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Pratique e tudo virá

Pratique e tudo virá

Sabrina Salton

Nosso caminho é pautado por marcas. Positivas e negativas, elas não apenas são parte inerente da nossa história como formam nossa vida. Desde que comecei a praticar yoga, antes de me aprofundar na filosofia, eu queria fazer e entender as posturas, os ásanas. Aprender algo novo a cada aula me deixava feliz, principalmente em saber que meu corpo conseguia lidar com aquilo, mesmo nunca tendo feito antes. Era como se eu estivesse dando permissão para que meu corpo fizesse algo conectado à minha mente. Mas, alguns meses depois eu me deparei com meu primeiro grande desafio: a encantadora e “instagramável” inversão de cabeça (sirsasana).

Viagem do Ego, ou não, a verdade foi que me encantei por aquele ásana e queria executá-lo. Pois bem, minha professora na época disse que era para eu ir aos poucos, com cuidado, pois é uma postura que necessita dedicação e paciência. Depois de diversas tentativas frustradas de conquista da minha inversão, eu li uma frase num blog zen budista: pratique e tudo virá. A frase não estava no contexto da yoga ou da postura, mas é claro que como eu estava com aquilo na cabeça ela caiu como uma luva pra mim. 

Essa frase e aquela vontade de fazer a bendita postura me marcaram tanto positivamente quanto negativamente. Meu yin yang estava completo. Porém eu pratiquei, pratiquei e pratiquei e ela não veio. Não quando eu queria, nem do jeito que eu esperava. Mas, seguindo conselhos da minha instrutora, aos poucos fui formando meu sirsasana e conquistei a sonhada postura. Percebi então que tinha sido um marco, mas não por ter conseguido ficar de cabeça para baixo, mas por ter aprendido uma grande lição que era justamente a marca que todo esse processo deixou em mim. 

Desde então venho aprendendo que ninguém precisa ser bom em tudo, ou melhor, todos nós podemos nos permitir ser iniciante em algo, não dominar essa coisa ou técnica, seja ela uma postura de yoga ou uma nova língua. O fato é que aprender é um processo de processos e que as marcas que ficam são verdadeiros professores da alma. Positivo e negativo, juntos formando o equilíbrio podem ser nossos guias na vida. Ou como diria o famoso poeta sufista Rumi: “A escuridão é sua vela”.

Estamos passando por um momento muito difícil e desafiador, talvez o mais difícil da nossa geração. Nos apegamos àquilo que nos faz bem nesse momento e acredito que isso não é egoísmo e sim uma busca por equilíbrio dentro de um turbilhão acontecendo em nosso meio. Dentro e fora de nós. O processo de aprendizagem busca vencer nossas dificuldades individuais e também as coletivas. 

Será necessário aprender e re-aprender como viver em sociedade e como indivíduo. Mais uma vez a prática de um novo caminho será requisitada e teremos que exercitar para que o novo venha e se consolide. 

Dentro do nosso universo cheio de certezas e incertezas vai ser preciso fazer da escuridão a vela que nos guiará para um caminho e um mundo melhor. Desculpe se esse texto não foi só sobre a postura, mas nem o yoga é só sobre ásanas, inclusive, acredito que yoga seja mais sobre um caminho do que um fim. 

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