Sagrado sem cerimônia

Por Mariana de Salles Oliveira*

Se eu tivesse que destacar um único aspecto de minha passagem pela Índia, seria a sacralidade. Desde o tecido que constitui um sari, até forma como se veste, os adornos nos pés, mãos e nariz das indianas, as receitas da comida diária, os óleos, ervas e as práticas da Ayurveda, etc. Tudo é mais do que o fruto de um ritual religioso, é antes de tudo uma complexa teia de ritos sagrados embrenhados em todas as tarefas cotidianas. O que para mim podia ser só uma roupa, ali é um conjunto complexo de significados sociais e religiosos. O que pra mim podia ser só um pouco de comida, ali significa uma energia sagrada que alimenta a vida.

Muito está se perdendo, e as novas gerações repetem gestos sem saber suas origens ou significado. Ao mesmo tempo em que muitas cidades ainda são estruturadas em torno do sagrado, com suas rotinas voltadas às múltiplas formas de conexão com um saber acima da compreensão cotidiana do sentido da vida.

indiamicki (Medium)

O que vemos no ocidente encapsulados em templos, naquela parte do mundo está nas ruas, na música, na comida, na roupa, nas vacas soltas em qualquer lugar! Pulsa no espaço público, imbricada em gestos cotidianos sublimes, como pintar a calçada com mandalas coloridas todos os dias pela manhã, em tambores e mantras ressoando em vários momentos do dia, em festas religiosas de proporções inimagináveis! Um gesto mecânico de organizar coisas básicas do dia a dia está ali embalando a conexão com uma consciência do sagrado da vida como eu nunca havia experimentado.

Índia de altos contrastes. Um mundo onde a alienação religiosa e a alienação mercantilista imploram por reflexão. Um mundo onde o consumismo é pobreza e, ao mesmo tempo, sonho de realização. Onde o sagrado enche de sentido a vida, porém não dá conta de dar a ela dignidade. Conflito insano onde tecnologia, capitalismo e valores multiculturais de uma Índia pluralmente sacralizada se chocam a cada garrafa plástica jogada da janela do trem sem a menor cerimônia, na epidêmica e crescente violência sexual, a cada criança do sexo feminino morta, na tentativa de livrar famílias pobres do dote que pode levá-las a uma pobreza maior ainda.  Índia insana. Ir até lá é por si só uma aula de sociedade. Um choque de realidade, um sonho de religare e, ao mesmo tempo, um cenário da degradação ambiental e humana de proporções planetárias!

Meditar na Índia é alcançar o sublime de seus infinitos caminhos de sabedoria para uma vida mais saudável e plena de sentido. É entender num grau mais agudo a vantagem de saber suspender seus sentidos, saber caminhar sem sentir o cheiro, sem se incomodar com o barulho, sem ser arrebatado pela gravidade que se arrasta pelo chão. Minha imagem é de um guru tão embasbacado com as maravilhas dos estados sutis de existência, que acabou por descuidar de sua forma mundana, de sua carne! Ir a Índia é mergulhar nos conflitos contemporâneos globais de corpo e alma. Sem maquiagem, sem mi mi mi. É um banho de luz e sombra! Vá e verá!

micki

Foto: Mariana, em Pushkar, Rajasthan

*Psicóloga de formação, Mariana é consultora pra programas de educação de jovens e adultos. Ela tenta unir a experiência de mais de uma década de clinica institucional a educação experiencial, design comunicacional e o cuidado com o corpo. O desafio tem sido traçar uma nova forma de trabalho em políticas públicas, projetos socais e empresas.  Curiosa por terapias alternativas e sempre na busca de saúde e consciência, Mariana fotografa de coração e ativa esse ofício no seu mais querido lado B. Viajar!

http://www.flickr.com/photos/msallesoliveira/sets/

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