Realidade e Insight por Matthieu Ricard (Série Por que eu não consigo ser feliz?)

Por Matthieu Ricard via Tibet House Brasil* (Parte 2)

O que se entende por realidade? No Budismo, essa palavra tem a conotação da verdadeira natureza das coisas, quando elas ainda estão inalteradas pelas construções mentais que lhes sobrepomos. Os nossos conceitos acabam abrindo um fosso entre a nossa percepção e a realidade em si, criando um conflito sem fim com o mundo. “Nós lemos o mundo de uma forma equivocada e depois dizemos que ele nos ludibria”, escreveu Rabindranath Tagore. Nós consideramos permanente o que é efêmero, e consideramos felicidade o que não é nada mais do que uma fonte de sofrimento: o desejo por riqueza, por poder, por fama, por prazeres impertinentes.

Por conhecimento, entende-se não o domínio das massas de informações ou aprendizado, mas o entendimento da verdadeira natureza das coisas. Devido ao hábito, nós percebemos o mundo exterior como uma série de entidades distintas e autônomas às quais atribuímos características que acreditamos que lhes pertencem intrinsecamente. Nossas experiências do dia a dia nos dizem se as coisas são “boas” ou “ruins”. O “eu” que as percebe nos parece ser igualmente concreto e real. Esse erro, que o budismo chama de ignorância, dá origem a poderosos reflexos de apego e aversão que geralmente nos levam ao sofrimento. Como disse Etty Hillesum de forma tão concisa: “o maior obstáculo é sempre a representação; nunca a realidade”. O mundo da ignorância e sofrimento – denominado sâmara em sânscrito – não é uma condição fundamental da existência, mas um universo mental baseado em nossa concepção equivocada da realidade.

O mundo das aparências é criado pela reunião de um número infinito de causas e condições em constante mudança. Assim como um arco-íris – que se forma quando o sol brilha através de uma cortina de chuva para depois sumir quando algum fator que contribuía para sua formação desaparece – os fenômenos existem de um modo essencialmente interdependente e não tem nenhuma existência autônoma ou duradoura. Tudo é relação; nada existe em si ou por si mesmo, imune às forças de causa e efeito. Uma vez que esse conceito é compreendido e internalizado, a percepção equivocada do mundo dá lugar ao entendimento correto da natureza das coisas e dos seres: isso é insight. Insight não é uma mera construção filosófica; ele emerge de uma abordagem básica que nos permite gradualmente ir abandonando a nossa cegueira mental e as emoções inquietantes que ela produz; e, logo, da principal causa do nosso sofrimento.

Todo ser tem o potencial para a perfeição, assim como toda semente de gergelim é permeada de óleo. A ignorância, nesse contexto, significa não estar consciente desse potencial, assim como um pedinte que não sabe do tesouro que está enterrado debaixo do seu barraco. Reconhecer a nossa verdadeira natureza, tomando posse daquela riqueza escondida, permite-nos viver uma vida cheia de significado. Trata-se do caminho mais seguro para encontrarmos serenidade e para deixar florescer o verdadeiro altruísmo.

Existe uma forma de ser que infunde e é subjacente a todos os estados emocionais, abrangendo todas as alegrias e tristezas que chegam até nós. É uma felicidade tão profunda que, como escreveu Georges Bernanos: “Nada pode alterá-la, assim como a enorme reserva de água tranquila que fica embaixo de uma tempestade”. A palavra em sânscrito para esse estado de bem-estar é sukha.

Sukha é um estado duradouro de bem-estar que se manifesta quando nós nos livramos da cegueira mental e das emoções aflitivas. É também a sabedoria que nos permite ver o mundo assim como ele é, sem véus ou distorções. Enfim, é a alegria de ir em direção à liberdade interior e à gentileza amorosa que irradia para os outros.

Primeiro, concebemos o “eu” e nos apegamos a ele.
Depois, concebemos o “meu” e nos apegamos ao mundo material.
Assim como a água presa na roda do moinho, giramos em círculos, impotentes.
Louvo a compaixão que acolhe todos os seres.
Chandrakirti

A confusão mental é um véu que nos impede de ver a realidade de forma clara, deixando nebuloso o nosso entendimento sobre a natureza das coisas. Em termos práticos, é também a inabilidade de identificar o comportamento que nos permitiria encontrar a felicidade e evitar o sofrimento. Quando olhamos para o exterior, solidificamos o mundo projetando nele atributos que de forma alguma lhes são inerentes. Olhando para dentro, congelamos o fluxo de consciência ao concebermos um “eu” idealizado entre um passado que não mais existe e um futuro que ainda está por vir. Damos como certo que nós vemos as coisas assim como elas são e raramente questionamos essa opinião. Nós espontaneamente atribuímos qualidades intrínsecas a coisas e pessoas – pensamos “isso é belo, aquilo é feio”-, sem nos dar conta de que a nossa mente superpõe esses atributos nas coisas que percebemos. Dividimos o mundo todo entre “desejável” e “indesejável”. Atribuímos permanência ao efêmero, e vemos entidades independentes no que na verdade é uma rede de relações que mudam incessantemente. Tendemos a isolar determinados aspectos de eventos, situações e pessoas, e colocamos todo o nosso foco nessas particularidades. É assim que acabamos rotulando os outros como “inimigos”, “bons”, “maus” e etc., e nos apegamos fortemente a essas atribuições. No entanto, se considerarmos a realidade com cuidado, a complexidade dela se torna óbvia.

Se uma coisa fosse verdadeiramente bela e agradável e se essas qualidades genuinamente lhe pertencessem, nós a consideraríamos desejável em qualquer momento e em qualquer lugar. Mas existe alguma coisa nesta terra que reconhecemos como belo de forma unânime e universal? Como diz o verso canônico budista: “para o apaixonado, uma bela mulher é um objeto de desejo; para um eremita, uma distração; para o lobo, uma boa refeição”. Do mesmo modo, se um objeto fosse inerentemente repulsivo, todo mundo teria uma boa razão para evitá-lo. Mas tudo muda quando reconhecemos que estamos simplesmente atribuindo essas qualidades às coisas e às pessoas. Não há uma qualidade intrínseca em um belo objeto que o torna benéfico para a mente, assim como não há nada em um objeto feio que lhe prejudicará.

Da mesma forma, uma pessoa que hoje consideramos uma inimiga certamente será o objeto de afeto de um outro alguém, e pode ser que, um dia, firmaremos laços de amizade com esse mesmo inimigo. Nós reagimos como se as características fossem inseparáveis dos objetos para os quais as atribuímos. Assim, nós nos distanciamos da realidade e somos arrastados para dentro do mecanismo da atração e repulsão que se mantém incansavelmente em movimento pela nossas projeções mentais. Os nossos conceitos congelam as coisas em entidades artificiais e, assim, perdemos a nossa liberdade interior, da mesma forma que a água perde sua fluidez quando vira gelo.

Adaptado de “Felicidade: a prática do bem-estar” (Happiness: A Guide to Developing Life’s Most Important Skill), por Matthieu Ricard. Reimpresso com a autorização de Little, Brown and Company. © 2006 por Matthieu Ricard.

Traduzido do site Lion’s Roar (disponível em: https://www.lionsroar.com/why-cant-i-be-happy)

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