Sombras, máscaras e essência

Por Tatiane Guedes*

Prepare-se para um texto que possivelmente vai te levar a um mergulho profundo!

Essas são palavras de libertação a partir de uma compreensão clara de toda essa dinâmica psíquica que vivemos.

Vamos por partes. Vou começar falando delas, as sombras.

Sombras

Inicio já pela conclusão: chega de temê-las! Elas pertencem.

Vou dar alguns exemplos de uma dinâmica psíquica que tenho compreendido cada vez com mais clareza, e da importância de integrarmos tudo aquilo que relegamos às sombras.

Vamos supor que você tenha a força da comunicação e da liderança. Você nasceu com elas, certamente por um propósito maior. Mas, por alguma razão, você compreendeu em seus primeiros anos de vida que isso te colocava em risco. Registros de rejeição, medo e insignificância, bloquearam a livre expressão de sua força. [Eu falo um pouco mais disso neste texto e no livro Movimento do Amor]

Bem, e por que tudo isso acontece?

Ao meu ver, isso é resultado da atuação de registros muito profundos em nosso inconsciente coletivo, forças essas que levam os seres conscientes a classificarem as características humanas (que são também divinas) entre boas e más. Tudo o que ficou registrado, por exemplo, na época da Inquisição é um exemplo disso.

E veja, se os seus aspectos de Essência, as suas forças, dons e afins passaram pelos filtros coletivos e foram classificadas como más, pronto: foi instalada a dualidade e então você segmentou-se em partes, jogando algumas delas em um calabouço interno e escuro, protegido a sete chaves.

O que vai acontecendo em sua vida?

Fricção atrás de fricção para te fazer, neste exemplo acima, falar e liderar! Ou seja, voltar ao quarto escuro, resgatar e integrar as suas forças e assim, cumprir o seu propósito aqui.

Sombras são resultados da dualidade neste plano.

Máscaras

Quando interpretamos que expressar nossas forças inatas nos coloca em risco, o que tendemos a fazer?

Proteger-nos.

Como?

Criando estruturas para sobrepor a nossa natureza essencial.

E que estruturas são essas?

As máscaras.

Eu tenho chamado de máscara a estrutura psíquica que construímos para, ilusoriamente, proteger (esconder, camuflar, esquecer) a Essência. E na maioria da vezes, essa construção segue duas outras dinâmicas.

Seguindo ainda no exemplo acima, tais dinâmicas podem ser descritas dessa forma:

  • Supervalorizar um outro aspecto que, sob os olhos da dualidade, parece o oposto da sua força de comunicação e liderança. Assim, por exemplo, você passa a não ocupar o lugar de líder quando a vida assim te pede, evita comunicar aquilo que precisa ser dito e vai construindo uma máscara de pacífico e humilde. O tal ‘bonzinho’.
  • Supervalorizar o próprio aspecto essencial, ou seja, a sua força de comunicação e liderança, polarizando-o em si mesmo. Assim, sua força se torna agressividade, incapacidade de escutar, mal uso do poder, entre outros. Tudo para se proteger.

Por algum tempo, essas estratégias funcionam. Seja polarizando seus aspectos essenciais através do excesso ou da oposição, você acredita que está seguro.

No entanto, a força psíquica que ficou trancada no ‘quarto escuro’ começa a se debater. Ora porque ela está sendo completamente abafada pela máscara do bonzinho, ora porque ela está sendo deturpada em agressividade e dominação e, logo, deixando de servir ao Propósito Maior.

  • Eu pertenço Eu vim com você! Eu estou com você! Você precisa de mim! — e assim, a força essencial que ganhou forma de sombra começa a dizer.

E ela grita uma, duas, mil vezes! Às vezes você a ouve, outras vezes coloca mais uma camada de reforço:

  • Talvez se eu colocar essa roupa bonita aqui na minha máscara, ficarei ainda mais bonzinho e assim, minha sombra fica ainda mais escondida e eu não preciso lembrar da dor da rejeição.

Ou:

  • Talvez se eu gritar mais alto, não preciso olhar para essa sombra e assim lembrar-me da dor da incapacidade — a incapacidade de manifestar o meu propósito aqui.

Claro que não falamos essas frases desta maneira, com essas palavras, nem muito menos conscientemente. Estou procurando apenas simplificar a dinâmica psíquica.

Tudo isso funciona por um tempo, mas, não tem jeito. Em algum momento e muitas vezes atendendo aos seus próprios movimentos de despertar, a máscara enfraquece e a sombra vem! E às vezes ela vem com tanta força que destrói tudo o que vê pela frente!

  • O que é isso em mim? — você diz atônito ao se deparar com tamanha força encarcerada no quarto sombrio.

O momento da escolha

Você também recebe a grande chave para mudar essa dinâmica. É dada a você a possibilidade de escolher entre:

  • Voltar a operar a velha dinâmica, sentir-se em risco, julgar essa forca que te habita como e assim criar outras cascas para abafá-la ou, pior, ficar se digladiando com ela internamente — o que cria várias doenças no corpo físico.
  • Ou respirar fundo, sentar, olhar bem pra ela e dizer:

– Eu desisto de desistir de você. Você é uma parte minha. Eu te aceito, eu te integro. E assim, eu me torno mais inteiro!

“Não há luz sem sombra nem totalidade psíquica isenta de imperfeições. Para que seja redonda, a vida não exige que sejamos perfeitos, mas sim completos; e para isso, necessita-se de um ‘espinho na carne’, o sofrimento dos defeitos sem os quais não há progresso nem ascensão.”

(Carl Jung)

Um breve resumo

Eu poderia dar infinitos exemplos aqui e todos, ao meu ver, seguem essa dinâmica que procuro compartilhar da forma mais simples possível:

  • Trazemos aspectos essenciais da Fonte, alguns em mais destaque que outros, exatamente porque eles estão alinhados ao nosso propósito.
  • Chegamos aqui em Gaia, em meio a um campo carregado de registros inconscientes, crenças de que somos falhos e pecadores — o que cria e recria guerras internas e externas.
  • Ao expressarmos livremente nossos aspectos essenciais, tais registros coletivos atuam como filtros e assim interpretamos: ‘é perigoso ser eu’. Surgem as principais dores psíquicas: rejeição, incapacidade e insignificância.
  • Começa um processo de construção de camadas de proteção, as máscaras. E elas geralmente são resultado:

da supervalorização do oposto deste aspecto essencial — uma forma de dualidade,

da supervalorização do excesso deste aspecto essencial — polarizando em si mesmo.

  • Então, vamos nos afastando mais e mais de nossos aspectos essenciais, atuando a partir das máscaras, seguindo a dinâmica instalada no insconsciente coletivo que classifica tudo o que nos habita entre ‘bom’ e ‘mau’.
  • Quanto mais máscaras, mais força psíquica é necessário para que aquilo que ficou na sombra seja reintegrado, pois acima deste inconsciente coletivo há uma Força Consciencial: o Amor, Deus. E essa força, que é a fonte de Tudo, nos leva para união e, portanto, para integração.
  • Diante desse dualismo que opera em níveis ainda maiores, lá vamos nós, pequeninos aqui, vivendo fricção por todo lado, simplesmente porque o Amor atua em nós.

Eis que, em certos momentos, a dualidade ganha força máxima: a máscara tentando fortalecer suas estratégias para calar a sombra; e o Amor movimentando o campo sistêmico para integrar tudo.

Boom!

Muitas vezes, tudo isso gera um Big Bang interno. Uma explosão escancara tudo!

Dói? Pode doer.

Há mortes envolvidas? Muitas vezes sim.

Algumas coisas terminam? Eu diria, exterminam.

  • E temos a escolha final: encarar tudo isso como um maravilhoso renascimento, como uma chance abençoada de sairmos do dualismo, rompendo com as ‘proteções’ — que já passaram a ser opressões — e simplesmente Ser!

Claro que nem sempre esse processo precisa acontecer a partir de explosões e Big Bangs. Mas, se você está passando por um deles, saiba:

  • O solo de Gaia é maravilhoso. Ele absorve e transmuta tudo em Vida! Vida. Inteireza. União. Pertencimento. Amor.

A compreensão. O presente

Essa compreensão toda já me habita há algum tempo. Caminhos como o Eneagrama, o processo de Cura da Criança Interior, além de tantos satsangs que ouço do Prem Baba me confirmam essa dinâmica mais e mais.

E especialmente hoje eu enxerguei tudo isso com uma profundidade que tornam o óbvio simples:

  • Toda essa dinâmica psíquica começa com a classificação entre certo e errado, com os julgamentos entre bom e mau.

Por isso, eu te convido a um exercício hoje. Só por hoje perceba quantas vezes seu pensamento transita nesse dualismo.

  • Está na hora de começarmos novas dinâmicas, de deixarmos registros coletivos de integração e união.

Como?

Começando de dentro pra fora.

Integrar

Eu também passei por um Big Bang recentemente e me dei conta de máscaras bem elaboradas que eu construí. Quando me dei conta delas, pensei: “Uau, o que é a consciência humana!”

E o que estou fazendo agora, neste exato momento enquanto escrevo este texto?

Convidei todas as minhas partes fragmentadas. Todas elas estão bem aqui, sentadinhas comigo, me ajudando a dar voz a essas palavras.

Estamos juntas, cocriando paz, harmonia. Estamos sendo Uma Tatiane.

Seja Um contigo

  • A cultura de paz que queremos ver lá fora só pode se manifestar a partir de dentro.

Eu honro todas as suas, as minhas partes. Honro todas as dinâmicas vividas.

Tenha absoluta certeza: a sua versão de ontem estava fazendo o melhor que podia com aquilo que ela enxergava ontem. E hoje, ela segue fazendo o mesmo.

Cessemos os autojulgamentos.

Paremos de lutar.

Por Amor.

  • Que você siga seu processo com ‘cor’ ‘agem’. E lembre-se: coragem é agir com o coração.

Que assim seja!

Tatiane Guedes

*Tatiane Guedes é psicóloga de formação e curadora de missão. É idealizadora e fundadora da Spontaneum, e autora dos livros Desperte-se e Movimento do Amor.Residente na Califórnia, viaja periodicamente ao Brasil para facilitar retiros e workshops.

www.spontaneum.com.br

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