Um olhar deísta sobre o mundo

Por Saly Vieira*

deismo

Sempre tive uma maneira peculiar de ver o mundo, mas nunca soube que isso tinha um nome. Até que, por acaso, li sobre alguém que tinha uma visão semelhante. E lá estava a definição – deísta. Nossa mente precisa identificar, classificar e ordenar as coisas neste mundo para que ela própria possa definir seu lugar no universo. Rótulos são, portanto, necessários, inevitáveis e naturais – quaisquer efeitos secundários que advenham daí, como preconceitos raciais, religiosos, sociais etc., surgem por outros fatores, não por esse mecanismo. Ter descoberto que havia outros que pensavam o mesmo que eu foi muito gratificante – então, eu não sou a única louca por aqui!?! Todos necessitamos  nos encaixar no meio social para mantermos um bom equilíbrio psicoemocional, logicamente, sem abrir mão de sermos autênticos, contudo, quanto mais  original for o indivíduo, mais árduo é para ele se encaixar  e cultivar aquele sentimento de normalidade, tão caro à autoestima. Mas afinal, o que é deísta? Alguns dicionários definem, mas a Wikipédia o faz melhor:

“ Deísmo é uma posição filosófica naturalista que aceita a existência e natureza de Deus (…), não pratica nenhuma religião (…), a interpretação de Deus pode variar para cada deísta. (…), Deus não interfere na vida dos seres humanos e nas leis do universo (…), e as  revelações divinas e livros sagrados das religiões são interpretados como  invenção de outros seres humanos, e não como fontes de autoridade, mas podem aceitá-las como inspiração espiritual.”

Ouço com frequência: “se for a vontade de Deus…”, “Deus não quis…” etc. Para o deísta isso não faz sentido. Não acreditamos que deus (sim, com letra minúscula, pois não achamos que ele/a ou o nada, se importe com essa questão menor) se ocupe de nossas necessidades e desejos individuais. Particularmente, não acho que deus sequer me conhece pelo nome! E isso não contradiz sua oniciência. Da mesma forma, meu dedão do pé é composto de zilhões de células que sei que estão lá, cumprindo sua função, porém, desconheço a natureza  singular de cada uma. Deístas são criaturas curiosas alimentadas  pelo imenso e desconhecido universo. Tudo começa com alguma pergunta. Por que isso? Por que não? Onde é? Por que é? O que é? Como funciona? Não existem dogmas (crenças inquestionáveis). Nada é real e confiável se não suporta ser submetido à mais simples análise. O universo é feito de química, física e matemática pura. Tudo isso com um “sopro de mágica divina” (minha livre interpretação) que permite que tudo exista e se manifeste com perfeição e sincronicidade. Temos arbítrio, sim, de criar realidades com nosso pensamento, mas geralmente, não nos damos conta de que fomos nós, e não algo externo e superior, que determinou o resultado. Tudo é possível porque “there is no spoon” (Matrix).

Nos momentos difíceis…não rezamos. Parafraseando o poeta, conversar com deus é preciso, rezar não é preciso. Conversamos com deus – e esperamos que haja alguém ou algo ouvindo out there or inside – eu acredito que sempre há! Não adianta pedir isso ou aquilo, pois desconfiamos que não é assim que funciona – e isso é frustrante. Um amigo me disse uma vez que o universo é uma teia que reverbera tudo que emitimos – isso é uma esperança; ou uma maldição, para alguns.

Resumindo, achamos que deus é uma hipótese plausível, com quase 100% de chance de ser real. Se Darwin estiver errado, esperaremos uma teoria melhor, mas temos certeza que não viemos de Adão e Eva. Jesus não é o salvador porque não existiu nenhum pecado original do qual precisemos ser salvos. Não acreditamos em santos como intermediários, tampouco em demônios que nos desviam para o mal. Não cremos que deus seja um velhinho bondoso que se senta e observa os humanos, distribuindo bençãos especiais e castigos merecidos. Não existem pessoas ou grupos privilegiados por ele e não  somos a criação máxima de deus – o que é ótimo ou concuiríamos que deus não é lá muito brilhante como dizem. Não vamos a igrejas, não nos reunimos em assembléias e, sendo pensadores independentes,  há muitas idéias divergentes, mesmo entre nós. Observamos e formulamos hipóteses (informais – aqueles que desejam formalizá-las,  acabam se tornando cientistas!). Alguns de nós são simpáticos á idéia da encarnação, outros não. Há os que pensam que nossa definição de  seres vivos é muito limitada ainda e incluem rochas e os  astros nessa categoria. Que só porque um planeta não oferece vida e condições climáticas semelhantes à nossa, não significa que não possa haver criaturas inteligentes e evoluídas (mais que nós), que suportem calores,  frios e pressões extremas.

É um mundo de idéias e se existem tantas dimensões, há de haver inúmeras possibilidades. Nos recusamos a viver com uma cosmologia tão limitada como as pregadas pelas religiões (sem ofensa), pois somos deslumbrados pela riqueza que os universos apresentam a quem os quiser descobrir. Então, se você também se identifica com esta maneira de ver o universo, saiba que você pode até ser louco, mas não está sozinho e que sua anomalia o torna, simplesmente, um deísta.

Bem-vindo ao barco e vento nas velas!

Sally Vieira1

Saly Vieira declara-se uma pensadora informal e é uma das colaboradoras que buscou no Nowmastê um espaço para dividir  suas ideias e conceitos.

 

 

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11 Comentários

  1. Saly Vieira, conseguiu, sem pedantismos, definir perfeitamente os pensamentos que povoam minha mente. Sou deísta e nem sabia! Muito bom.’

  2. Bacana Saly! No fundo,mais que deísta, uma humanista ecológica! Bjs

  3. Flávia Gonçalves diz:

    Amiga, se todos tivessem essa visão o mundo seria muito melhor e mais fácil de viver !!!

  4. Querida Saly, O texto é lindo e muito bem escrito mas não me surpreende pois já tivemos oportunidade de conversar e quando eu digo que não me surpreende é porque acho que te conheço pelo menos um pouquinho. Eu simplesmente te considero uma pessoa fascinante. Eu também comungo um pouco desse pensamento, mas ainda sou um pouco convencional. Bjs.

  5. Me identifico muito com tua visão. Passando por muitos estágios fui me livrando dos conceitos impregnados na nossa cultura, tendo como experiência que o medo (bastante compreensível para quem vive aqui sem manual de instrução) é responsável pela ideia de que tem alguém lá fora para nos ajudar. Viver sem medo e responsabilizar-se por si própria é coisa de adulto. De quem passou por muita coisa, reformulou-se, libertou-se e vive confiante no fluxo natural da vida.

  6. Melhor descrição sobre o que é Deísmo que já li.

  7. Texto lindo, simples, de leitura tão viciante que ficou curto. Obrigado, precisamos de mais Salys!

  8. Boa definição, só complementando; os deístas acreditam que Deus possa ser explicado racionalmente

  9. Finalmente descobri a palavra que me defini. Deísta. Obrigada Saly.

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