Testei o Muse – o app de meditação com headband que mede ondas cerebrais

Por Cristiana Dia Baptista (Titi)*

Outro dia tive a chance de levar para casa por uns dias o Muse, aquele gadget de meditação que diz medir e analisar nossas ondas cerebrais sendo capaz de qualificar nossa mente durante as práticas meditativas.

Confesso que fiquei tão animada quanto temerosa com o prospecto de ter minhas sessões esmiuçadas. Afinal, meditar é uma das práticas mais subjetivas a que já me dediquei. Tão subjetiva que a real é que eu nem tenho como provar a alguém – a não ser, talvez, ao meu parceiro, que muitas vezes é testemunha ocular -, que tenho meditado todos os dias, há quase dois anos.

Aliás, não tenho nem como provar a mim mesma, que os conquistados 20 minutos diários que passo sentada, imóvel, com os olhos fechados contado respirações e/ou mentalizando mantras e/ou deixando os pensamentos passarem e/ou começando tudo outra vez, seja de fato meditar.

É claro que existem todas aquelas provas invisíveis a olho nu, sem as quais eu não teria persistido, e nem continuaria persistindo na prática (não, meditar não é um ato de fé). Mas e se eu colocar o Muse para medir minhas ondas cerebrais e ele disser que isso que estou fazendo nem meditar é?

Bom, o medo da minha “meditação” ser revelada uma farsa durou poucos segundos e, na primeira chance, lá estava eu com o app baixado no celular e o aparato na testa. ;-)

Leia a seguir minhas impressões:

Me senti extremamente focada, pois o objetivo com o Muse é claro: você tem que fazer os passarinhos cantarem! É isso aí, o Muse oferece um feedback instantâneo ao meditador – leia aqui um artigo que conta como o Muse funciona. Em suma, quanto “mais profunda” a sua meditação, mais os passarinhos cantam. Em contrapartida, quanto “menos profunda” maior o barulho de fundo, no meu caso, o do vento.

Também me senti como um cachorro correndo atrás do rabo. A cada canto de passarinho, inevitável e automaticamente eu pensava – “eba, estou meditando”, consequentemente saindo do “estado meditativo”. E dá-lhe ventania! Assim, na primeira tentativa, tive uma desoladora sensação de ter corrido atrás do rabo o tempo todo, mas fui supreendida pelo resultado apresentando no app que dizia que eu havia meditado 66% do período.

Ao todo foram 4 meditações, com desempenho variando de 44% a 72%, e eu sinceramente não consegui identificar o que eu havia feito de certo no dia dos 72% ou de errado, no dia dos 44%.

Meu melhor desempenho.

Na gloriosa manhã dos 72% (um domingo, por sinal), quando os pássaros cantaram quase o tempo topo, fiquei com a suspeita de que eles cantavam mais intensamente quando minha mente estava bela, faceira e calmamente focada em alguma narrativa (o que, em tese, é o oposto de meditar). E, quando no processo de desapegar dos pensamentos, eles se calavam. Fiquei confusa.

Por fim, achei que o Muse me tirou daquilo que seria o objetivo primordial da meditação, a ‘observação sem apego‘ dos pensamentos. Nas quatro tentativas, apesar de mais focada e com menos pensamentos aleatórios, fiquei praticamente obcecada em ‘fazer’ passarinho cantar.

A experiência foi divertida – percebi que minha meditação não é de todo uma farsa -, mas devolvi o Muse sabendo que não é para mim.

Antes de escrever este post fui atrás de outros reviews e informações sobre o Muse (que aliás, está no mercado desde 2014) e, além do primeiro link compartilhado acima, encontrei uma matéria do The Wall Street Journal muito bacana (e bem mais profunda que a minha breve experiência) que termina com a seguinte aspas do professor e doutor Richard Davidson, um dos grades pesquisadores da meditação:

“A raiz da palavra ‘meditação’ em sânscrito significa ‘familiarização’, familiarização de um indivíduo com a natureza da sua mente. Quando nos focamos em sinais externos, estamos nos distraindo da capacidade de reconhecer determinadas características da nossa mente. O uso de biofeedbacks para quem quer começar a praticar meditação, pode ser mais prejudicial do que útil.”

Pois é… então bora meditar que não tem almoço grátis por aqui também não.

*Cristiana é economista e jornalista, atualmente é as mãos, os braços e o coração por detrás do Nowmastê. Buscadora, nas horas vagas seu maior prazer é viajar e contar histórias. 

 

 

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