Todo o reconhecimento a Maria Celeste de Castilho, pioneira no ensino da ioga no Brasil

Por Madson de Moraes*

professora celeste Todas as quartas e sextas-feiras algumas alunas compareciam quase que religiosamente para a aula de ioga com a lendária professora Maria Celeste de Castilho. Estendiam o tapete por toda a sala da casa no bairro do Butantã, em São Paulo, e concentravam-se em realizar tudo o que a professora, até então com 92 anos, ensinou a elas por décadas. O detalhe principal é que as aulas aconteciam com a ajuda de áudios gravados há alguns anos pela Professora Celeste, como era conhecido no meio. Um carinho que as alunas dedicaram nos últimos anos de vida da exigente e amorosa professora.

“Nos últimos dois anos fizemos aula com a ajuda de um CD que ela gravou há tempos. Pagávamos a mensalidade como se fossem aulas normais.Gostávamos muito da Celeste. Ela foi tão boa para todos nós”, conta Lavínia, de 56 anos, que faz ioga há 25 anos e começou a ter aulas com Celeste por meio da mãe.

Vera tem 85 anos e fez aulas com a professora por mais de cinco décadas. “Eu tinha tudo em casa, mas o gostoso era fazer ioga na casa dela. As séries que eu fazia sozinha em casa não tinham graça! Lá era um céu para nós, uma benção. Ela nos ajudou a vida toda. Quando ela fez 90 anos nós festejamos bastante”, diz. Já Célia Foz tem 91 anos e teve aulas com a Professora Celeste há 60 anos.

professora celeste Todo esse carinho não é por menos: a Professora Celeste, que morreu no dia 29 de março de 2016, foi uma das grandes autoridades da ioga no Brasil e uma das primeiras mulheres a ensinar em São Paulo. Ela, que nasceu em 1923 numa fazenda onde hoje é a cidade de Monte Verde, em Minas Gerais, optou por viver seus últimos anos mais reclusa pelas perdas dos três filhos.

O último morreu há poucos anos e foi sua sobrinha, Lídia Castilho Mendes, que sempre esteve ao lado da professora, a responsável em dar a notícia. “Ele morreu dois dias antes de chegar. Ela estava arrumando tudo para receber o filho. Depois que ela perdeu o terceiro filho foi muito difícil. Ela teve uma caída emocional muito grande. É difícil você perder, sozinha, três filhos, batalhando sempre, passando amor e carinho para as pessoas”, conta.

Ao mesmo tempo em que vivia o luto pela perda do último rebento, outras perdas ocorreram. Foi nesse período que Celeste era dopada, por pessoas que trabalhavam em sua casa, como intuito de roubar suas economias. “Não sabíamos ao certo se todo aquele comportamento dela era resultado da tristeza pela perda do filho. Ela dormia nas aulas e todo mundo achava que era depressão ou outra coisa. Mais tarde descobrimos que ela era dopada e que essa pessoa tirou todo o dinheiro da conta dela. Tia Celeste ficou muito chateada depois que descobriu tudo”, explica Lídia.

Para ajudar a professora a recompor a vida financeira, Eleonora Marsiaj, amiga que fez aulas de ioga por mais de 30 anos com Celeste, Lidia e outras amigas resolveram se unir para escrever a biografia Sob o céu de Celeste (Riemma Editora) e levantar um dinheiro. Eleonora, uma das grandes incentivadoras, chegou a dar aulas de meditação em casa para ajudar financeiramente a professora.

Por causa de todos esses dissabores, Celeste contou, deitada em sua cama, que estava de férias da ioga. “Precisava de descanso e agora eu estou tendo esse descanso. Estou de férias, descansando um pouco”, disse. Na sua biografia, ela explica a receita para superar todas as suas perdas: “Às vezes me perguntam como aguentei passar por tudo o que passei. O que foi que me ajudou? A ioga”.

professora celeste A paixão pela ioga nos anos 1950

Vivendo de aluguel até a meia-idade, Celeste morou numa casa no bairro do Butantã, em São Paulo, que só conseguiu comprar quando tinha mais de 70 anos. As inúmeras estátuas e quadros que remetem à ioga foram companhia para a professora. O coque impecável e a fala firme e suave da mulher pequena de olhos expressivos e vivos foram algumas marcas registradas.
Como dizia o cenógrafo francês e seu primeiro marido, Michel, a Professora Celeste tinha o dom de embelezar as pessoas com suas expressões,
ensinamentos e intuições por onde passava.

A paixão pela ioga começou nos anos 1950 quando ela encontrou um livro do marido com ilustrações as tradicionais posturas. Costureira na época com a obrigação de ficar sentadas horas a fio, ela começou a imitar as posturas sugeridas nos livros e se sentiu bem melhor. O marido implicou e Celeste teve de fazer as posturas às escondidas. Dali em diante ela nunca mais largou a ioga nem mesmo quando teve, mais tarde, que se submeter a duas operações no joelho e na coluna.

“Em uma das vezes em que eu tentava praticar uma das posturas, ele me alertou dizendo que era preciso ter um conhecimento profundo para que eu não fizesse meus exercícios de forma errada. Mas, na ocasião, infelizmente não conhecíamos nenhum”, relata. Nesse meio tempo, Celeste foi se aprimorando com os livros que encontrava pelo caminho.

professora celesteSeu primeiro trabalho foi na academia de Shimada Shotaro, professor de judô do marido e o primeiro homem a ensinar ioga na capital paulista. Celeste começou a ter aulas de kendô com Shimado e logo se tornou a primeira mulher no país a praticar a antiga luta de samurais. Ambos se juntaram para praticar e estudar juntos a ioga e, substituindo o professor numa aula, Celeste começou ali sua carreira como professora de ioga.

De lá para cá foram décadas e décadas de amor ao ensino da ioga com aulas nos clubes Jóquei Clube de São Paulo, Esporte Clube Pinheiros, Sociedade Harmonia do Tênis e o Atlético Paulistano, sem contar nas aulas dada em casa, que costumavam começar às oito da manhã e só terminar às nove da noite. Em alguns sábados, a Professora Celeste ainda dava aulas no curso de pós-graduação em ioga na Faculdade Metropolitana Unificada (FMU). Uma rotina puxada para alguém que tinha mais de 80 anos na ocasião. “Ela acordava todos os dias às 5 da manhã para fazer a ioga dela. À noite, depois do dia puxado, gostava de ver novela. Foi uma mestra para todos nós”, conta a sobrinha Lidia.

Amizade com o professor Hermógenes

professora celesteA admiração que Celeste nutria pelo Professor Hermógenes, uma das grandes referências em ioga no Brasil, era enorme. Ambos eram lendas da ioga cada qual a seu modo: ela, avessa a microfones e palcos; ele, um escritor com dezenas de livros e um orador habilidoso em encantar pessoas pelo Brasil. A amizade se intensificou quando eles integraram um grupo especial de professores de ioga, organizado por Hermógenes, para observação e convivência com mestres de grandes centros de ioga na Índia.

“Minha tia sempre foi a pessoa dos bastidores. Sabe aquela pessoa que organiza tudo, mas não quer aparecer? Ela sempre foi assim. Quando ela iniciou na ioga no Brasil ninguém tinha conhecimento como tem hoje por meio dos livros e internet. Ela foi uma desbravadora assim como o professor Hermógenes e outros professores”, afirma Lidia.

A sobrinha conta que, quando a esposa do professor Hermógenes morreu, a piada nas rodinhas de ioga era a de que a Professora Celeste poderia ser a nova esposa dele de tão amigos que eram. Lidia conta que Celeste ficava fula.“Ficava louca! Que falta de respeito brincar assim, eu não gosto nem que brinquem. Não gosto dessas brincadeiras, pode avisar essa turma”, costumava dizer Celeste à sobrinha.

professora celesteCeleste costumava dizer que a ioga não era uma religião, mas uma ciência que podia ser praticada por qualquer pessoa. “Claro que as revistas preferem apresentar fotos de posturas espetaculares, feitas para mostrar até onde se pode chegar, e a beleza dessas posturas. Mas perfeição é aquele ponto que cada um, dentro de si, pode alcançar. Apenas isso”, contava. Celeste, que escreveu apenas o livro para crianças “Rata Yoga”, costumava encerrar sempre as aulas com a seguinte frase: “A luz de deus me ilumina, o amor de Deus me envolve, o poder de Deus me protege, e a presença de Deus me guarda. Onde quer que eu esteja, aí Deus está”.


madson de moraes

* Madson de Moraes é jornalista e autor do livro “Terra Descascada” (Editora Penalux)

www.madsonmoraes.pressfolios.com

2 Comentários

  1. Podem me indicar um local sério de yoga no leblon, ipanema ou copacabana (RJ)?

Deixe uma resposta

Por uma vida mais consciente

Você quer receber as novidades e promoções do Nowmastê no seu e-mail?