Pra não dizer que não falei das flores – Fernanda Nicz compartilha seu caminho de aprendizado

Por Fernanda Nicz*

Dois meses de estrada; 60 dias de encantamentos e desencantamentos. Antes de mais nada, vale lembrar; EU escolhi este caminho. Eu vim atrás de respostas – para questões que há tempos tinha em mente – e mais perguntas. Eu tive coragem de vir, ver e vivenciar. Deste movimento me orgulho. E por este movimento, não tem jeito, sou 100% responsável.

Em tudo existe o lado belo e outro nem tanto. Mas aprendi, com o saudoso Rubem Alves, que a beleza está nos olhos de quem vê e que se pode ser feliz enquanto existir, lá dentro, a capacidade de se encantar diante da beleza vista/suposta. Que não nos esqueçamos, em nenhum momento – mesmo diante da mais triste/feia/complicada situação -, deste nosso dom.

Nestes dois meses tenho exercido muito a capacidade de me encantar. Nem tudo são flores, mas tudo que mais quero ver são flores e é isto que importa! Assim, nas muitas situações que, a princípio (ou normalmente), não gosto ou não estou habituada, respiro e confio. Aquilo não veio por acaso e há de haver algo passível de encantamento ali. Às vezes, não enxergo na hora, mas dias depois acabo compreendo a beleza. Faz parte.

Mas não é tão simples. Não basta apenas querer muito ver flores. Já que só se pode ver o que se conhece bem, é preciso ter um jardim (todos têm, mas não são muitos os que querem e encontram tempo de descobri-lo) repleto delas dentro da gente pra então conseguir admirá-las fora. Esta é a etapa que muitos pulam ou ignoram. Não é fácil encarar o jardim interno – há flores e há também espinhos -, mais difícil ainda é cultivá-lo.

nicz5

Nestes dois meses de peregrinação, a natureza, o silêncio, a liberdade e a incerteza têm proporcionado uma cuidadosa investigação do meu jardim. De um livro do Deepak Chopra: “a incerteza é o caminho da liberdade e de todas as possibilidades”. Permitir-se trilhar uma estrada pouco conhecida, nos dias de hoje, soa insano (há uma busca insana por estabilidade e permanência), mas fazê-lo, traz algumas recompensas. A maior delas; oportunidade de perceber-se em ambientes estranhos = alto autoconhecimento. Diante de situações e pessoas inesperadas é preciso um olhar atento para enxergar que flores (aprendizado, cura, troca) traz cada situação/pessoa.

nicz2

Num momento em que os seres “não têm tempo para nada”, estão “atrapalhados e correndo muito” para dar conta dos compromissos e manter o padrão de vida, obviamente não há disponibilidade para olhar para dentro, imagina então, de cuidar do que encontra lá dentro. Sem chances. Mas mesmo assim, os seres querem, insanamente, ver flores em tudo que há fora. E é possível? Acredito que sim. Possível é, mas acho que se enxerga de forma diferente; ou se vê tudo embaçado, ou se vê tudo ampliado ou se vê tudo muito escuro. Ignorar as flores de dentro desestabiliza o ser e faz o olhar se perder na paisagem de fora. É quando as flores externas passam a influenciar o serzinho que esqueceu ou teve preguiça de estar, num primeiro momento, apenas com suas flores internas.

nicz6

Acredito que o caminho mais fácil e bonito para enxergar toda beleza, em qualquer canto do mundo, é dedicar tempo para olhar com calma para dentro e encontrar e descobrir cada vez mais flores. Depois; cultivar e dar atenção. Porque quando elas estão vivas, coloridas e vibrantes, refletem do lado de fora e tudo se equilibra e se harmoniza naturalmente.

E, na prática, como fazer? Não existe regra, cada ser tem um jeito de se aproximar de suas flores… VONTADE e, coisa difícil para muitos; TEMPO, são fundamentais.

O meu inclui meditação e escrita diária. Mas meu processo intensificou-se nestes dois últimos meses, assim, concluo que, coragem e movimento em direção ao que se acredita, mesmo com certeza de quase nada, a não ser que se está no caminho…ouvir o chamado e ousar dar o primeiro passo – e não esperar a situação ideal (existe?) para fazê-lo, é a melhor forma de chegar bem perto de nossas próprias flores, conhecer-se e ver o lado bom/as flores dos outros seres e do mundo.

jardim

 

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

4 Comentários

  1. Que belo caminho para o autoconhecimento tens feito Fernanda. Já dizia o grande sociólogo e pensador Zygmunt Bauman que a felicidade se sustenta na liberdade e segurança que é o que buscamos. Mas, como conciliar estes dois aspectos tão conflitantes. Exercer a liberdade requer audácia, coragem para se soltar das amarras da segurança. Mas, sem o mínimo de segurança pomos essa liberdade em risco. Como equilibrar essa duas forças é o que você está buscando. Sucesso nesta sua busca. Eu acrescentaria a fé como o terceiro aspecto que sustenta nossa existência. Abraço querida.

Deixe uma resposta

Por uma vida mais consciente

Você quer receber as novidades e promoções do Nowmastê no seu e-mail?