Quando o acesso à educação não é suficiente

O último relatório da ONU sobre as metas de desenvolvimento do milênio aponta a impressionante taxa de 94% de matrículas na educação primária na América Latina e Caribe. Essa taxa tem uma relação histórica com a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, adotada em 1990 na Tailândia, que estabeleceu que todas as crianças, jovens e adultos devem ter acesso à educação.

A declaração gerou esforços na América Latina para universalizar o ensino fundamental e ajuda a explicar o alto índice de crianças na escola. A notícia seria ótima se não estivesse atrelada a outra dura realidade: a ampliação do acesso à educação reduziu sua qualidade, que passou a ser um dos grandes desafios dos países latino-americanos. Basta verificar os altos índices de repetência, evasão escolar e distorção idade/série da região.

No Brasil, segundo o IPEA (Pnad 2009), a escolaridade média da população de 15 anos ou mais na zona rural é de quatro anos, contra 8,6 anos no meio urbano. Esse é outro dado alarmante, pois, segundo a UNESCO, 77% das crianças que passaram quatro anos ou menos na escola não conseguem ler uma frase inteira. Justificam-se, assim, os altos índices de analfabetismo funcional do país, em especial nas suas áreas rurais.

De acordo com o INAF 2011, 27% da população brasileira de 15 a 64 anos são analfabetos reais, o que inclui os analfabetos funcionais. Isto é, quase um terço dos brasileiros não sabe ler ou só sabe ler e escrever algo simples, com habilidades limitadas e dificuldade de compreensão de texto. É ainda mais inquietante notar que esse número é maior do que o de alfabetizados plenos _ apenas 26% da população brasileira.

O Brasil vem enfrentando esse desafio com políticas públicas, como o Plano Nacional do Livro e Leitura (2006), que busca a democratização do acesso ao livro e o fomento à leitura e à formação de mediadores. No mesmo sentido, há excelentes iniciativas da sociedade civil, como a da ONG Vaga Lume que, desde 2001, vem formando leitores na Amazônia Legal brasileira.

A região, segundo o Imazon (2009), tem uma taxa de analfabetismo real de 33%, sendo 2,5 vezes maior nas áreas rurais se comparadas às áreas urbanas. No mesmo ano, foi publicado na Revista Raízes um estudo sobre equidade educacional no campo que atestou as barreiras que esse grupo, considerado vulnerável, enfrenta para concluir os estudos, dada a infraestrutura precária, a falta de políticas específicas para a zona rural e a nucleação na zona urbana.

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É nesse contexto que a Vaga Lume criou bibliotecas em comunidades rurais de difícil acesso em 23 municípios da Amazônia. Sua premiada metodologia tem como princípio a valorização da cultura local e consiste em três ações interconectadas: a doação de livros de literatura, que promove o acesso ao livro e à leitura; a formação de voluntários como mediadores de leitura, que qualifica esse acesso; e o incentivo à gestão comunitária da biblioteca, que garante a sua sustentabilidade local.

Os resultados de mais de 12 anos de trabalho merecem atenção. A ONG e seus três mil mediadores de leitura voluntários conseguiram que cada biblioteca tenha, em média, por mês, 152 frequentadores, 126 empréstimos de livros e 11 sessões de mediação de leitura, beneficiando 24.000 crianças e jovens. Além disso, consegue manter 77% de suas bibliotecas ativas em escolas rurais, já que, no Brasil, 90% delas não dispõem dessa indispensável ferramenta de apoio ao ensino.

Na América Latina, há outros exemplos interessantes, como os Parques Bibliotecas de Medellín, na Colômbia, e o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, no Chile. Essas iniciativas, como a da Vaga Lume, oferecem às crianças e jovens uma educação intercultural que, ao mesmo tempo em que melhora, amplia perspectivas e horizontes. São, portanto, exemplos de ações que contribuem para a garantia de uma educação de qualidade às futuras gerações de latino-americanos.

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Laura Davis Mattar, 36, é advogada de direitos humanos e Marina de Castro Rodrigues, 27, é formada em Relações Internacionais. Juntas, são responsáveis pelas parcerias e captação de recursos da Associação Vaga Lume.

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