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Você sabe a diferença entre espiritualidade e religiosidade?

Você sabe a diferença entre espiritualidade e religiosidade?

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Por Gabi Picciotto*

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Eu comecei em setembro um Doutorado sobre como crenças e práticas espirituais impactam nosso desenvolvimento psicológico, com um foco específico no lado sombra disso que se chama spiritual bypass que é quando utilizamos a espiritualidade como uma forma de fuga para não trabalhar certas questões emocionais, psicológicas ou interpessoais.

Nesse contexto, o primeiro desafio que me deparei foi de definir o conceito de espiritualidade e dentro dessa definição de distinguir espiritualidade de religiosidade.

Na minha cabeça eu tinha uma definição de espiritualidade, que estava ligada a uma forma pessoal de se reconectar com algo maior, se religar com o Todo. Mas no universo acadêmico tudo se complica, pois não podemos utilizar definições informais e pra qualquer termo precisamos antes fazer uma revisão na literatura, escolher uma definição existe e na melhor das hipóteses criar uma nova definição em cima daquela que precisa ser muito bem justificada e respaldada para ser considerada como válida, caso contrário, precisamos nos contentar com alguma definição já existente….

A confusão toda começa pelo fato do conceito de espiritualidade ter sido definido de inúmeras formas na literatura nos diversos campos de estudo e disciplinas. Atualmente, não existe uma definição comum ou acordada para o termo dentro da literatura acadêmica. Exemplos de formas variadas de definir a espiritualidade são: “a resposta humana ao chamado da graça de Deus para um relacionamento com este”; “uma experiência subjetiva do sagrado”; “uma maneira de ser e experimentar que se dá através da consciência de uma dimensão transcendente e é caracterizada por uma certos valores identificáveis no que diz respeito a si mesmo, a vida e tudo o que se considera ser Supremo” e “uma dimensão transcendente dentro da experiência humana…. descoberta em momentos em que o indivíduo questiona o sentido da existência pessoal e procura se colocar dentro de um mais amplo contexto ontológico”.

Como a espiritualidade diz respeito a uma jornada de cunho pessoal e relacional, é difícil se chegar a uma definição global para tal fenômeno.

Além do caráter pessoal que dificulta a definição do termo, um aspecto histórico que contribui para a falta de clareza frente ao conceito de espiritualidade é a sua distinção frente ao termo religiosidade, uma vez que apesar de conceitos diferentes, os temos têm sido utilizados de forma intercambiável.

Inúmeras formas de fé com a denominação espiritualidade ganharam popularidade de 1980 aos dias atuais, se por um lado o nível de confiança dos indivíduos frente às instituições e lideranças religiosas tradicionais declinou, houve um aumento da busca por formas individualizadas de expressão da fé e por experiências direta com o sagrado

O interesse em práticas religiosas orientais como meditação transcendental e yoga cresceu, assim como o interesse por matérias ocultas como astrologia e teosofia. Em suas pesquisas, os pesquisadores Hood e Zinnbauer inclusive destacam o crescimento da quantidade de indivíduos nos Estados Unidos da América que definem sua espiritualidade de forma a rejeitar o contexto religioso tradicional que Hood denominou “místicos espirituais” e Zinnbauer identificou como “espirituais porém não religiosos”.

Algumas das pessoas que se consideram “espirituais porém não religiosas” são tão contrárias às religiões tradicionais que percebem a religião como o maior inimigo da espiritualidade autêntica. Tais pessoas, tendem a criar sua espiritualidade individual que inclui buscar e escolher crenças e práticas de uma gama variada de religiões e filosofias alternativas, percebendo a espiritualidade como uma jornada relacionada com o alcance do crescimento e desenvolvimento individual. Esse crescimento fez com que aflorasse uma tensão entre os conceitos da religiosidade e da espiritualidade, por vezes, colocando-os em uma estrutura rigidamente dualista.

O que emergiu é uma separação em que a religiosidade é mais frequentemente identificada com instituições religiosas estruturadas e um conjunto determinado de crenças, enquanto a espiritualidade é utilizada para descrever experiências individuais relacionadas com a transcendência e significado pessoais.

Durante a última metade do século XX, outra forma de se distinguir religião e espiritualidade foi a associação com as esferas pública e privadas. Enquanto a espiritualidade estaria relacionada à esfera privada de pensamentos e experiências, o termo religião estaria associado à esfera pública das instituições e doutrinas oficiais.

Apesar dos termos terem ganhado um viés cada vez mais polarizado, com a religiosidade sendo vista como um conceito mais objetivo e institucionalizado e a espiritualidade como um conceito mais subjetivo e interiorizado, alguns autores contestam tal dualização e consideram que são fenômenos conectados.

Desta forma, dependendo da definição utilizada, a espiritualidade pode ser considerada como mais estreita, mais abrangente, ou independente em relação à religiosidade.

Para os fins da minha tese de Doutorado, eu escolhi utilizar a diferenciação feita por Zinnbauer que coloca que “a espiritualidade é definida como uma busca pessoal ou em grupo pelo sagrado” e “a religiosidade é definida como a busca pessoal ou em grupo pelo sagrado que se desenrola dentro de um contexto sagrado tradicional”.

Nesta perspectiva, apesar de ambos conceitos estarem relacionados à busca de um tipo particular de preocupação significativa, a busca na religiosidade ocorre dentro de um contexto tradicional ou forma organizada de tradição que inclui um sistema específico de crenças, práticas e valores explícitos.

O conceito de espiritualidade nesta definição é tido como mais abrangente, incluindo uma gama de fenômenos que se estende desde os caminhos diretamente associados com as religiões tradicionais, assim como as experiências de indivíduos ou grupos que procuram o sagrado em contextos diferentes aos sistemas tradicionais ou institucionalizados, tais como os “místicos espirituais” ou os “espirituais porém não religiosos”.

Gabi-Picciotto-2*Gabi é Co-criadora do Curso Integral Way, Gabi é Master Coach Integral, especialista em propósito de vida e na utilização da abordagem integral como alavanca de mudanças sustentáveis em pessoas e organizações. Fundadora do The Sun Jar, atua como coach, palestrante e consultora integral apoiando pessoas e organizações no alcance de uma vida mais plena e com sentido. Gabi também é colaboradora do Nowmastê. Para mais informações acesse: www.thesunjar.com

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