distinto, tal como o devoto cristão ou muçulmano o é de Deus. Bem pelo contrário, no Yoga aquele que busca já é o que busca. Apenas a ignorância, avidyá, o impede de se reconhecer como o Ser completo, que, de facto é.

Assim, entendo que sempre que o Yoga é visto sob a lente de uma mente ocidental, ele não pode ser entendido como religião, uma vez que o significado correspondente a esse conceito é, na mente ocidental cristã ou muçulmana, substancialmente diferente. E diferente, porque o significado está enraizado na tradição judaico-cristã ou muçulmana respectivamente.

Na Índia antiga, tampouco se gerava confusão entre aqueles conceitos, uma vez que não existe equivalente para a palavra religião em sânscrito. Esse conceito não existia. O que mais se lhe aproxima é a palavra dharma. No entanto, quem já compreendeu esse conceito e o preencheu com o seu significado original percebe claramente as diferenças.

O dharma assenta, entre outras coisas, na observação, respeito e reverência pelas leis naturais do universo. Já na religião católica ou muçulmana existe um conceito central – o dogma. Dogma é um facto ou acontecimento assumido como verdadeiro por uma religião que, não só não pode ser demonstrado e provado, como, as mais das vezes, é até negado pela razão e conhecimento. Citemos a título de exemplo as 40 virgens que aguardam o lutador da jihad no além ou a concepção da virgem Maria.

A hipótese de uma mulher poder conceber espontaneamente, não só não pode ser provada, como é negada pela ciência e razão. Ainda assim, este é um dogma da religião católica que exige a fé do devoto. É que parte da doutrina católica cai se não existir aquele dogma. A não ser assim como fugir do pecado original? O ser humano nasce do pecado contrariamente ao filho de Deus. Sem querer aqui discutir os deméritos e os méritos daquelas religião, que os tem certamente, avivamos a questão para prosseguir com a distinção em relação ao Yoga.

No Yoga não existem dogmas. Existem factos verificáveis e factos não verificáveis.

Os factos não verificáveis não são essenciais ao ensinamento. São apenas decorativos. De tal forma que, sempre que passados, são apontados como objecto de crença. Alguns factos verificáveis podem, no início da jornada, não o ser para o praticante. Isso exige deste confiança no ensinamento – shraddhá. Shraddhá, essa confiança, vai se construindo à medida que o praticante vai constatando a validade e aplicabilidade do ensinamento do Yoga que lhe vai sendo passado. Quando mais aprende e mais verifica a validade do que aprende, mais confia no que lhe ensinado, mas que ainda não pode verificar por si. Em todo o caso, o praticante sincero e esforçado, tarde ou cedo vem a verificar por si a validade do ensinamento.

Diferentemente, na fé e no dogma, a verificação da validade do ensinamento é deixada para a vida para além da morte. Motivo pelo qual, neste mundo e nesta vida, ninguém o pode constatar. Neste caso exige-se uma confiança cega, naquele uma confiança inteligente.

Por fim, lembremos o ateu. Um ateu não reconhece a existência de Deus. Claro que para sabermos o que isso significa, impunha-se saber o que é Deus. Sucede que essa ideia varia de região para região, de filosofia ou de religião para outra. Seja como for, o ensinamento do Yoga não depende da existência de Deus. Assim, a resposta ao ateu seria, novamente, Yoga não é religião.

*Miguel Homem, professor de Yoga e Vedanta. Ele mora no Porto, em Portugal, onde está a frente da Casa Ganapati e também coordena o site Dharma Bindu.

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