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Porque todas as mentes precisam de Mindfulness

Porque todas as mentes precisam de Mindfulness

Nowmastê

Recentemente a revista americana TIME lançou uma edição especial sobre mindfulness, chamada Mindfulness – The New Science of Health and Happiness (Mindfulness – A nova ciência da saúde e da felicidade). A foto de capa já é uma velha conhecida de quem está atento ao assunto, pois já foi capa da própria TIME há alguns anos. Já o conteúdo deste especial é uma compilação de artigos já publicados e outros novos, todos muito bacanas.

Nós amamos e, a pedidos, resolvemos traduzir alguns dos artigos. Aqui o primeiro deles.

Ah, se quiser comprar a revista em inglês, clique aqui.

Na loucura do dia-a-dia, cada vez mais e mais pessoas estão em busca de paz e descobrindo que estar presente é a principal recompensa

Por Mary Elizabeth Williams, Time Special Edition, Tradução Nowmastê

Time Special Edition

Estou levando minha atenção para fora. Em pé na calçada, noto a umidade densa da tarde de verão e a forma como o ar quente entra em meus pulmões. Estou presente para observar o tempo passar e perceber como, de alguma maneira, ele aparenta estar mais devagar. Estou consciente que divido este espaço com um punhado de homens e mulheres ao meu redor. Desta vez, o professor de meditação nos deu uma aula em pé. É isso, algumas vezes, as aulas de mindfulness nos levam para outros lugares.

Peça para 10 pessoas definirem o que é mindfulness e você terá 10 respostas diferentes. Mas o conceito básico da palavra é bem objetivo. Ele significa colocar de lado, por alguns instantes, a meia-dúzia de tarefas que estão passando pela sua mente. Significa abraçar a beleza do monotasking (fazer uma coisa de cada vez). E como definiu o autor e estudioso de mindfulness, Jon Kabat-Zinn, significa “prestar especial atenção ao momento presente, sem julgamento e com intenção”.

Apesar da prática contemplativa ter suas origens em alguns dos maiores sistemas de crença do mundo – mais reconhecidamente no Budismo, mas também no Hinduísmo, no Judaísmo e no Cristianismo -, não é necessário fazer parte de nenhuma religião ou filosofia para experimentar mindfulness. E se recentemente você descobriu que desobstruir a mente foi a única coisa recomendada pelo seu médico para melhorar sua saúde, você não está sozinho.

Não é coincidência que, enquanto estamos cada vez mais envolvidos em distrações  – um estudo de 2013 da University of Southern California estimou que os americanos consomem em média 13 horas ou mais de mídia por dia -, nós simultaneamente nos vemos em meio a revolução do mindfulness. As evidências estão por todos os lados. Nos Estados Unidos, hospitais em todo o país, usam cada vez mais meditação, yoga e outras práticas alternativas como parte dos cuidados de saúde oferecidos aos pacientes cirúrgicos, em tratamento para dor e de câncer, entre outros. Corporações como American Express e Nike entraram nessa corrente levando treinamento de mindfulness aos seus funcionários. Aplicativos como Headspace (“A Gym Menbership to Your Mind”) já foram baixados milhões de vezes. Um estudo de 2012 do National Institute of Helath revelou que, no último ano, mais de 33% dos americanos afirmaram já terem usado práticas alternativas de saúde, incluindo meditação.

Há muito tempo (mesmo que de forma errática e inconstante) eu venho praticando meditação. Mas recentemente, com as demandas crescentes do século XXI (trabalho, maternidade, uma quantidade aparentemente sem fim, imposta por mim mesma, de e-mails e mensagens de texto a responder, e posts no Instagram para curtir), me encontrei abraçando um dos melhores efeitos colaterais da minha prática: o mindfulness que me ajuda a me acalmar em qualquer lugar ou a qualquer hora, mesmo em meio aos momentos mais conturbados. E juntamente com um crescente número de indivíduos, estou indo contra os rigores daquilo que a escritora Linda Stone diagnosticou com precisão como sendo “uma continua atenção parcial”, e experimentando física e mentalmente os benefícios das pausas regulares.

Benefícios para a Saúde

Os benefícios do mindfulness são palpáveis. A Associação Americana de Psicologia o cita como uma esperançosa estratégia no tratamento da depressão, ansiedade e dor. Mas mindfulness não melhora apenas o humor e a percepção, seus efeitos são mais profundos. Segundo pesquisa de 2013 da Universidade de Pittsburgh e da Universidade de Carnegie Mellon, a prática do mindfulness pode diminuir o tempo de reação da amígdala, região do cérebro responsável pelas nossas reações emocionais. Outro estudo feito na Universidade de Wisconsin-Madison descobriu que as pessoas que meditam regularmente têm diferentes padrões de eletricidade no cérebro, e isso potencialmente pode gerar uma forma mais eficiente de atenção e aprendizado. Mude seus pensamentos e você pode até mudar o seu cérebro.

No meu caso, mindfulness se mostrou uma ferramenta poderosa contra enxaquecas e ataque de pânico. Parece um truque de mestre, usar meus próprios pensamentos para apaziguar meu cérebro turbulento, reduzindo o consumo de medicamentos e as visitas ao psiquiatra. Mas isso não significa que eu, como todas as pessoas, muitas vezes, ainda não passe por sufocos causados pelo excesso de informação.

“Parece que existe uma confusão na nossa cultura, onde as pessoas acreditam que para serem eficientes elas têm que estar ansiosas, tensas e sempre preparadas para agir”, diz o escritor e psicólogo, Daniel Goleman, autor dos best sellers reveladores Emotional Inteligence e The Meditative Mind. Goleman explica que na nossa cultura freneticamente competitiva “as pessoas estão se sentindo levemente desesperadas. Antigamente você ia do trabalho para casa, agora você tem aparelhos que te seguem a todos os lugares. O corpo foi desenhado para ser energético e ativo e depois se recuperar. Mas as pessoas não têm mais esse período de recuperação, existe uma invasão silenciosa e invisível do nosso espaço.”. O resultado, ele explica, “é que está todo mundo fazendo milhões de tarefas loucamente, e quanto mais você faz, pior você fica”.

Valorizando o “Monotasking”

Pode parecer contra-intuitivo, mas é verdade. Pesquisa da Universidade da Califórnia, em Irvine, revela que, durante um dia de trabalho comum, as pessoas, em média, não apenas estão mudando de tarefa a cada três minutos, mas estão precisando de um tempo significativamente maior para voltar a tarefa inicial. E, como disse em 2008 a professora da U.C. Irvine, Gloria Mask, todo esse vai e vem gera “um maior nível de stress, frustração, esforço mental e a sensação de pressão por tempo e excesso de trabalho mental”.

Em contraste, Goleman afirma que “um estado relaxado de alerta é ótimo para qualquer trabalho, em qualquer área. Atletas tentam entram nesse estado, porque é quando o cérebro trabalha melhor e a mente funciona em seu ápice”.

Assim, não surpreende que, cada vez mais, o mindfulness esteja sendo integrado ao ambiente de trabalho, com iniciativas como a do Google que, há 10 anos, criou o programa de treinamento Search Inside Yourself (Procure Dentro de Você). Desde 2017, ele tem sido usado por grandes empresas do mundo da tecnologia e além, utilizando técnicas milenares para aumentar a produtividade e diminuir esgotamentos.

Mesmo assim, muitos de nós, eu inclusive, ainda usa insistentemente a sua capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo como uma bandeira. Qual foi a última vez que você viu o anúncio de um emprego oferecendo um ambiente consciencioso e tranquilo e requerendo um candidato capaz de fazer uma tarefa de cada vez?

E se você é aquele tipo de pessoa cuja primeira reação em relação a meditação é insistir que seu cérebro trabalha rápido demais e que você simplesmente não foi feito para isso, você é exatamente a pessoa que mais precisa dela. O escritor e professor de meditação, Sharon Salzberg afirma: “Eu ouço as pessoas falarem ‘tentei uma vez e falhei’. Acho que o medo e a sensação de fracasso nascem da concepção errônea do que deve acontecer quando meditamos. A maioria de nós tem o terrível hábito de ser injusto consigo mesmo. Mas ninguém vai desistir de tocar piano só porque sentou a primeira vez em um e não tocou uma belíssima peça”.

Também ajuda entender que não existe nenhum prêmio especial distribuído ao melhor meditador do mundo. Salzberg sugere que pensemos em mindfulness como “uma forma diferente de nos conectarmos as nossas experiências, uma qualidade da atenção em que nada é somado”. Chame isso da experiência mágica e transformadora de arrumar seus próprios pensamentos. Ela acrescenta: “Muitos de nós, começam a pensar o que será que vai acontecer na semana que vem ou no mês que vem. Quando você percebe essa antecipação aparecer, você volta para o agora. Mindfulness nos ajuda a acordar”.

Foi assim que a minha amiga, Whitney, uma editora digital de um importante veiculo de comunicação, aprendeu a desapegar e encontrou o seu ritmo. Morando em Nova York, pouco tempo depois dos ataques de 11 de setembro, ela teve uma série de doenças relacionadas ao stress até que uma amiga a convenceu a ir a uma aula de meditação. Não foi exatamente a experiência de um peixinho na água.

“Sou incrivelmente acelerada e distraída”, diz ela. “Me lembro a primeira vez que sentei para meditar. Fiquei em êxtase simplesmente por ter conseguido sentar imóvel por meia-hora. Algumas pessoas imediatamente entendem o processo, mas não foi assim comigo”. Ao contrário, ela admite, “Para ser bem honesta, eu acho que nos primeiros anos eu apenas fiquei ali sentada. E a meditação é uma prática incrível, mas o que importa é o que acontece quando você sai da almofadinha. É como você vai aplicar e trabalhar o mindfulness na sua vida. Isso quer dizer que eu estou tentando estar presente quando estou trabalhando ou quando estou lavando louça. Estou sempre tentando prestar mais atenção”.

Richard Davidson, o fundador do Center for Healthy Minds da Universidade de Wisconsin-Madison, construiu sua carreira estudando este assunto. Ele diz que a prática constante pode melhorar sua capacidade de “aceitar as coisas sem se apegar fortemente a elas”, e essa é uma importante técnica para redução do stress. “Isso não quer dizer que a gente não experimente emoções intensas”, ele afirma. “O que significa é que as emoções voltarão a sua normalidade mais rapidamente. Nós teremos emoções apropriadas as situações, sem que elas invadam as próximas situações. Não existe o remoer, o insistir”.

Com o tempo eu passei a olhar para a minha prática da mesma forma como olho para a pizzaria próxima a minha casa ou para as sonecas que tiro no final de semana: não são sempre fantásticas, mas geralmente são boas o suficiente para melhorar meu espírito. O Midfulness me fez apagar vários aplicativos do meu celular e desligar as notificações de quase todos os outros. Me ajudou a superar o meu medo do tédio e, às vezes, até arriscar a sair para uma corrida sem o meu Ipod. Me permitiu de vez em quando, almoçar longe do meu computador. Cheirar um tomate antes de cortá-lo para colocar na salada, ou respirar calmamente algumas vezes quando me sinto sobrecarregada. Essas não são atitudes revolucionárias, elas são desafiadoras e muitas vezes eu me perco. Mas esta é justamente a questão.

Se comprometendo

Estou em Nova York sentada em uma almofada no espaçoso e tranquilo estúdio MNDFL. Meus olhos estão fechados e minha respiração está estável. Estou ouvindo o instrutor nos guiar por uma meditação para despertar a compaixão. Eu estou na onda. Dai me lembro que na volta pra casa tenho que parar para comprar leite e banana. Mas isso não significa o fracasso da minha meditação. Este é um exemplo de mindfulness. Eu reconheço que me desconectei e tento me conectar novamente. “Se sua mente se dispersa, você apenas perceba para onde ela está indo”, afirma o co-fundador do MNDFL, Lodro Reizler. Como ele diz, “Minfulness é uma coisa difícil de errar”.

Como que para provar o que foi dito, quando a aula termina e eu estou na fila do supermercado, me percebo fazendo algo surpreendente. Não estou olhando no meu celular. Não estou ouvindo um podcast em um ouvido enquanto uso o outro para conversar com o homem dos frios. Eu estou apenas… comprando comida. Me parece surpreendentemente civilizado. Como Goleman diz: “Cada vez que você faz uma repetição com um peso, você está fortalecendo um músculo. Cada vez que você traz sua mente de volta para aquilo que você está fazendo, mais forte e focada ela se torna”.

Se existe um lado negativo do mindfulness é que, ultimamente, não consigo parar de me sentir inundada por, veja bem, mindfulness. A palavra aparece em todos os cantos, dos livros de pintar para adultos aos rótulos de produtos veganos. Algumas vezes, mindfulness parece ser a nova palavra da moda, uma palavra hipster que logo-logo vai perder o impacto.

Mas os autocuidados autênticos não podem ser dispensados simplesmente por estarem na moda. Reizler relembra que “nos anos 50, se você falasse que ia correr, a outra pessoa perguntaria ‘quem está te perseguindo?’. Acredito que estamos numa nova onda como essa. Existem todos estes estudos sobre o mindfulness falando que você irá dormir melhor, que ficará menos reativo. E até o seu médico, não apenas seus amigos hippies, também está falando a mesma coisa,”. É como fazer uma atividade física e comer de forma mais balanceada e com mais vegetais, onde consistência é mais importante do que tudo ou nada, o sucesso ou fracasso. E como todas essas outras questões, a dedicação ao mindfulness é um projeto para toda a vida.

Eu sou um trabalho em progresso. Se por acaso você me cruzar na rua, você irá ver que não estou flutuando serenamente sobre a calçada e que não tem luz saindo do meu terceiro olho. Em vez disso, você verá uma mãe ocupada, muito provavelmente arrastando seus filhos para a próxima atividade, digitando no celular uma resposta para alguma outra demanda urgente, automaticamente indo pelo meu caminho como um personagem de um game da década de 80. Mas, sempre que posso, estou tentando prestar mais atenção. Eu continuo tentando porque continua valendo a pena, pois como a filosofa Simone Weil observou, décadas antes da era digital, “Atenção é a mais rara e pura forma de generosidade”. E é um presente que vale a pena ser dado a nós mesmos.

 

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