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Um olhar deísta sobre o mundo

Um olhar deísta sobre o mundo

Nowmastê

Por Saly Vieira*

Photo by NASA on Unsplash

Sempre tive uma maneira peculiar de ver o mundo, mas nunca soube que isso tinha um nome. Até que, por acaso, li sobre alguém que tinha uma visão semelhante. E lá estava a definição – deísta. Nossa mente precisa identificar, classificar e ordenar as coisas neste mundo para que ela própria possa definir seu lugar no universo. Rótulos são, portanto, necessários, inevitáveis e naturais – quaisquer efeitos secundários que advenham daí, como preconceitos raciais, religiosos, sociais etc., surgem por outros fatores, não por esse mecanismo. Ter descoberto que havia outros que pensavam o mesmo modo que eu foi muito gratificante – então, eu não sou a única louca por aqui!?! Todos necessitamos nos encaixar no meio social para mantermos um bom equilíbrio psico-emocional, logicamente, sem abrir mão de sermos autênticos, contudo, quanto mais  original for o indivíduo, mais árduo é para ele se encaixar e cultivar aquele sentimento de normalidade, tão caro à auto-estima. Mas afinal, o que é deísta? Alguns dicionários definem, mas a Wikipédia o faz melhor:

“Deísmo é uma posição filosófica naturalista que aceita a existência e natureza de Deus (…), não pratica nenhuma religião (…), a interpretação de Deus pode variar para cada deísta. (…), Deus não interfere na vida dos seres humanos e nas leis do universo (…), e as  revelações divinas e livros sagrados das religiões são interpretados como  invenção de outros seres humanos, e não como fontes de autoridade, mas podem aceitá-las como inspiração espiritual.”

Ouço com frequência: “se for a vontade de Deus…”, “Deus não quis…” etc. Para o deísta isso não faz sentido. Não acreditamos que deus (sim, com letra minúscula, pois não achamos que ele/a ou o nada, se importe com essa questão menor) se ocupe de nossas necessidades e desejos individuais. Particularmente, não acho que deus sequer me conhece pelo nome! E isso não contradiz sua oniciência. Da mesma forma, meu dedão do pé é composto de zilhões de células que sei que estão lá, cumprindo sua função, porém, desconheço a natureza  singular de cada uma. Deístas são criaturas curiosas alimentadas  pelo imenso e desconhecido universo. Tudo começa com alguma pergunta. Por que isso? Por que não? Onde é? Por que é? O que é? Como funciona? Não existem dogmas (crenças inquestionáveis). Nada é real e confiável se não suporta ser submetido à mais simples análise. O universo é feito de química, física e matemática pura. Tudo isso com um “sopro de mágica divina” (minha livre interpretação) que permite que tudo exista e se manifeste com perfeição e sincronicidade. Temos arbítrio, sim, de criar realidades com nosso pensamento, mas geralmente, não nos damos conta de que fomos nós, e não algo externo e superior, que determinou o resultado. Tudo é possível porque “there is no spoon” (Matrix).

Nos momentos difíceis… não rezamos. Parafraseando o poeta, conversar com deus é preciso, rezar não é preciso. Conversamos com deus – e esperamos que haja alguém ou algo ouvindo out there or inside – eu acredito que sempre há! Não adianta pedir isso ou aquilo, pois desconfiamos que não é assim que funciona – e isso é frustrante. Um amigo me disse uma vez que o universo é uma teia que reverbera tudo que emitimos – isso é uma esperança; ou uma maldição, para alguns.

Resumindo, achamos que deus é uma hipótese plausível, com quase 100% de chance de ser real. Se Darwin estiver errado, esperaremos uma teoria melhor, mas temos certeza que não viemos de Adão e Eva. Jesus não é o salvador porque não existiu nenhum pecado original do qual precisemos ser salvos. Não acreditamos em santos como intermediários, tampouco em demônios que nos desviam para o mal. Não cremos que deus seja um velhinho bondoso que se senta e observa os humanos, distribuindo bençãos especiais e castigos merecidos. Não existem pessoas ou grupos privilegiados por ele e não  somos a criação máxima de deus – o que é ótimo ou concuiríamos que deus não é lá muito brilhante como dizem. Não vamos a igrejas, não nos reunimos em assembléias e, sendo pensadores independentes,  há muitas idéias divergentes, mesmo entre nós. Observamos e formulamos hipóteses (informais – aqueles que desejam formalizá-las,  acabam se tornando cientistas!). Alguns de nós são simpáticos á idéia da encarnação, outros não. Há os que pensam que nossa definição de  seres vivos é muito limitada ainda e incluem rochas e os  astros nessa categoria. Que só porque um planeta não oferece vida e condições climáticas semelhantes à nossa, não significa que não possa haver criaturas inteligentes e evoluídas (mais que nós), que suportem calores,  frios e pressões extremas.

É um mundo de ideias e se existem tantas dimensões, há de haver inúmeras possibilidades. Nos recusamos a viver com uma cosmologia tão limitada como as pregadas pelas religiões (sem ofensa), pois somos deslumbrados pela riqueza que os universos apresentam a quem os quiser descobrir. Então, se você também se identifica com esta maneira de ver o universo, saiba que você pode até ser louco, mas não está sozinho e que sua anomalia o torna, simplesmente, um deísta.

Bem-vindo ao barco e vento nas velas!

Sally Vieira1

*Saly Vieira declara-se uma pensadora informal e é uma das colaboradoras que buscou no Nowmastê um espaço para dividir  suas ideias e conceitos.

 

 

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