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Shiva – O Senhor do Yoga e destruidor da ignorância

Shiva – O Senhor do Yoga e destruidor da ignorância

Nowmastê

Por Patrick van Lammeren, via Yoga Journal 

Ilustração: Huan Gomes

Shiva

A tradição védica, chamada atualmente de hinduísmo, contém inúmeras divindades, associadas a diferentes objetos e conceitos. Apesar disso, não se trata de um politeísmo, pois as diversas divindades não são consideradas indivíduos separados; ao contrário, são diferentes formas de um único Todo, Ishvara, representando aspectos que ele assume dependendo de como o vemos. Como roupas diferentes que vestimos dependendo da ocasião, Ishvara é visto de diferentes maneiras dependendo da situação.

Dentre todas as divindades, três têm uma posição de destaque: Brahma, o Criador; Vishnu, o Mantenedor; e Shiva, o Destruidor. Essa trindade representa a natureza mutável do Universo, já que tudo o que existe nele necessariamente tem um nascimento, uma duração e uma dissolução. Não existe objeto algum que nasça e permaneça do jeito que é para sempre, ou que exista agora e não tenha tido um nascimento. De fato, esses três momentos são inevitáveis para qualquer forma. Ishvara é aquele que tem esses três poderes, de criar, manter e dissolver, sendo todas as leis que governam o Universo.

Shiva é o terceiro membro da Trimurti, a trindade hindu, representando a dissolução, a destruição e a transformação. Aquilo que é destruído permite que algo novo surja; com isso, há um ciclo de criação, manutenção e dissolução que é constante, que caracteriza a forma como tudo ocorre no Universo. Portanto, a destruição não significa algo ruim, mas uma etapa necessária da própria vida e que está dentro da Ordem que é Ishvara. O próprio nome de Shiva, “aquele que é auspicioso”, indica esta visão maior de que a destruição não deve ser vista como algo que seja contrário a nós mesmos, mas uma grande bênção, na medida em que sempre se encontra de acordo com a Ordem.

Lágrimas e Cura

Nos Vedas, as escrituras fundamentais do hinduísmo e base de toda a cultura indiana, Shiva é conhecido principalmente como Rudra, “aquele que faz chorar”. Essa forma representa o aspecto mais poderoso de Shiva, como aquele que tudo destrói, estando associado às grandes tempestades. Apesar do poder de sua fúria, Rudra é também aquele que cura, eliminando toda forma de doenças e angústias.

Agni, o fogo, é frequentemente associado a Rudra. O fogo representa a própria dissolução, uma vez que queima os objetos completamente, restando apenas cinzas. Dessa forma, diversas imagens de Shiva o retratam com alguma forma de fogo, e as cinzas são usadas até hoje como seu símbolo, marcando a testa e outras partes do corpo de seus devotos.

Apesar de Rudra ser o aspecto mais poderoso e mais citado nos Vedas, Shiva é conhecido principalmente por três outras formas: Mahayogi, ou Mahadeva, o asceta; Nataraja, o rei da dança; e Shiva Linga, como geralmente é representado nos templos.

O Grande Yogi

Como Mahayogi, Shiva representa as disciplinas que são associadas aos ascetas, importantes no estilo de vida de Yoga. Para a obtenção de uma clareza e firmeza da mente, é necessário saber lidar com ela, tendo certo entendimento de como ela funciona. E, para isso, meditação e tapas — ascese — são as ferramentas que a tradição oferece. A meditação como disciplina permite que, aos poucos, sejamos capazes de perceber o que se passa em nossas mentes. Com isso, ganhamos capacidade de foco e de atenção que permite lidar melhor com as situações da vida. Esta mente é capaz de meditar sobre o ensinamento de Vedanta, os textos mais profundos da tradição, levando a uma contemplação da natureza fundamental do Eu.Tapas, por sua vez, consiste em disciplinas esporádicas de controle, em que a pessoa deliberadamente se priva de determinada situação à qual está acostumada, ou se dedica a alguma ação específica durante algum tempo, tomando o cuidado para que não sejam excessivas nem causem dano. Por exemplo, quem está acostumado a só tomar banho quente pode decidir tomar banho frio durante um mês; pode-se cortar todas as bebidas e substituí-las por água durante uma semana; ficar em jejum durante um dia; ou, ainda, cantar certo mantra algumas vezes por dia, ao longo de um ano. Os grandes ganhos de todas essas ações são a capacidade de cumprimento das próprias decisões e a observação das reações da mente diante de uma situação de desconforto, seja na ausência de algo desejável, seja pela presença de algo indesejável. Com isso, é possível ver que não dependemos realmente daqueles objetos, já que passamos por um período sem eles. Shiva como Mahayogi representa o Grande Yogi que passa por todas essas disciplinas meditativas e contemplativas, conquistando uma mente clara e, por meio do estudo de Vedanta, adquirindo o autoconhecimento.

A Dança e o Fogo

Nataraja, o rei da dança, representa Shiva como Ishvara, a Ordem Cósmica. Todo o Universo é muito bem-feito, funcionando perfeitamente. Todas as coisas interagem entre si harmonicamente segundo leis bem estabelecidas, ainda que possamos não perceber. Essas leis são como uma sinfonia cósmica, que rege todas as coisas. A dança de Shiva nada mais é que o poder transformador de Ishvara, fazendo com que todas as coisas nasçam, durem um tempo e, finalmente, se dissolvam. Em torno de Shiva, um círculo de fogo nos lembra da natureza transitória do próprio Universo, e seus cabelos esvoaçantes dançam conforme a música que ele toca. Em uma mão ele carrega o Damaru, o tambor que emite os sons primordiais da criação, e em outra uma chama, que tudo queima; uma terceira mão avisa para que não tenhamos medo dele, já que a Ordem sempre nos conduz ao autoconhecimento, e a quarta mão aponta para seu pé, nos mostrando o que é necessário fazer: render-se a ele, dançando conforme sua música. Abaixo dele, um anão representa o ego, pequeno diante de Ishvara. Em vez de inflarmos esse ego, tentando controlar tudo e sem aceitar as situações que não desejamos, devemos reconhecer que esse ego nada mais é que uma pequena parte de Ishvara, que é quem realmente tudo controla. Com essa atitude, podemos colocar o ego no seu devido lugar, de forma saudável, e ganhamos uma capacidade de ver o que há além dele.

O Shiva Linga, por sua vez, consiste em uma imagem sem forma definida. O termo Linga significa “símbolo”, ou “marca”. Portanto, o Shiva Linga é o símbolo de Shiva. O significado mais evidente é o de um falo. É comum oferecer um banho ritualístico ao Linga, o chamado Abhisheka. Como base para o Linga, há uma espécie de calha circular com um bico, de modo que o líquido utilizado para o banho, como água ou leite, possa escorrer para um recipiente no chão. Essa base é chamada Yoni, literalmente “útero” ou “vagina”. O Linga com a Yoni, portanto, representam o masculino e o feminino juntos, o potencial de criação de Ishvara que é a origem de todas as coisas.

Entretanto, o Linga contém em si um significado mais profundo. Ele não tem face, nem outra característica. De qualquer lado que seja visto, o Linga é o mesmo, não tendo forma. Não apresentando divisões, ele é Advaita, não dual. Assim, ele representa a verdade última de Ishvara e do Universo, que é além de todas as formas, além de toda limitação. O Linga aponta para a verdade de todas as coisas: a Consciência que habita o coração de todos os seres, a própria Existência além de qualquer qualidade, a Plenitude que tudo permeia. O Linga, de fato, representa a natureza fundamental do Eu, além do ego.

Todos esses aspectos evidenciam Shiva como aquele que tudo destrói, inclusive a ignorância a respeito de si mesmo. Eliminando este que é o maior dos obstáculos, todo o sofrimento é destruído, a própria Morte é vencida. Sendo aquele que é auspicioso, Shiva conduz à maturidade da mente e ao conhecimento de que eu e ele somos o mesmo.

*Patrick van Lammeren é professor de simbolismo védico, estudante de física pela UFF e estudante de Vedanta desde 2004, além de fazer parte da equipe do Centro de Estudos Vidyä Mandir, dirigido pela professora Gloria Arieira

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