Vida que floresce

Por Graziela Gilioli*

graziela gilioli

Altruismo é uma palavra que foi usada pela primeira vez no século XIX pelo filósofo francês Augusto Comte. Ele definia altruísmo como uma inclinação humana à dedicação (individual ou coletiva) aos outros. Essa ideia se opunha ao individualismo, com suas inclinações exclusivamente individuais.

Ainda hoje o individualismo é considerado uma virtude no mundo ocidental e muitas vezes aclamado como a força motora do desenvolvimento das nações. Mas o individualismo está no coração das causas de muitos dos nossos problemas atuais. O “cada um por si” gera a indiferença e o descaso com o outro, com o nosso planeta e com as gerações que estão por vir.

Há uma vida que floresce quando ao invés do individualismo nos voltamos ao altruísmo. O altruísmo é a manifestação genuína da bondade dos homens e transcende os elos familiares. Essa bondade se traduz na ajuda mútua e, apesar das muitas desgraças que acontecem em todo o mundo, há muito mais a partilha do que a pilhagem, muito mais a calma do que o pânico, muito mais a dedicação do que a indiferença. Não importa se somos ateus ou agnósticos ou religiosos, o sentimento altruísta está sempre presente porque é a essência da natureza humana.

A hipótese do egoísmo universal influenciou durante muito tempo a psicologia ocidental, a economia mundial, e também as teorias da evolução que conhecemos hoje. A crença de que somos egoístas por natureza está sendo desmentida por muitos sociólogos, filósofos, físicos e pensadores da atualidade. Na realidade cotidiana, nossa vida é tecida por laços de amizade e de cuidado dedicado ao outro, a despeito da impressão que as mídias nos passam.

O altruísmo não é uma utopia e sim uma qualidade da existência humana. O altruísmo está em toda a parte, nas relações entre velhos e jovens, médicos e pacientes, professores e alunos, homens e mulheres, sábios e ignorantes.

graziela gilioli 2

Vou citar um exemplo do altruísmo na vida real entre um cidadão culto e os habitantes da aldeia de Jobra.

Em 1976, Muhammad Yunus era catedrático do programa de economia rural da universidade de Chittagong, em Bangladesh. Todos os dias no trajeto de sua casa até o trabalho ele atravessava aquela miserável aldeia. Na universidade ficava incomodado com a distância entre o conteúdo das aulas que ministrava e a vida daquelas famílias do lado de fora da universidade.

Movido pelo descompasso entre a teoria acadêmica e a realidade do dia-a-dia dos habitantes de Jobra o professor Yunus se aproximou das famílias da aldeia para entender como funcionava a economia doméstica naqueles lares. Chegou a uma dura constatação: a de que cada família ganhava no final de uma extenuante jornada de trabalho, em média, o equivalente a dois centavos de dólar. Yunus emprestou 27 dólares que foi dividido entre 42 famílias com o fim de livrá-las dos agiotas da região. Mas era preciso criar algo para que as famílias fossem financeiramente independentes. E então, ao contrário de todos os estudos acadêmicos e de todas as projeções econômicas, Yunus criou um banco para conceder micro-créditos aos desfavorecidos e ajudou inúmeras famílias a saírem da miséria.

A concepção dessa iniciativa, empreendida com clareza de propósito, dedicação e amor, traduz o entendimento de que o altruísmo pode transformar a miséria em dignidade, e a feiura em beleza. O que precede a essa iniciativa é um olhar atento e dedicado a perceber o entorno. Esse é o olhar altruísta, que nos permite rever nossos pensamentos e comportamentos, e assim melhorar as vidas ao nosso redor.

Fotos © Graziela Gilioli, Kathmandu, Nepal

Graziela Gilioli

*Graziela Gilioli é escritora e fotógrafa humanista.
Autora de “O Pequeno Médico”, com 7 edições no Brasil,  fotógrafa premiada na 10ª Bienal Internacional de Roma pela obra “Tempo Esquecido”, e palestrante do TEDxTalks.

Graziela é uma intérprete de vozes e sentimentos do nosso tempo.

Deixe uma resposta

Por uma vida mais consciente

Você quer receber as novidades e promoções do Nowmastê no seu e-mail?