Porque a educação das crianças começa dentro de cada um de nós

Do blog de Sri Prem Baba

Precisamos focar na educação das crianças se quisermos estabelecer uma nova realidade para nossa sociedade. Se faz necessário criar condições para oferecer uma educação real que inclua não só o conhecimento secular, mas também a possibilidade da lembrança de si mesmo, desde cedo. Nossa educação, como é hoje, está baseada na guerra. Ela estimula a competição, a disputa e a comparação, que por sua vez, estimulam uma comunicação violenta, que é a base da guerra.

Sinto que autoconhecimento tem de se tornar política pública e tem de acontecer em larga escala. Essa é a única possibilidade de trazer uma nova consciência para esse planeta, do contrário, seguiremos assim: um ou outro conseguindo acordar, um ou outro conseguindo escapar do sonho ruim. E se precisa acontecer em larga escala, isso quer dizer que não é trabalho para um homem só, pelo contrário, é um trabalho para todos nós. A mudança só acontecerá se unirmos nossos dons e talentos em prol dessa meta.

“O processo de educação das crianças começa dentro de cada um. Ele tem início quando você se dispõe a educar a sua natureza inferior, até que seja possível ter algo verdadeiro para dar para as crianças. “

O processo de educação das crianças começa dentro de cada um. Ele tem início quando você se dispõe a educar a sua natureza inferior, até que seja possível ter algo verdadeiro para dar para as crianças. Se for de outro jeito, aquilo que chamamos de educação, será somente a reedição das feridas infantis na idade adulta, através do mecanismo de projeção. Inevitavelmente você projeta nas crianças suas mazelas e quer fazer dela aquilo que você imagina que seja o certo, que acredita ser o melhor. Mas nem tudo aquilo que você acredita ser o melhor é de fato o melhor. Porque se trata de uma crença, que tem base no passado que ainda não foi transcendido. Então não podemos falar de educação das crianças sem falar do processo pessoal de autotransformação e expansão da consciência.

Eu tenho dito que a criança nasce amando e confiando, ela nasce com estas qualidades acordadas. O amor faz com que ela confie. Acontece que em algum momento da vida, ela começa a aprender a sentir medo, a ter ódio, a sentir ciúmes. Esses sentimentos costumam não ser bem elaborados e então, ela passa a se proteger usando máscaras, até que em algum momento ela rompe com a sua própria essência e esquece-se de quem é, passando a agir somente através dessas máscaras. Em outras palavras, a criança perde a espontaneidade, a naturalidade. Ela perde a confiança na vida, porque o medo se instalou no seu sistema.

Quando crescem e se tornam adultas, mal fazem ideia de que usam essas máscaras, apenas sentem os sintomas causados por tamanha desordem: ansiedade, angústia, depressão, vergonha, sentimento de desencaixe. Ou seja, não encontram mais seu lugar no mundo e tão pouco conseguem sustentar a alegria da vida.

Como disse, o medo desenvolveu a máscara e a máscara não permite que sejamos nós mesmos. A máscara é um fingir ser, e a pessoa finge ser com o objetivo de conseguir alguma coisa em troca. A máscara é a própria moeda de troca: agrada o outro com a intenção de receber alguma coisa depois. No mais profundo, o que desejamos receber é amor, desejamos ser amados, mas às vezes, nem isso é possível admitir pra si mesmo.

“O ser humano tem vivido neste estado artificial sem nem se dar conta de que rompeu com sua essência.”

Acontece que ao usar a máscara com o objetivo de forçar o outro a nos amar, pode acontecer desse amor tão almejado não chegar. E quando isso acontece, inevitavelmente entramos em contato com a nossa natureza inferior, revelando nossa agressividade, insegurança e uma série de diferentes mecanismos que nos levam ao sofrimento, porque não tivemos nossas expectativas atendidas. Para agravar ainda mais o quadro, é bom saber que todo esse mecanismo se tornou inconsciente para nós. O ser humano tem vivido neste estado artificial sem nem se dar conta de que rompeu com sua essência.

Em linhas gerais, essa se tornou a raiz do funcionamento da nossa sociedade. Por isso eu repito: precisamos que o processo de educação contemple não só o conhecimento secular, mas também a possibilidade da lembrança de si mesmo, desde cedo. Mas como fazer para desprogramar todo esse mecanismo? Como resgatar a nossa espontaneidade e a nossa essência para podermos estar mais íntegros na educação de nossas crianças?

Percebam que a situação é complexa e a verdade é que nós não temos uma resposta para essa questão da educação. Se você não encontrou o caminho dentro de você, como vai ensinar o caminho ao outro? Nós estamos falando aqui de sermos autênticos, de irmos além das máscaras. Estamos falando de espontaneidade, de naturalidade, de poder comer quando temos fome, dormir quando temos sono, chorar quando temos vontade de chorar, rir quando temos vontade de rir. Mas se você quando tem vontade de chorar finge um sorriso, quando tem vontade de rir se contém, se segura, como pode ser uma ponte para a espontaneidade da criança? Nós estamos falando de um sistema que está tremendamente corrompido, porque a sociedade, de uma forma geral, se distanciou demais de si mesma, se distanciou demais da naturalidade.

Eu sinto que antes de mais nada, temos que erradicar a ideia de que temos condições de ajudar as crianças, porque isso nos coloca em um degrau acima. Estimula a identificação com a máscara do papel do “ajudador”, daquele que está acima da criança e às vezes acontece o contrário, é a criança quem pode ajudar o adulto. Por isso mesmo, insisto que um bom começo seria que pais e facilitadores do processo de educação pudessem olhar pra dentro de si em busca de resgatarem a própria essência.

Outra prática que considero muito importante é oferecermos espaço para a criança revelar o que ela tem a oferecer. Muitas vezes, em casa ou na escola, a criança não tem a chance de se expressar como precisa, especialmente no que diz respeito a sentimentos oriundos da natureza sombria. Criança tem raiva, tem inveja, tem culpa e não sabe lidar com essas coisas. Se não puder elaborar seus sentimentos, acaba reprimindo-os e criando todo esse mecanismo destrutivo que já mencionei.

Em resumo, se o que pretendemos é uma mudança de cultura, se o que pretendemos é ancorar uma nova consciência, criar um mundo onde haja respeito, amor, paz e prosperidade, nós temos que realmente ressignificar todo esse caminho que faz com que uma criança se desenvolva. Afinal de contas, a criança aprende através do exemplo e se queremos uma sociedade amorosa, só nos cabe dar exemplos de amor.

 

*Prem Baba é um mestre espiritual nascido no Brasil, há 50 anos, em São Paulo (SP). Batizado na igreja católica como Janderson Fernandes, filho de uma família de classe média/baixa paulistana. Reconhecido aos 36 anos por seu guru, Maharaj Ji, na Índia, como mestre da ancestral linhagem Sachcha, Prem Baba tem atualmente milhares de discípulos espalhados por vários países.

www.sriprembaba.org

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