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Viver e/é Viajar – Da criação/apropriação da própria jornada

Viver e/é Viajar – Da criação/apropriação da própria jornada

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Eu e minhas circunstâncias somos indissociáveis: cada escolha/decisão resulta da combinação entre quem sou e o que há em torno, disse já há algum tempo, José Ortega y Gasset, filósofo espanhol.

Circum-stancia: situação de algo em determinado momento – família, sociedade, cultura, personalidade, caráter

Circunstâncias são flexíveis e moldáveis. Não se é o mesmo a vida toda. O lugar perfeito hoje pode não mais o ser amanhã. O que pulsa por dentro muda o tempo todo.

Mas há momentos em que Ser e circunstâncias alinham-se em sintonia e a vida flui. Portas se abrem, caminhar é leve, decisões são fáceis/óbvias. É possível, enfim, viver de acordo com o que faz vibrar e traz sentido.

Novo viver  – Ouvi pela primeira vez “eu sou eu e minhas circunstâncias” quando meu pai, Luiz Fernando Nicz, apresentou-me o esboço de seu projeto de vida pós-aposentadoria: Viver e/é Viajar – NandoZen, (o)usado nômade caminhando pelo mundo.

Trabalhando na confecção do roteiro em Lisboa, apartamento da Fernanda

O insight aconteceu no ano de 2018. Aos 71 anos, boa forma física e mental, divorciado, três filhos vivendo em outras cidades (eu em Lisboa), namoro de três anos e vida profissional recém terminados, viu-se sozinho e dono de seus tempos e movimentos. Com tempo, esboçou então, o próximo movimento. Inventou um “novo trabalho”, de lazer, só seu: viver a vida como gostaria nesse momento … a descobrir/desbravar o mundo. 

Conta meu pai que a ideia nasceu “da experiência de vida + o que há em torno + meus valores + quem sou + como penso hoje”. E acrescenta: “um grande inspirador foi meu irmão gêmeo, Luiz Sergio, que me incitava a parar de trabalhar aos 70 anos e viajar o mundo. E também você (eu!), minha filha, com seu corajoso Projeto Minideias!”. Após a morte de meu tio em 2015, meu pai passou a questionar mais o sentido da vida, o  que reforçou a decisão de colocar em prática o que mais sentido fazia naquele momento – seu “novo trabalho”.

Vida mutante – Ao revisitar sua história, dá-se conta de que nem sempre as circunstâncias o permitiram realizar o que ansiava. Meu pai refere-se ao sonho que tinha quando jovem médico: transformar o sistema de saúde brasileiro num sistema público para todos, inclusivo. O decorrer dos anos fizeram-no compreender que fatores políticos, entre outras circunstâncias adversas, faziam com que aquele desejo não dependesse apenas de si e dos que como ele pensavam para tornar-se real.

De qualquer maneira, sua vida foi bem diferente da maioria dos médicos. Atuou profissionalmente (entre 1973 e 2018) como gestor de hospitais e sistemas de saúde alternando entre área pública e privada. Pode-se dizer que é o médico gestor brasileiro com maior diversidade de experiências e ambientes de trabalho. 

Hoje, aproveitando circunstâncias favoráveis, foca-se em seu Projeto, do/no qual é autor e protagonista. É hora de desconstruir-se/descobrir-se longe de referências arraigadas por longo tempo em “terra firme”. 

Slow Travel  – Em Curitiba, leva uma vida minimalista, o luxo, de vez em quando, fica por conta de alguns vinhos. Sem carro, usa “bike” e os pés como meios de locomoção. Vive na casa que foi de meus avós. Para financiar as viagens, procura poupar nos meses em casa para conseguir compor o caixa do Projeto. Diz que “inventou o “moto contínuo”- máquina que se abastece de energia gerada por sua atividade.

Desenhado para realizar-se em cinco anos, o Projeto prevê viagens anuais (Temporadas), com duração de até seis meses. Cada Temporada se divide em Etapas (diferentes países), sendo a primeira e a última em Portugal (comigo em Lisboa). 

Peniche, Portugal
Eu e meu pai na costa Alentejana, Portugal

Ao seu estilo, minimalista e slow, a 1ª. Temporada (em 2019) teve o caminhar – livre, leve e solto (sem mochila) – como forma de conhecer as cidades. Fez 15 km/dia em três meses seguidos! “Percorrer um lugar a pé, além de energizar corpo e alma, faz olhar o espaço de forma única, com possibilidades de paragens estratégicas”. 

Dormiu em acomodações simples mas dignas e confortáveis e, quando possível, em trem leito noturno. Da estação de trens, empurrava sua compacta mala com pequena mochila acoplada e, guiando-se pelo GPS, chegava ao hotel estrategicamente escolhido, perto da estação. As refeições, da manhã e da noite, procurava fazer no quarto do hotel com comida comprada em mercados, almoçava fora. Computando-se todas as despesas, o gasto diário foi de 95 euros.

Mala e mochila em Moscou
Trem leito noturno

Rússia – A 1ª Temporada do Projeto Viver e/é Viajar – NandoZen, (o)usado nômade caminhando pelo mundo escancarou a paixão de meu pai pela Rússia. A importância do país na história política do mundo nos últimos 300 anos, seus escritores (Dostoievski, Tolstoi, Gogol…),  compositores (Tchaikovsky, Rachmaninov, Rimsky-Korsakov …), o ballet, a imensidão e diversidade de seu território e cultura instigaram-no a querer conhecer mais – após duas curtas estadas em 2012 (São Petersburgo) e 2013 (Moscou). 

Cada pedaço do mundo tem uma geografia própria que pode ser usada para mudanças.

Joan Halifax, ecologista e antropóloga budista

Dos seis meses de estrada (abril a outubro), dois foram em 10 cidades russas e um em países do ex-Império Russo, depois União Soviética (Polônia, Belarus, Sul do Cáucaso – única Etapa que fez com Agência de Viagens). 

Armênia
São Petesburgo
Moscou

Chegou à Europa pelo norte da Itália (12 dias), depois veio a Lisboa, passou pela Espanha (a caminho da Rússia) e, na volta, pela Turquia (17 dias) e novamente Portugal antes de regressar ao Brasil.

Tal pai, tal filha –  As estadas de meu pai em minha casa são animadas e inspiradoras. Quando não está trabalhando “pesado” na confecção de suas viagens, é parceiro em passeios por Lisboa, pequenas viagens pelo país, além de ótimo papo e apreciador de um bom vinho português. Ouvir seus relatos reascende, em mim, o anseio por viagens-vida. 

Eu e meu pai em Ericeira, Portugal

Certamente meu lado peregrino e minimalista vem daí. O estilo de vida, a vontade de ver o mundo e até mesmo o gosto e a preferência por trens.

Em minha viagem mais longa, sozinha, no ano de 2014, com meu Projeto Minideias, percorri toda Itália e um pedaço de Portugal. Lembro de muitos momentos genuinamente terapêuticos vividos dentro de trens. Eram ritos de passagem, verdadeiros refúgios. 

Refugiar-se: ligar-se ao que existe de mais saudável em nós e que apoia nossas mais profundas aspirações.

Monge Tchich Nhât Hanh

Viajar pode ser um refúgio à tão encoberta (em meio ao ritmo alucinado e desconectado em que hoje, em maioria, se vive) essência. 

O projeto de meu pai faz todo o sentido. Viajar é mesmo uma forma de viver. Experimentar a totalidade de si mesmo, renovando-se constantemente e fazendo de cada caminhar um caminho – próprio, pleno, arrebatador. 

Num mundo ainda muito bruto, como é bom parar e apreciar belas obras de arte espalhadas em diferentes espaços do mundo, feitas por nós, seres humanos! 

Luiz Fernando Nicz

Georgia

Rubem Alves complementaria: quero viver enquanto estiver acesa, em mim, a capacidade de me comover diante do belo.

OBS: Este ano, o Projeto Viver e/é Viajar – NandoZen, (o)usado nômade caminhando pelo mundo faz uma pausa devido à Pandemia. A 2ª temporada está sendo cuidadosamente pensada e preparada para entrar em cena no ano de 2021.

Fotos: Fernanda Nicz, Adilson de Oliveira e Luiz Fernando Nicz

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