Vida simples, leve e colorida – Gente que vive o que ama na vida! – Por Fernanda Nicz

Três meses de estrada e a parada que viria provocava curiosidade; a amiga (que eu não conhecia) de uma amiga me hospedaria por uns vinte dias em sua casa no interior da Toscana. Nenhuma ideia do que viveria nestes dias. Depois de alguns e-mails trocados, eu sabia um pouco da vida da Jessica Hollaender (36 anos) e não sei por que razões sentia (pura intuição) que se tratava de uma guria guerreira, com uma bonita história de (mudanças) vida e uma rotina repleta de pequenas coisas simples para compartilhar e fazer feliz.

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Dito e feito! Empatia – entre duas escorpianas – a primeira vista! Ritual de chegada na casa da Jé; tirar carta dos anjos perguntando o que o encontro (eu e ela) acrescentaria. Tiramos três; uma pra mim, uma pra ela e outra pra nós. Profecia dos anjos: aprendizado, vontade, aventura.

Fui, vivi detalhes do dia a dia do mundo encantado escolhido/construído por Jessica. Absurdamente bem acolhida, vivi momentos mágicos e emocionei-me demais na hora de partir. Despedida doída. E o corpo sentiu. Senti dores na cervical e a mão e braço esquerdos formigando (até hoje). Acredito que seja compressão de nervo cervical ou hérnia. Além da dor, um cansaço mais forte que eu e lágrimas que não consegui fazer cessar por um bom tempo. No primeiro dia na próxima parada, na Úmbria, fui ao Pronto Socorro. Alguns exames depois, o médico disse: “Difícil diagnosticar… está vivendo um momento de mudança ou muita emoção?”.

Sim, mudanças e emoções. Mudanças externas e internas. Dores e alegrias. Emoções intensas.

Simples, leve e colorida – A casa onde a Jé vive há cinco meses, em San Casciano, Val di Pesa (20 km de Florença), é uma delícia. Em meio a muita natureza e uma vista exuberante, ela me confessou que vive com cerca de um terço do dinheiro que vivia em São Paulo. A vida está mais simples, leve e colorida (a Itália é absurdamente florida!).

Quando pedi pra me contar sua história, respondeu animada: “Sim! É bom lembrar o que nos inspirou. Cada vez que conto é diferente porque cada pessoa tem uma escuta e, assim, acabo sempre descobrindo novas versões da minha própria história”. Bela forma de observar.

Jessica é psicóloga, trabalhou por 14 anos numa grande empresa (de estagiária a diretora de recursos humanos). A vontade de trabalhar com pessoas, servir ao próximo e ao mundo é característica permanente e, até certa altura da vida, sentia que, ali, na empresa, tinha espaço e liberdade para fazer mudanças e transformações em pessoas e grupos que pudessem refletir numa comunidade maior.

Mas a vida é feita de ciclos e a busca não cessa nunca. É preciso olhar/escuta atento(a) para perceber, mesmo em meio ao bem estar, à felicidade e à comodidade que pode se fazer mais, ir além, ampliar. Detectado este poder, é preciso coragem (agir com o coração) para entender o que pode/deve ser feito e mais coragem ainda para sair da zona de conforto, arriscar e mudar em prol de um chamado maior, mais abrangente.

Coragem: muitos pensam que coragem está relacionada a grandes feitos ou atos heroicos. Vai além disso. Coragem vem de Coeur (coração) e Age (agir).

A percepção/processo/movimento da Jé teve início em 2008, em um bonito trabalho de transformação (para o qual também ajudou a criar conteúdos) oferecido pela empresa em que trabalhava. Na prática, “a grande jornada”, englobava reflexões em busca de autoconhecimento e, consequentemente, evolução pessoal e profissional.  Nestes encontros, Jéssica reconectou-se com seu chamado que começou a ficar maior que o espaço que tinha. “Não significava que eu estava infeliz, mas que havia uma necessidade de expandir meu papel transformador, de servir ao mundo.”

Nova realidade – Muitas ideias em mente. A primeira; “pegar o mês de férias pra fazer trabalho voluntario na África”. Hospedada na casa de “Mama Jane” – que não podia ter filhos, então adotou 15 crianças -, Jessica deu aulas de inglês num orfanato criado pela mama, que atendia cerca de 200 crianças. Era 2011.

“O primeiro dia na África foi um choque de realidade. A pergunta era: o que estou fazendo aqui? Mas o ser humano tem uma capacidade de adaptação gigantesca e aquelas crianças, ao mesmo tempo em que não tinham nada (materialmente falando), tinham tudo. Tinham o maior carinho e amor do mundo. Nos últimos dias, a pergunta era: o que estou deixando aqui? Sentia que tinha aprendido muito mais do que havia ensinado. Minha vontade era deixar algo perene, duradouro”. E ela fez mais. Levou para o Brasil, artesanatos feitos pelos moradores da cidade africana e fez um bazar em São Paulo. Todo o dinheiro arrecadado foi enviado à Mama Jane e cobriu um ano de cesta básica e material escolar para as crianças, um ano de aula de inglês pra quatro alunos – que repassariam o aprendizado – e formação para uma professora. Aqui, um pouco mais da experiência da Jé na África: http://mytanzaniaexperience.blogispot.it/

De volta ao Brasil, descobriu o mundo das ecovilas e, encantada, entrou em contato com a brasileira May East, que vive (há mais de 20 anos) na ecovila Findhorn (http://www.findhorn.org/), na Escócia. “Coincidentemente”, May estava em São Paulo. Marcaram um café que rendeu bonitos trabalhos em parceria e conexões com pessoas incríveis como Mônica Picavea e Isabela Menezes, da Oficina de Sustentabilidade. http://www.oficinadasustentabilidade.com.br

“Quando se dispõe ir ao mundo, depara-se com outras realidades possíveis e então se abre uma porta difícil de fechar. Difícil voltar a ser como era antes. Voltar pro meu mundo e viver o dia a dia como vivia antes não fazia mais sentido”.

Jessica resolveu então tirar um ano sabático. Primeiro fez um curso em Findhorn com o objetivo de entender melhor o modelo de sustentabilidade. O curso engloba quatro dimensões: social (construção de relações, senso de comunidade), econômica (alternativas), ecológica (permacultura, subsistência), world view (ligação com o mundo). A experiência foi intensa – uma grande abertura de mente, de mundo -, muito aprendizado, muitas informações e grandes amizades.

Depois da Escócia, realizou projetos de desenvolvimento de comunidades. Foi uma das facilitadoras do EDE (curso de Findhorn) na Amazônia. “Foi importante levar ferramentas para a comunidade para que entendessem como manter-se resilientes às interferências externas”. Na sequencia, desenvolveu, na Índia, um projeto concreto promovido pela ONU-CIFAL para a eliminação da pobreza de 90 vilas no distrito de Odisha.

Cenas da vida – Depois da Índia, Jessica visitou amigas (na Eslovênia e na Itália) que conheceu em Findhorn. Com a amiga italiana, Marina, de Florença, ia a San Casciano visitar amigos. Sempre numa mesma parte do trecho da estrada vinha em mente uma cena. Como se já tivesse vivido ali, algo de outra vida. Um “dejavù” que remete a paixão inexplicável que sente pela região (Toscana).

Outro dia, almoçando na casa do pai de Marina, também no interior da Toscana sentiu que era exatamente daquela forma que queria viver. Mais uma cena da vida visualizada. Mais indagações em mente: “Enquanto muita gente pensa em viver a vida sonhada/desejada quando se aposentar comecei a questionar: Por que adiar? Por que não agora?”.  A estada em Florença, que seria de duas semanas, prolongou-se por dois meses. “Sim, estava feliz em São Paulo, mas sentia vontade de viver de maneira mais simples, perto da natureza”.

Voltou para o Brasil, fez contas e planos, resolveu o que precisava e se mudou para o interior da Toscana em março deste ano (2014).

A mudança na prática – Jessica mudou alguns costumes, reviu valores, abriu mão de algumas comodidades (mas sente-se tão completa que não há espaço para sofrimento ou arrependimento). Está mais conectada com ela mesma e mais integrada ao todo (natureza). Em casa, planta sua própria comida, compra verdura direto do verdureiro (0 km), busca água na fonte, acompanha de perto os ciclos da natureza; crescimento das flores, amadurecer de um fruto. “Aprendi a apreciar o silêncio, desfrutar o momento. Aqui, a paisagem é mais estável. A dinâmica também é outra. Não existe rotina. Todo o novo dia é de fato, novo. Tem o encanto de ser estrangeira e o acolhimento de estar vivendo o presente aqui. É um equilíbrio que alimenta de forma precisa cada momento”.

Os maiores aprendizados acontecem, de fato, fora da zona de conforto.

Meus dias na casa da Jé foram lindos; fizemos pão, colhemos frutas, frutos e flores, caminhamos, corremos, nadamos no lago, meditamos, fizemos yoga – dei aula de muay thai pra ela e uma amiga. Jessica tem o hábito de reunir as amigas para praticar exercícios juntas – cada uma ensina o que sabe. Vivi uma leveza enorme na alma e o mais lindo de tudo; uma felicidade genuína. Foi uma estada/parada que fez bem demais (não à toa, passarei por lá, mais um pouquinho, antes de voltar ao Brasil). Outra coisa que transborda nela; generosidade.

Jessica acredita no ciclo da vida. Quando a amiga eslovena, que conheceu em Findhorn, precisou de uma grande quantia de dinheiro para iniciar o projeto de uma ecovila (http://parkistra.com), num impulso, Jé emprestou o que amiga precisava. “Não estava sobrando, mas foi mais forte que eu. Eu também acreditava no sonho dela e mais, acreditava nela.” Para surpresa da Jé, poucos dias depois, uma amiga brasileira pra quem emprestou, há uns oito anos, outra grande quantia, ligou pra dizer que estava depositando o valor emprestado. “Penso que este foi um sinal para confirmar que estou no caminho certo, agindo com o coração. Quando se acredita e confia, os caminhos vão se abrindo e a vida sinaliza”. Jé não abandonou seus projetos junto a comunidades e o chamado por “servir”. Ela sabe que logo mais estará novamente envolvida com este seu lado social. Tudo em seu tempo.

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E eu? Saí da Toscana encantada. Feliz por ter confiado na minha intuição de me deixar levar ao desconhecido que me apresentou uma pessoa incrível, alguém que, não apenas sonha, mas vive a vida que sonha. Vive exatamente da forma que acredita. Gente destemida, que não adia vida. Gente que ousa dar o primeiro passo, que constrói vida. Gente como o Michael, a Moabi e o Gennaro, da Tribodar, gente como a Jé. Gente que estou amando conhecer. Gente que vive o que ama na vida.

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

 

8 Comentários

  1. É disso que eu tô falando haha! “Gente que vive o que ama na vida.” Lindas experiências! Precisamos de mais exemplos assim.

  2. Lindo relato! Muito inspirador! Aproveito para compartilhar meu site onde escrevo sobre temas relacionados ao desenvolvimento humano http://www.pessoasetalentos.com.br

  3. Sou mãe de Jessica e emocionei-me com a história de minha filha contada por você, Fernanda!
    Tenho acompanhado os passos dela pela linda Toscana, e também me encanto com a simplicidade, o desprendimento e generosidade de Jessica e que você conseguiu traduzir neste seu ótimo texto.
    Meu muito obrigada pelo carinho. Não tem como não se orgulhar de uma filha tão firme no seu propósito de vida.
    Meu forte abraço,
    Yolanda Hollaender

  4. Fernanda, parabéns pelo texto… Para quem conhece a Jé e segue seus passos, sabe que ele “o txt” foi muito autêntico e fiel à trajetória da querida Jé!! Bjao e parabéns again…

  5. Fernanda, parabéns pelo texto… Para quem conhece a Jé e segue seus passos, sabe que ele “o txt” foi muito autêntico e fiel à trajetória da querida Jé!! Bjao e parabéns again…

  6. Teresa Cristina diz:

    Parabéns Fernanda! Belo texto, história de vida corajosa emocionante! Te admiro!

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