Sobre o resgate de nossas crianças feridas

Lara Lobo*

Todos nós, adultos, sabemos que dentro de nós habita um lado infantil. Sentimos isso quando nos permitimos ser autênticos, vulneráveis, transparentes, sem nos importar com a opinião de terceiros.

Entramos em contato com nosso lado criança sempre que nos reencontramos com amigos da escola ou do bairro onde crescemos e damos risada de trivialidades que vivemos juntos nos bons anos de infância.

Permitimo-nos liberar nossa faceta infantil saudável quando vamos ao parque com filhos, sobrinhos ou afilhados e nos permitimos sentir o frio na barriga de descer no tobogã ou a adrenalina de embarcar na aventura de uma montanha russa.
Essa criança alegre, inocente e autêntica vive em todos nós e sentimos um imenso prazer em resgatá-la sempre que possível.

Há, porém, outra faceta infantil que habita em todos nós e com a qual temos muita dificuldade de entrar em contato. É o que John Bradshaw chamou de “criança ferida”, ou, como preferiu apelidar Patrícia Gebrim, nossa “criança abandonada”. Essa criança triste, frustrada, solitária e revoltada vive em nosso interior, mas, muitas vezes, preferimos ignorar sua presença, pois lidar com ela não é tão simples e fácil.

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Resgatar e cuidar de nossas crianças feridas exige que fortaleçamos nosso lado adulto e maduro; afinal, se somos os únicos responsáveis por nossas vidas, nada mais coerente do que usarmos nossas próprias fortalezas para tratar com carinho nosso aspecto infantil, que, muitas vezes, nos boicota e nos envergonha: a nossa criança ferida.

O mais “difícil” de todo esse processo é aceitar que, como adultos e responsáveis pelos caminhos que decidimos trilhar, temos de impor LIMITES a essa criança. Além disso, é necessário entender que, juntamente com esses limites, precisamos, acima de tudo, AMAR, compreender, amparar e proteger essa criança que faz parte de quem somos.

Esse nosso lado infantil é carente e precisa de atenção e amor. Se continuarmos a ignorá-lo, seremos para sempre reféns de suas birras, revoltas e atitudes pouco maduras.

Venho trabalhando esse tema (do resgate da criança ferida) em minha vida e, curiosamente, assisti a dois filmes muito interessantes nos quais são notórios os traços das crianças feridas dos protagonistas.

O primeiro é “Na natureza Selvagem” (Into the wild), no qual o personagem principal sentia uma evidente raiva e uma também visível revolta, decorrente do que ele julgava “falta de amor” de seus pais durante sua infância. No curso de toda a narrativa, fica claro que a “criança ferida” dele fez de tudo para chamar a atenção dos pais e, no final das contas, para receber o amor que tanto anelava. Como não conseguiu o que desejava, em sua vida adulta, ele acabou fugindo do contato com esse seu lado infantil, se isolou de tudo o que o fizesse “lembrar da dor de não haver sido amado” e escolheu um fim pouco feliz para a sua promissora jornada.

O segundo foi “O contador” (The accountant), em que o protagonista (quem sofre com um raro transtorno mental) acaba transformando toda a sua revolta com o “abandono” e os abusos sofridos na infância em atitudes adultas, ao mesmo tempo e de maneira contraditória, pouco éticas e generosas. Em diversos trechos, quando tem surtos, ele lembra [com muita tristeza e revolta] da forma dura, pouco amorosa e fria que seu pai o educou. Sua dificuldade em manter relações sociais íntimas e profundas é bastante similar àquela do protagonista do filme Na Natureza Selvagem.

Muitos adultos (ousaria até arriscar que a maioria de nós) estão vivendo alguma ou algumas situações em que deixam suas crianças feridas controlarem suas vidas. Basta observar pessoas que vivem relacionamentos amorosos abusivos; que são demasiado relaxadas com sua alimentação (permitem-se comer exatamente aquilo que desejam, assim como faz uma criança sem limites); que são irresponsáveis com suas finanças (cometem gastos impulsivos, comprando aquilo que desejam); que são indisciplinados com seus horários de dormir e acordar (assim como são as crianças) ou até mesmo os que cultivam vícios (buscando suprir vazios de sentimentos com outras “coisas”).

Por mais duro que possa parecer, o processo de entrar em contato com essa criança ferida, de conhecê-la e entender quais as suas necessidades, é indispensável, se desejamos viver uma vida adulta plena e sob controle. Curar as feridas dessa criança permitirá que liberemos o potencial criativo, mágico, feliz e encantador de nossa “criança maravilha” e que tenhamos em nossas mãos as rédeas de nossos destinos!

Para quem deseja conhecer mais a respeito do tema e descobrir como cuidar dessa criança ferida que habita as almas de todos nós adultos, recomendo as seguintes leituras:
1.Volta ao Lar- como resgatar e defender sua criança interior. John Bradshaw. Editora Rocco
2.Curar a criança interior. Charles L. Whitfield. Editora Europa América.
3.Gente que mora dentro da gente. Patricia Gebrim. Editora Pensamento.

Lara Lobo

*Lara Lobo, diplomata, escritora, professora de Yoga, fotógrafa amadora e estudiosa do desenvolvimento pessoal.

Já morou nos Estados Unidos, em Gana (na África) e atualmente vive e trabalha no Peru.

Facebook: A Busca do Equilíbrio
Blog: www.abuscadoequilibrio.com
Instagram: @abuscadoequilibrio

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