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Tempo, tempo, tempo, tempo

Tempo, tempo, tempo, tempo

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Por Fernanda Nicz*

Tempo soberano. Acelera, para. Sobra, falta. Concretiza, atropela ou adia sonhos. Muda, cura, transforma, cicatriza. Um dos maiores geógrafos do Brasil, Milton Santos, relacionou bravamente espaço e tempo e desejava oferecer um curso de pós-graduação sobre o tempo.
Gilberto Gil (https://www.youtube.com/watch?v=CTJdrLuNVzQ) canta que o tempo é rei.

Há o tempo de cada coisa. (https://www.nowmaste.com.br/anos-passam-a-vida-sinaliza-tudo- tem-um-tempo-vida-util-comeco-meio-e-fim/) e o tempo de cada um. Tudo acontece em seu (perfeito) tempo. Mas nós, os seres, queremos controlar tempo e acontecimentos. Algo não se realiza (ou dá errado – tudo depende do ponto de vista) e vem a frustração (no lugar da aceitação). Perda de tempo. Como questiona Eckhart Tolle: o que pode ser mais insensato que criar resistência interior a algo que já é?

O tempo não para/congela pra esperar os seres se lamentarem; o tempo passa. E depois de um bom tempo, o ser olha para trás e compreende/assimila: algo não aconteceu naquele passado recente porque não era pra ser – aquele não era o momento/tempo certo -, o ser ainda não estava pronto para receber/viver determinada experiência. Havia uma curva, outro caminho a percorrer, mais alma a amadurecer. E se algo tivesse acontecido diferente, este ser não estaria onde está hoje (e estamos exatamente onde deveríamos estar). Nada acontece sem uma razão maior.

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A vida coloca elementos perfeitos para nos conduzirem pelo melhor caminho (da evolução), que, muitas vezes, não é o caminho mais desejado no momento. E, sábia que é, a vida sinaliza – o tempo todo. O problema é que muitos seres estão correndo demais, ocupados demais, com medo demais, desconfiados demais … e acabam por “passar batido” demais por tantas coisas que poderiam ser lindas e tantas pessoas/ encontros que poderiam ser transformadores.

Tenho pesquisado sobre o movimento SLOW – slow cities (http://www.cittaslow.org/) é super interessante! -, tenho experimentado respirar mais conscientemente, andar com mais calma, sempre atenta ao vento, à natureza, à luz da cidade e, porque não dizer, à solidariedade dos demais seres. Em um encontro inesperado pode existir uma ponte/conexão. Algo que traga à tona um desejo adormecido ou a possibilidade de um novo caminho.

Dois seres + lugar/espaço e tempo certos = encontro mágico. Encontro que se desdobra em troca e cria uma ponte (ponte que liga presente e futuro, externo e interno…ponte que desdobra sonho em realidade).


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O início do novo – Conto-lhes um pedaço recente da minha história para comprovar o quanto a vida é sábia e, a nós, cabe manifestar o desejo, ousar dar o primeiro passo (coragem = agir com o coração) e estar atento a cada sinal/detalhe/acontecimento/encontro do dia a dia. Tudo vem – e nada em vão – na hora em que deve vir.

Queria viver de forma mais simples, do jeito que acredito; transparente, leve, feliz. Queria viver o que mais amo de segunda-feira a segunda-feira (não apenas nos fins de semana e nas férias). O processo de desapego aconteceu aos poucos, naturalmente. Mudei de cidade, vendi o carro, comprei uma bicicleta. Doei objetos e roupas. Hoje, tudo que tenho cabe na mala que me acompanha aonde vou.

Busquei por tudo isso, dei o primeiro passo e as portas foram se abrindo, a vida foi apresentando situações e pessoas que tornaram o caminhar mais bonito – e a transformação segue, faz-se a cada dia.

Elaborei um projeto que engloba um pouco de cada coisa que mais amo fazer e, no ano passado (2014), nasceu o Minideias – https://fernandanicz.wordpress.com/ – e, com ele, uma nova Fernanda e uma nova vida. A partir de então, comecei, de fato, a viver a vida do jeito que acredito, fazendo o que mais amo todos os dias. Viajar, conhecer lugares e pessoas que instigam/encorajam mudanças. Acrescentar meu olhar e emoções provocadas. Compartilhar experiência e beleza. Apresentar diferentes realidades ao mundo. Mostrar que é possível viver – feliz – sem enquadrar-se a padrões impostos pelo sistema e pela sociedade. Afinal, como disse o filósofo e educador indiano Jiddu Krishnamurti, anos atrás, não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.

Os seres nascem puros, desnudos. É durante o crescimento que vão afastando-se da essência, do que, de fato, SÃO, pois são mutilados com comandos sobre o que fazer, o que adquirir o que é certo/normal e o que é errado/surreal. Constroem seu mundo apoiados em definições e crenças alheias. Seguem cegamente /apressadamente o fluxo e nunca se permitem diminuir o ritmo, olhar pra dentro pra lembrar quem SÃO. E é justamente aí, nestas paradas, nestes momentos de silêncio, que é possível descobrir-se e saber-se quase por inteiro.

O silêncio abafa o barulho e cria um espaço para a autenticidade aparecer.

É no silêncio que a singularidade e as paixões se revelam. E conhecendo sua verdade, o ser pode escolher acomodar-se no mundo conhecido/imposto – “normal” ou ousar criar o seu mundo – de acordo com suas crenças. Pois fiz esta última escolha.

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Encontros mágicos – no ano passado, dei início ao Minideias e viajei a Itália (por seis meses) de ponta a ponta : da Ligúria a Sardenha – passando por pequenas vilas e aldeias na Toscana, Umbria, Campania, Calábria, Sicília). Junto com a lista das ecovilas por onde passar tinha uma lista de cidadezinhas que queria muito ver. Consegui ver quase todas. Faltou uma região. Saí da Itália pensando na Puglia…não deu tempo de visitar a ecovila (http://giardinodellagioia.wix.com/eden#!the-garden/cg5c), ver Polignano al Mare, Bari e a bela região de Salento. Batia uma certa tristeza mas, ao mesmo tempo, prometi que voltaria à Itália pra ver tudo que faltou ver e também pra ir até Croácia, Eslovênia (onde uma amiga está iniciando um bonito projeto/ecovila) e Montenegro (é de Bari que sai o barco).

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Certo. O tempo passou. Voltei ao Brasil por uns meses. E em março deste ano, pés na estrada novamente para dar continuidade ao Minideias e à vida que escolhi e amo viver. Foram três meses no Alentejo, na ecovila Tribodar, lugar especial, que inspirou muitos textos e proporcionou um período lindo de puro autoconhecimento. Agora, em junho, vim viver uns meses na cidade da luz encantada; Lisboa.

E, a partir do momento em que decidi viver em Lisboa, o caminho para minha vinda começou a se abrir; fluído, bonito – desde onde morar, onde trabalhar até um inusitado e despretensioso encontro numa ladeira íngreme do bairro da Alfama, no primeiro dia, assim que desci na estação Santa Apolônia. Estava arrastando minha pequena, mas pesada (minha vida está ali) mala numa subida que parecia não ter fim quando um ser (entre tantos que passaram por mim, olharam, tiveram dó – tenho certeza, estava estampado em suas caras) perguntou: “quer ajuda?”. Olhei pra cima, ainda faltava um bom tanto da rua, virei pra ele e disse; “sim, obrigada”. Como ele tinha oferecido ajuda em português perguntei se sabia onde era a rua X, onde devia chegar.

Ele – pode falar mais devagar? Estou aprendendo português…

Eu – where are you from?

Ele – Itália

Eu – davvero? Sono stata ano scorso in Italia.. allora, possiamo parlare italiano (feliz demais com a oportunidade de voltar a praticar – mesmo que com muitos erros – a língua que mais amo). E, curiosa, logo engatei – Di dove sei?

Ele – Puglia. Bari.

Emudeci.

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Como assim, em meio a tanta gente que poderia ter aparecido, de qualquer canto do mundo, de qualquer região da Itália, surge um italiano exatamente da região que faltou ver, da região que tenho pesquisado pra estar em breve?

Quando se quer muito uma coisa, o Universo todo conspira para que dê certo.

Conversamos muito. Tomamos um café juntos e ele me contou que estuda Línguas e Literatura Estrangeira. Que maravilha, amaria fazer este curso! E comecei a prestar atenção em como sou feliz falando italiano. É um dos grandes prazeres da minha vida. Este italiano querido veio me lembrar que faltou ver a Puglia, veio me contar de pequenas cidades perto do mar que nem fazia ideia que existiam, veio me confirmar que vale a pena ir até lá. Veio me mostrar que, quem sabe, o próximo destino seja novamente a Itália, não apenas pra ver o que faltou ver, mas talvez para me aperfeiçoar nesta paixão (falar/estudar italiano). A Puglia nunca foi descartada do meu mapa…apenas, por alguma razão, ficou pra depois.

E como encontros (mágicos) são trocas, o menino italiano disse também o que acrescentei na vida dele. Disse que admira minhas escolhas, que precisava conhecer alguém que vive, de certa forma, com “quase nada material” e é feliz, leve, doce e cheia de histórias lindas pra contar e coisas belas pra mostrar. Em italiano, me disse que o encorajei a fazer e viver o que ama. Lindeza! É isso que dá sentido e faz valer a pena viver; perceber que não apenas meus textos, mas também minha presença, de certa forma, cumpre, faz jus, ao objetivo que escolhi, meu propósito de vida…um ser andarilho, peregrino. Um eremita que caminha por trilhas inexploradas e, aos poucos, vai abrindo o caminho para que outros seres também possam experimentar jornada semelhante.

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Veja comentários (2)
  • Adorei ler a sua experiência Fernanda e me identifiquei muito. Também vendi carro, aluguei meu apto em Poa e minha vida se resumiu em duas malas. Moro em Tenerife e passei três meses e meio na Italia. Estudei o italiano e viajei muito lá. Como vc sai sem ter conhecido algumas regiões, por isto vou voltar. Linda história continue com sua linda evolução. Grande beijo.

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