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Sozinha na estrada: desconstruindo, me descobrindo – Por Fernanda Nicz

Sozinha na estrada: desconstruindo, me descobrindo – Por Fernanda Nicz

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Há uns dois anos escrevi um texto que chamei de “Voo necessário; voo solo”. Hoje, na estrada desde maio (até novembro), vivo, em detalhes, sensações descritas e um pouco mais. Na época, não detectei que se tratava não apenas de um desejo de me descobrir desconstruindo-me ou de presentear o olhar com o novo, mas também de atender a um chamado interno que clamava por amplitude; necessidade de viver/ levar mais além, a missão de vida.
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Mapa astral natal, cabala e aura-soma – definiram como minha missão nesta vida o ato de peregrinar, de ser o próprio instrumento de conhecimento/aprendizado.
Carta do Eremita: “ser que caminha sozinho pelo mundo com uma lamparina – luz da percepção e do conhecimento, sabedorias conquistadas com o sacrifício da solidão e da paciente espera. Esta carta significa um tempo de solidão/ isolamento para que a sabedoria da paciência e o respeito pelas próprias limitações possam ser adquiridos. A ninguém é permitido viver além de seu tempo e nada permanece imutável”.
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“O Eremita peregrina para encontrar seu equilíbrio. Depois, torna-se o motorista do ônibus que conduz os seres para o equilíbrio. Por fim, sol em Escorpião é mudança, morte. Significa que a pessoa brilha toda vez que se transforma. Brilha quando deixa morrer situações, coisas (desapego). Brilha cada vez que se esvazia”.
 
Mas voltemos ao texto de dois anos atrás; em itálico, trechos revisitados: 
 
É absolutamente fundamental que todo ser humano faça, ao menos uma vez na vida, um voo solo. Não falo em voo de asa delta, refiro-me à riqueza propiciada àqueles que se permitem percorrer terras desconhecidas apenas na companhia de si mesmo…. tenho pensado muito no meu voo solo. Será em breve; pra longe, longo (…) Quanto mais pra longe, maior a perda de referências. A ecologista e antropóloga budista Joan Halifax afirma que CADA PEDAÇO DO MUNDO TEM UMA GEOGRAFIA PRÓPRIA QUE PODE SER USADA PARA MUDANÇAS.
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É longe, a estrada é longa. O caminho, muitas vezes, deserto. Meu roteiro/projeto engloba paradas (ecovilas/fazendas agrícolas), andanças (não planejadas) e o inusitado. Há uns vinte dias sinto algo que nunca senti antes; mão e braço esquerdos formigando, num vai e vem que se atenua quando me abaixo/inclino/sento. Junto; dor na nuca, pescoço e costas. Penso que pode ser compressão de algum nervo da cervical ou hérnia. Causa (provável): carregar peso, dormir em sleeping bag/sofá/chão, posição/ tensionando braço/ombro/mão para escrever e para fotografar. Ou/e como o monge budista Tchich Nhât Hanh disse num livro: “Sintomas podem ter sua causa na mente: bloqueios, preocupações e sofrimento. Mas o desconforto pode ser observado como uma oportunidade de praticar; meditar”.
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Porque sozinha e por tanto tempo? Conhecer melhor. Estar só e não ter pressa (ter tempo) faz conhecer melhor lugares e pessoas e, principalmente, conhecer melhor a mim mesma e à grandeza da vida. Deixar o olhar se perder e surpreender, encontrar inspiração onde menos se espera. Absorver paisagens/fora e sensações/dentro (encantamento, paixão, medo, solidão, ansiedade). Responsabilizar-se pelo caminho escolhido e construir a estrada que está por vir. Ousar fazer uso pleno de toda a potencialidade que se tem (mesmo que a percebamos justamente ao caminhar, ao fazer o caminho).
 
Na última viagem de trem, de Siracusa a Ragusa (Sicília) reli meu conto preferido do livro “Mulheres que correm com os lobos”; A Donzela sem Mãos. Trouxe o xerox para reler mas só o fiz agora, justamente quando vivo este problema de formigamento na mão. Não conto a história aqui porque é longa (pra quem não conhece, vale a pena conferir). Trata do rito da resistência. A donzela perde as mãos, mas, mesmo vulnerável, sem ter onde se segurar, segue andarilha. Sabe que só o caminhar a fará conhecedora do caminho (do caminho até ela mesma e, consequentemente; em direção ao outro).
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E o que se descobre? O cronista Contardo Calligaris, em seu texto “O Amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo em nós que não conhecíamos até então”, cita um trecho de uma fábula de José Saramago que acredita melhor definir a sensação de um viajante: “Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem sou quando nela estiver”. Ou seja, o personagem deseja descobrir quem/como ele é quando se encontra longe de suas referencias/casa/coisas.
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Peregrinar como um eremita, mergulhando no mundo, têm me levado, de fato, ao “fundo” de mim mesma. Tenho vivido um “vulcão de sensações/descobertas transbordantes”. Muitas, inéditas. Senti gratidão (por me permitir colocar um sonho em prática) e compaixão (por não cuidar do corpo a ponto de deixá-lo doer) por mim mesma. Vivi bonitos encontros e doídas despedidas – difícil esse negócio de desapego de pessoas. Há que seguir, que realizar o movimento; partir. Meus ritos de passagem, de um lugar a outro, são vividos em trens. “Trens-refúgio”. Refugiar-se, na definição do monge Tchich Nhât Hanh: “ligar-se ao que existe de mais saudável em nós e que nos apoia em nossas aspirações mais profundas”.
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Meditação recebida na cabala: Viajei em fogo, terra, ar e água. Na peregrinação – da beleza à compreensão – finalmente o milagre da tua realização se fez.
 *Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

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