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Sobre nossas certezas

Sobre nossas certezas

Nowmastê

Por Andressa Lutiano*

Um dia desses ri muito com um vídeo chamado “A nutricionista” (pra quem ainda não assistiu segue link aí embaixo).

O tal vídeo brinca com as certezas que os especialistas estão sempre gritando aos 4 ventos por aí. Quem nunca se pegou numa situação dessas?

A gente fez um esforço danado para eliminar o uso de descartáveis na escola. Aí vem a crise da água. Parece que é pior gastar água pra lavar louça do que lançar mão do bom e velho copo de plástico. Ficamos nesse impasse: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come.

Servíamos suco de soja para as crianças porque soubemos por nutricionistas que era mais saudável. Aí depois não era mais. Em excesso faz mal para os meninos porque tem hormônio feminino. Trocamos para suco de frutas – de caixinha. Escolhemos o de nectar porque era mais saudável. Aí depois não era mais. Muito açúcar, muito conservante. Suco natural de frutas. Pensei: agora não tem erro! Aí leio que o danado do suco natural tem frutose, que vira açúcar, que causa diabetes, que vai nos matar… Vejo a moça do ovo do vídeo e me identifico muito…

Quando a minha filha Isabella era pequena todo mundo dizia para colocá-la para dormir sempre no berço, não acostumá-la no colo e não me render a choros de manha. Recentemente tenho lido muito sobre como temos que “aninhar” os bebês quando eles choram porque esse negócio de acostumar não existe e porque quem disse que bebês são chorões manipuladores deve estar maluco.

As crianças então, coitadas, talvez sejam as piores vítimas das nossas certezas. Eles devem andar com 12 meses, falar com 18, saber contar com 3, escrever com 5, programar um computador com 7 e dominar um instrumento com 10!!!! AAAAAAAAAAA….. Não é brincadeira. Há tabelas com essas informações pra que a gente possa observar nossos filhos (ou alunos) e “ticar” nosso checklist. Qualquer desvio da rota, mais especialistas e mais certezas: ele precisa consertar esse desvio de fala até os 3 anos, tem que aprender a ler quando caírem os dentes, precisa de um vocabulário de 40 mil palavras antes da puberdade. Acho mesmo que não sei 40 mil palavras até hoje.

sobrenossascertezas

Por que agimos assim? Por que a todo o momento nos comparamos, queremos parâmetros? Eu estou feliz. Não me peso há meses. Mas se vou me pesar logo quero saber qual o IMC e qual o peso ideal, na altura ideal, de uma mulher ideal, nos 35 anos ideias. BORING!!

Quando pergunto “Por que agimos” é porque suuuper me incluo nessa. Estou fazendo um esforço consciente de desapego mas não é moleza. Quando a gente relaxa lá vem: em quanto tempo de Yoga conseguirei fazer essa posição? Que alimento como antes do treino? E depois? E durante? Terei melhores resultados pela manhã? Ou à noite? Quantas horas por semana devo me dedicar à família? E ao trabalho? Devo comer produtos light ou diet? A cada 3 horas ou 2? Quem nunca??

Não estou dizendo que devemos ignorar todas as coisas e nem que devemos desmerecer as pessoas que estudam para poder nos dar as informações (eu mesma sou uma delas). Mas o que fico pensando é: será mesmo possível colocar todos os seres humanos em caixas com etiquetas? – ser humano tipo 1: deve dormir 4 horas, comer mais proteínas, está mais inclinado para as ciências humanas, etc, etc… Será que não estamos perdendo a capacidade de olhar para nós mesmos, nossa vida, nossos problemas e nos enxergar? Precisamos mesmo caber no IMC ou passar no teste de QI para ter certeza e, então, nos sentir belos ou inteligentes?

Edgar Morin afirma que a educação deveria incluir o ensino das incertezas, uma vez que todo conhecimento comporta em si o erro e a ilusão. De acordo com ele, o conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo, mas sim uma leitura, uma tradução, uma construção que fazemos dessa realidade com base em nossas percepções, nosso contexto, nossas interpretações. (em: “Os sete saberes necessários à educação do futuro”- livro incrível!!!). O problema não está no conhecimento (ovo faz bem, ovo faz mal) mas na crença cega nesse conhecimento. Em achar que só há uma verdade, que ela é imutável e, claro, que ela mora na nossa opinião.

Se não abraçarmos o incerto, o complexo, o diverso vamos morrer agarrados às nossas certezas. Pior, acho mesmo que vamos VIVER agarrados às nossas certezas. Entre ser feliz ou estar certo parece que a maior parte das pessoas já fez sua escolha. Quanto a mim, prefiro ser feliz. Se tenho certeza, claro que não!!

andressa

*Andressa é educadora, fundadora da escola WISH, mãe da Isabella de 9 anos, eterna curiosa, apaixonada por novas experiências, se arriscando na escrita. Se quiser acompanhar mais: http://www.porquepensooquepenso.blogspot.com.br/

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