Tarefa de hoje: não fazer nada

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Grandes empresas estimulam meditação

Por DAVID HOCHMAN

Em última análise, em todo lugar, o mais importante é estar aqui e agora.

A consciência plena ou atenção plena (“mindfulness“), termo que cobre vários tipos de meditação que visam intensificar a atenção, entrou em voga para uma geração que se esforça para lidar com a tecnologia sem se deixar consumir pela distração que ela oferece.

O Corpo de Marines dos EUA está testando o Treinamento em Fitness Mental para ajudar os soldados a relaxar e incentivar sua “inteligência emocional”, as palavras de ordem do momento. Empresas como Nike, General Mills, Target e Aetna incentivam seus funcionários a ficarem sentados sem fazer nada e lhes oferecem aulas para ensiná-los a fazer isso.

Neste ano, Arianna Huffington lançou uma conferência sobre atenção plena, uma página dedicada ao tema no site “Huffington Post” e um aplicativo telefônico chamado “GPS for the Soul” (GPS para a alma) com sensor cardíaco embutido.

A sede de encontrar algum alívio é especialmente intensa no berço da revolução digital. O cofundador do Facebook Dustin Moskovitz falou sobre como idealizou sua start-up atual de software, Asana, depois de lições aprendidas fazendo ioga. Padmasree Warrior, executiva-chefe de tecnologia e estratégia da Cisco, descreveu fins de semana analógicos dedicados à família, à pintura, à fotografia e a haicais.

A atenção plena foi apresentada pelo líder budista vietnamita Thich Nhat Hanh, que afirmou certa vez: “A dádiva mais preciosa que podemos oferecer a qualquer pessoa é nossa atenção”.

Como seria de se esperar, os arquitetos de nossa era eletrônica abordam o conceito da atenção plena como um problema de engenharia. “Isto não é uma bobagem antiga de hippies de San Francisco”, comentou o engenheiro do Google Chade-Meng Tan, rindo ao falar da demanda por um curso interno que ele criou, intitulado “Procure Dentro de Você Mesmo”. Com sete semanas de duração, o curso ensina a atenção plena.

Isso pode significar passar dez minutos todas as manhãs com os olhos fechados, deitado sobre um travesseiro com fios de ouro, ou ouvir realmente o que diz sua sogra, uma vez na vida. “Sempre que oferecemos o curso on-line, as vagas se esgotam em 30 segundos”, disse Tan.

De acordo com ele, centenas de estudos atestam os benefícios do treino de atenção plena.

A meditação espessa o córtex cerebral, abaixa a pressão sanguínea, pode curar a psoríase e “ajuda a conseguir uma promoção”, diz Tan.

Empresas como Goldman Sachs e Farmers Insurance também pagam Tan e sua equipe para ensinar técnicas de como fazer uma pausa antes de enviar e-mails importantes e enviar em silêncio votos de felicidade a colegas de trabalho com quem o relacionamento é difícil.

O blogueiro e empreendedor francês Loïc Le Meur recomenda um app de meditação chamado Get Some Headspace. O programa se descreve como a primeira academia do mundo para a mente. “É uma maneira de praticar meditação sem ter a impressão de que é algo estranho”, disse Le Meur. “Não é preciso ficar sentado em posição de lótus. Basta pressionar ‘play’ e relaxar.”

Ele estava discursando em setembro na conferência Wisdom 2.0, em San Francisco, fundada por Soren Gordhammer para estudar como podemos conviver com a tecnologia sem que ela nos engula completamente.

As listas de espera para os eventos de Gordhamer têm centenas de nomes. “As pessoas anseiam por uma sensação de sossego e reflexão, de não precisar ser estimuladas, entretidas ou ficar constantemente à procura de alguma coisa. Ninguém está expulsando a tecnologia de nossas vidas, mas precisamos recuperar nossa conexão com os outros e com a natureza, senão todos sairão perdendo.”

Com palestrantes destacados das comunidades da tecnologia e da “sabedoria”, a primeira conferência Wisdom 2.0, em 2009, foi um evento modesto que reuniu 325 pessoas. Em 2012, já havia uma lista de espera de 500 pessoas para participar da conferência seguinte, cujos palestrantes incluiram cofundadores do Twitter, Facebook, eBay e PayPal.

Num encontro do Wisdom em setembro, Walter Roth, 30, executivo-chefe de uma start-up de tecnologia chamada Inward Inc., estava exibindo um app que criou para o iPhone que ajuda o usuário a parar de fumar. Ele contou que a atenção plena o deixou mais competitivo. “Não apenas agora coloco menos coisas em minha lista de tarefas, como dou conta das tarefas, e bem. Aprendi que, para ser mais bem-sucedido, primeiro preciso desacelerar.”

Na primeira conferência Wisdom 2.0 da qual participou, em 2010, Arturo Bejar, diretor de engenharia do Facebook, ficou na última fileira da plateia. Mas ele ficou inspirado quando ouviu o autor e professor de meditação Jon Kabat-Zinn dizer que, se as pessoas enxergassem umas às outras por completo, elas se relacionariam melhor. Decidiu integrar essa ideia em seu trabalho, que envolve lidar com as preocupações de conteúdo de 1 bilhão de usuários do Facebook.

Neste ano, a empresa introduziu emoticons para captar uma gama mais ampla de sentimentos humanos, ao lado de uma fórmula mais suave para resolver tensões entre usuários.

Até então, alguém que fosse marcado numa foto infeliz no Facebook podia assinalar que a imagem era ofensiva e torcer para que a outra pessoa a tirasse do ar. Agora aparece um pop-up com opções como “é embaraçoso”, “é inapropriado” e “me deixa triste”, com um pedido cortês para que a foto seja tirada do ar.

A introdução da frase simples, demonstrando consideração pelo outro, triplicou a probabilidade de os usuários enviarem uma mensagem pedindo a remoção da foto, disse Bejar, acrescentando que a resposta global tem sido grande.

Nos EUA, se alguém marca uma foto no Facebook como sendo “embaraçosa”, há 83% de chances de que a pessoa que a postou responda ou a delete.

“Não tínhamos entendido como é difícil sentir-se ouvido nas comunicações eletrônicas, mas agora existem mecanismos para ser mais expressivo e mostrar mais consideração.”

O whil.com encoraja os visitantes a desligar seu cérebro por 60 segundos, visualizando um ponto. “Fazer uma pausa de uma hora e meia para praticar ioga é demais para a maioria das pessoas”, disse Chip Wilson, cofundador do site. “Você precisa se afastar do trabalho e da tecnologia por um minuto para se sentir revigorado.”

via The New York Times (publicado dia 03 de novembro de 2013 e traduzido pela Folha de São Paulo)

 

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