Um bate-papo com a Monja Coen

Por Cristiana Dias Baptista*

Há algum tempo, um amigo me chamou para ir ao Zendo Brasil assistir uma pequena palestra da Monja Coen. Eu a havia visto no filme Eu Maior e gostado muito da sua forma de falar, então topei. Vê-la ao vivo reforçou a minha primeira impressão. A de que se tratava de uma pessoa muito especial, com muita sabedoria, lucidez e eloquência.

De lá para cá, li muitos textos, assisti outras palestras, participei de sessões de zazen (meditação) no Zendo e de alguns outros encontros com ela. No meio do caminho, fiquei sabendo pelo meu pai que somos primas (o nome da Monja Coen é Claudia Dias Baptista Souza; sua mãe era prima-irmã do meu avô), o que aguçou ainda mais o meu interesse.

Procurando mais informações descobri, então, que a prima Monja tem uma história de vida riquíssima e cheia de transformações. Como estou começando a trilhar minha pequena história de transformação resolvi bater um papo com ela e, quem sabe, pegar uma dica ou outra.

Peguei várias e ainda descobri a sua faceta mais incrível, a sua humanidade.

Aqui vai!

monja e eu

Mudar não é uma tarefa fácil, né? Não só pela mudança em si, mas também pelo apego que temos a quem somos quando fazemos aquilo que estamos deixando de fazer. Estou em uma fase de mudanças muito boas, mas, mesmo assim, em alguns momentos, já pensei: “putz, eu não quero deixar de ser quem eu sou…”. Dá um friozinho na barriga. Mas daí, quando você menos espera, você já está mudada.  Pelo que li a seu respeito, as mudanças na sua vida foram bem radicais. Como foi essa transformação da Claudia para Monja Coen?

É interessante a mudança. Ela não aconteceu em um momento apenas. Ela foi acontecendo.  Eu não decidi mudar. A mudança foi acontecendo junto com o que eu estava vivendo. A experiência no jornalismo (antes de ser Monja, Claudia era jornalista) foi muito intensa e levantou muitos questionamentos sobre o que é a vida, o que é a morte, o que nós estamos fazendo aqui. O que eu posso fazer.

Eu tinha vinte e poucos anos, vivendo numa sociedade que estava me parecendo muito injusta, muito desigual. O que eu posso fazer? Um dia, fiz matérias sobre sociedades alternativas e percebi que havia outras formas de viver, existia outro caminho. Mas foi só muito mais tarde que eu comecei a fazer meditação de forma sistemática e pude perceber que a meditação realmente é um caminho transformador.

É interessante isso que você disse, sobre o medo. Uma vez encontrei uma senhora que veio da Suíça para o nosso mosteiro em Nagoya e ela dizia isso, que ela quando fazia zazen ficava com muito medo, pois parecia que ela iria perder a identidade. Mas eu acho que não tive esse medo de perder a identidade, pois era uma identidade que eu já estava meio cansada.

Na minha época de jornalista, a gente saia do jornal e ia para o bar. Nós bebíamos muito. Havia uma espécie de insatisfação com a existência, uma dificuldade em lidar com a dor de estar em contato direto com as pessoas que estão sofrendo. É diferente de você ler ou ver na televisão. Como jornalista, você conversa com as pessoas que estão sofrendo. Somos seres empáticos, doía muito e a gente não sabia o que fazer com aquilo, então saíamos a noite para comer e beber e falar do jornal. E ser o jornal.

Eu tive um acidente de carro por causa disso. Acho que já foi um alerta: “o que você está fazendo?”. Outros incidentes também começaram a me fazer pensar: “Puxa, será que é isso que eu quero? Como é que estou vivendo minha vida?”.

Acho que foi aí que eu quis essa mudança. Eu preciso mudar. Do jeito que está indo não está bem.

Eu tive até uma tentativa de suicídio. E imagina que o remédio que eu tinha em casa eram antibióticos! (risos) Era uma sensação de querer ir embora daqui, “chega, tá chato”.  Acho que esse foi o ponto de mutação. Meu psicólogo, na época, ficou muito bravo comigo. Acordei fazendo lavagem no hospital e ele disse para mim: você quer dormir? Vou levar você para uma clínica onde você vai poder dormir bastante e repensar a sua vida. Eu fui achando que seria uma coisa muito elegante ser internada, mas aquilo começou a ficar muito chato (risos). Eu não aguentava mais dormir.

Foi aí que eu fui repensar a minha vida. Eu tinha vinte e poucos anos e houve em mim um grande movimento de mudança de “chega disso”. Eu estava tendo um relacionamento na época com um jornalista que era uma pessoa muito inteligente, mas que bebia muito. Era uma relação muito conflituosa, de paixão e de briga. E isso tudo foi mexendo muito comigo. Até chegar em um ponto em que eu disse: “não quero mais”.

O fato de querer morrer… No Zen a gente fala: “eu quero morrer para essa identidade”. Não é que eu quero matar esse corpo, mas essa identidade que eu criei para mim não está mais me satisfazendo e eu quero me livrar dela. Em vez de ter medo, eu me atirei em outra coisa.

Quando comecei a fazer práticas meditativas, fui tomar LSD. Eu estava procurando alguma coisa e nessa procura o LSD trouxe algumas respostas sobre o que é Deus. Eu não tomava LSD para fazer festa ou para namorar como algumas pessoas faziam. Era para responder uma pergunta filosófica e existencial. O que é isso? Para o que serve? O que é vida e morte? Eu não acreditava de jeito algum na imagem de Deus criada pela Igreja Católica, não cabia na minha cabeça.

Essas experiências foram muito interessantes. Eu estava com um grupo de escoceses e tinha um líder espiritual que guiava a gente. Foram encontros muito fortes com o que a gente vai chamar de “essência da mente” no Zen, e ele falava: “isso é Deus e ele está conversando com você”. Então foi uma coisa muito bonita, muito agradável. Uma sensação de pertencimento e de alegria de viver que tinha reaparecido.

Mas depois disso eu parei com tudo e voltei ao Brasil e o meu lugar no jornal estava a minha espera. Eu tinha muita saudade da minha filha, havia ficado mais de dois anos sem vê-la, mas não estava muito segura. O jornal não era um lugar para ter filhos e eu queria ficar com ela. Então resolvi dar aulas de inglês. Mas a questão continuava…

Um tempo se passou e acabei conhecendo um norte-americano e fui morar na Califórnia. Lá, com a ajuda de um livro, comecei a meditar em casa. Daí, para começar a fazer meditação no Zen Center, foi um pulo. Quando eu cheguei lá eu pensei: “Nossa é isso aqui! Não precisa de droga, não precisa de LSD, de haxixe, é só o ser humano.”.

Com essa experiência eu pude perceber também como o álcool é prejudicial, ele amortece a mente. Ele é um remédio para a dor que não procura a causa da dor. Nunca mais me interessei por bebida. O zazen foi a cura completa.

Meu marido, na época, trabalhava com música e as pessoas ainda fumavam muita maconha. Teve um marco para mim que foi um retiro de 7 dias que eu fiz. Quando meu marido foi me buscar e colocou uma música alta que a gente gostava e eu pensei “nossa, que música forte”. A mudança aconteceu assim. Eu disse, puxa essa música está alta demais.

Houve um desgaste completo do personagem que eu estava vivendo, que era muito inteligente, muito ágil, ganhava prêmios, era muito bem recompensada financeiramente e tinha muito sucesso. Mas é a tal historia, não é só isso. Havia um desgaste emocional, um questionamento existencial que aquilo não respondia.

Teve alguma coisa que foi difícil deixar para trás?

A questão da minha filha sempre foi a coisa mais difícil. Quando eu pedi uma licença no jornal para ficar seis meses fora, o que foi difícil foi isso. Eu nunca havia me separado dela. Ela estava com 7 anos e eu lembro que esse voo foi o mais difícil que já fiz, porque eu queria levá-la comigo e a minha família disse não, primeiro você se estabelece e depois venha buscá-la. Então foi muito sofrido.

O meu relacionamento com ela até hoje tem um pouco disso. A gente tem uma saudade que não acaba. De não ter convivido numa época que não volta.

Foi isso que eu renunciei. Uma coisa que é muito sagrada, que é a convivência com os filhos. Foi a coisa mais dolorosa em toda essa história e não é recuperável.

Agora, eu encontro com ela, mas ela é um personagem que eu não conheço direito. Eu conheço aspectos dela, mas tem outros que são estranhos para mim. Foram muitos anos separadas. A gente se encontrava uma vez por ano, nas férias. Então, nós tivemos poucos atritos e poucas brigas que mães filhas tem, porque somos meio estranhas uma para outra. Embora exista uma grande intimidade por um lado, por outros tem um certo distanciamento que a gente não consegue romper completamente. Brigas e conflitos trazem uma intimidade muito grande. A gente tem algumas pegas de vez em quando.

Como a sua filha te descreve?

Ela fala “ainda bem que minha mãe medita por que senão ninguém ia aguentá-la”. Ela acha que eu sou muito nervosa e muito brava e se não fosse pela meditação eu seria uma pessoa muito difícil de conviver. (risos)

E ela está certa?

Eu acho que sim. Nós temos uma genética que é meio brava, né? Uma genética de desbravadores, de pessoas que se arriscaram muito, com muita luta e muita violência. Pessoas que não tem medo e se atiram. E as histórias que meu avô contava é de que as mulheres da família eram assim também. Fui alimentada com muita história de valentia.

Como a Monja se separa da Claudia?

A Monja tomou conta. A parte da vida monástica absorveu aquela menina, aquela jovem. Até mesmo no relacionamento com a filha. Por que muitas vezes eu tenho que ter uma atividade profissional e ela quer sair comigo, que almoçar e não dá. Ela fica magoada, ofendida. Eu não posso fazer nada.

O meu voto faz com que a Monja seja a prioridade. Filho, família, por mais que eu goste, não é prioridade. E isso ela sente e se ressente.

Quando eu voltei do Japão, eu falava; venha meditar. E ela dizia: “não vou, essa Ordem tirou minha mãe de mim”. Não foi a Ordem que tirou, porque a Ordem chegou depois. Mas ela tinha esse ressentimento. Levou dez anos para ela vir praticar. Daí ela passou uns dois anos o tempo todo comigo, ia em todas as palestras, ficava o tempo todo comigo. Até as amigas dela se preocuparam, achando que ela ia virar monja.

É engraçado como, no geral, as pessoas não querem que a gente mude…

É exatamente. Elas acham que você está ficando séria. Uma senhora me disse que estava perdendo as amigas, pois as festas que elas iam e as conversas que tinham já não estavam interessando mais.

Mas gente muda nesta vida, podemos criar novos amigos. Se você não consegue levar a sua mudança e o seu crescimento para o grupo onde está você vai criar um novo grupo. Quantas pessoas estão vivendo o que já não é uma alternativa, é um momento de discernimento claro do seu papel na realidade.

Não é apenas o que eu faço que vai me dar um bom salário e uma boa posição social, mas isso me preenche? Se preenche, tudo bem. Agora, se não me preenche, se está faltando alguma coisa, a gente tem que ir atrás.

O que você guarda da Claudia?

O ficar brava atoa, a impaciência. O meu papel agora é de ser professora, orientadora; e eu espero que as pessoas aprendam com muita rapidez. Mas, às vezes, elas não aprendem com rapidez e eu fico um pouco impaciente e isso acaba afastando algumas pessoas.

A pessoa começa a fazer a coisa errada e eu vou ficando irritada e, sem querer, eu solto uma. O mais adequando é esperar que a pessoa cresça e aprenda. Então eu tenho uma certa impaciência com a vida, com as pessoas a minha volta. Eu acho que elas já deviam estar fazendo, já deviam ter percebido, mas elas criam uma coisa que eu não gosto muito que é uma dependência de mim. Eu percebo um medo da responsabilidade e medo da crítica, “a Claudia vai ficar brava, a Monja vai dizer, ah bem, vamos ver” (risos)

Ontem eu falei com a minha superiora no Japão e sempre falar com ela é uma delícia, pois o que eu tento trabalhar em mim para me tornar uma pessoa melhor, mais tranquila, é o que ela inúmeras vezes me sugeriu. Coisas assim: mantenha uma face alegre, não seja tão exigente com os outros, sorria. E ela nunca ficou brava para dizer isso, nunca alterou a voz, nunca falou uma palavra rude. Ela repetia como se fosse a primeira vez. E, às vezes, eu pensava: “nossa, será que ela já se esqueceu que me disse isso”. Ela não se esqueceu, mas se a pessoa não está pronta para receber a mensagem, eu vou falar de novo como se fosse a primeira vez. Esse é o meu aprendizado de agora. O que tento fazer. Como vou falar para as pessoas, mesmo que eu já tenha falado 10 vezes, se não foram capazes de ouvir, eu não vou perder a paciência e falar com mais rudeza, vou procurar trazer de uma maneira amorosa, de fazer com que a pessoa acorde, desperte. Por que é o outro que tem que despertar, não sou eu. Essa é minha dificuldade.

Você parece exercer um encanto sobre as pessoas? Será que é a careca? Você imaginava que teria tanto sucesso?

Tem duas coisas que acredito que justificam. Primeiro, quando cheguei ao Brasil, tinham poucas mulheres carecas. Notei que, quando eu aparecia na televisão, e viam uma mulher careca, o pessoal parava para olhar. Fui chamada muitas vezes por grupos oncológicos para falar com mulheres que estavam perdendo o cabelo para dizer: é legal ficar careca, não é feio. Isso deu uma visibilidade maior.

Segundo, acho que pelo fato de ter sido jornalista, eu acredito muito na mídia, sei que ela é importante. Enquanto tem muitas pessoas que quando vão dar entrevista ficam com muito medo do que vão falar, de serem mal interpretados. A gente sabe que muitas vezes as coisas são mudadas no copy desk, quando faz corte de matérias pode selecionar uma frase que, solta no ar, tem outro sentido, mas isso é um risco que temos que correr. E é melhor do que ficar em silêncio e não transmitir uma coisa que a gente acha que é preciosa. Então eu sempre me coloquei muito disponível. Porque acredito e sei como é importante o papel de você informar, de dizer, isso existe.

Você não acha que a sua história pessoal de transformação também tem um apelo? Tipo: se a Claudia virou Monja eu tenho chance de melhorar um pouquinho?

Faço muita brincadeira sobre isso. Quando fui morar em Los Angeles eu trabalhei no Banco do Brasil e essa semana mesmo eu fiz uma palestra para bancários no Nordeste e eu disse: “trabalhar em Banco faz a gente virar Monge com muita facilidade”; e todos bancários concordaram, porque a vida de bancário é difícil, você lida com pessoas indignadas, pessoas que querem empréstimos e você não pode dar, ou que já tem um e não podem pagar e você tem que cobrar os juros. Então os relacionamentos são difíceis. Eles acharam muita graça.

Recentemente eu vi um documentário sobre o professor Hermógenes em que perguntam a ele no final da vida, aos quase 100 anos: “qual o seu maior aprendizado”? E ele diz: “Que esse Hermógenes ainda me dá muito trabalho”. Como é a sua relação com o o Ego?

A gente está sempre nesse auto-observar e a perceber que falta. Eu não chegarei a um estado absoluto para dizer sou um ser perfeito, nenhum de nós chegará. Aquele que diz isso está criando uma imagem de si mesmo que é perigosa até. A vida é um processo contínuo de aprimoramento e de perceber que “nossa ainda tem pontinha que achei que não tinha, achei que já tinha arredondado este pedaço, mas, de repente vem uma fisgada que gostaria que não existisse”.

É um processo contínuo. Cada vez que releio textos para os meus alunos percebo que ainda não tinha compreendido tudo. Cada releitura é um aprendizado. Não é dizer, puxa já li esse texto tantas vezes que já sei de cor. Não adianta saber de cor, por que o sentido muda e vai mudando conforme o seu estado.

O professor Hermógenes dizia uma coisa que eu adoro, ele dizia que estava criando uma nova religião que chamava “desilusionismo”. Acho isso uma glória. Cada vez que temos uma desilusão, estamos mais próximos da verdade. Por isso, que a gente agradeça. Acho isso muito precioso mesmo.

Tem uma história, não sei se é São Francisco ou Santo Antônio, é um desses cristões medievais que dizia o seguinte: “Quando eu caio na neve e estou sozinho e não tem ninguém que me ajude e me machuco, é nesse momento que estou mais próximo de mim”.  Quer dizer, quando você não tem nada, só dor e sofrimento e não tem quem ajude, eu sei que tem alguma coisa que me protege, me ajuda e me leva adiante. Esses encontros são sempre extraordinários mesmo.

A prática do zazen é uma prática que exige um pouco de desconforto físico, de persistência, de paciência. Acho que isso para mim foi muito importante. O não desistir. Por que se você desiste, você não chega lá. Não chega nesse encontro que a gente vai chamar com a essência do ser, com a natureza Buddha. Mas você precisa passar pelas fases.

Às vezes a gente quer um atalho. Como é que eu chego lá sem passar pelas dificuldades? Mas as dificuldades são o próprio caminho. E quando você as acolhe, em vez de querer lutar e acabar com elas, é que há mudança. E, às vezes, no dia a dia, a impaciência vem e ela impede que você possa fluir. É um treinamento incessante.

Qual o grande ensinamento que você recebeu da vida até hoje?

Respire conscientemente. Eu chamo de presença absoluta. Trabalhar a presença absoluta. O que estou sentindo agora, como isso pega no meu corpo, onde começa e onde termina. Assim você não é aprisionada pelas sensações, emoções e sentimentos. Eles acontecem, são importantes, são lindos, mas não te aprisionam.  Você é livre para sentir e deixar passar.

Tinha um mestre no Japão que dizia assim: “Abra suas mãos e nela cabe todo o Universo. Segure uma só coisa e você se torna prisioneiro”. O tempo todo é isso, treinar como abrir as mãos. Eu vou percebendo que me pego numa coisa, depois em outra. É um exercício contínuo, mas é gostoso (risos). É bom!

Cristiana*Cristiana é economista e jornalista, trabalha como planejadora financeira pessoal e é sócia do Nowmastê. Nas horas vagas seu maior prazer é viajar e contar histórias.

2 Comentários

  1. Matéria muito boa com a Monja Coen. Sobre o sentido da vida, espiritualidade e aprendizado. A vida é uma corrente de ir e vir. Nossa efêmera existência é de aprendizado. Parabéns ao site com conteúdos interessantes e dinâmicos.

  2. A monja me traz paz , Namaste

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