Por que um ano sabático?

Por Lara Lobo*

Muitas pessoas me perguntam por que decidi tirar um ano sabático. Muitas não conseguem entender que um ano sabático não são férias prolongadas.

Férias prolongadas são maravilhosas para descansar, sair da rotina estressante do dia a dia, conhecer lugares diferentes, viajar para outros países, entrar em contato com outras culturas, ter mais tempo para desfrutar a família e os amigos, cozinhar mais em casa, entre outras tantas atividades relaxantes.

Acontece que, quando se aproxima o final do período de férias, muitas pessoas começam a sentir que a volta ao trabalho lhes levará à mesma rotina anterior; que voltarão para seus espaços de trabalho e nada haverá mudado. Nem o ambiente nem elas mesmas. Voltarão mais descansadas e relaxadas, mas, normalmente, com similares preocupações, medos e insatisfações. Em poucos dias, tudo será exatamente como era antes do período de férias. E logo virá o desejo de que chegue a próxima folga.

Quando alguém decide tirar um ano (ou mais) sabático, os objetivos coincidem com os das férias, mas há um elemento adicional: há uma consciente decisão de olhar mais pra dentro, de se reencontrar com seus talentos, dons, paixões. Há uma consciente necessidade de mudança; cambio de dentro para fora. O ano sabático é um período de reconexão com os propósitos de vida mais elevados de um indivíduo.

Na origem, a palavra sabático (do hebraico shabat, repouso) significa o período de descanso da terra, segundo a tradição judaica. Depois de cada seis anos sendo cultivada, a terra necessita um ano de descanso. Assim também convém aos homens, a cada seis dias de trabalho, um de relaxamento (para os judeus, os sábados).

Temos, todos nós seres humanos, necessidade de nos renovar. E renovação exige introspecção, calma, novos ares, novos horizontes. Muitas vezes, para que essa mirada interior seja mais completa, é importante distaciar-se inclusive fisicamente de seu lugar de origem, de sua zona de conforto. Estar em um ambiente completamente desconhecido possibilita um olhar virgem para tudo o que surgir, para os aprendizados que se apresentarem; abre-se terreno fértil para a criatividade, para a expressão de talentos guardados ou até desconhecidos. Abre-se um canal de comunicação direta com a nossa essência, com a nossa alma.

Muitos decidem tirar um ano sabático para aprender novas línguas; outros, para viajar pelo mundo e descobrir novas formas de viver; alguns, para testar novas habilidades profissionais; outros ainda, para aventurar-se em jornadas espirituais. São muitos os propósitos individuais que inspiram a necessidade de se presentear com esse tempo de recolhimento.

Os resultados são seres humanos transformados. Mesmo que se retorne ao trabalho anterior, o olhar e o sentir já não serão os mesmos. O aporte dessa pessoa, depois da experiência sabática, será, certamente, mais rico, mais profundo, mais consciente.

Estou há pouco mais de um mês vivendo o meu período sabático. Iniciei essa experiência em Brisbane, na Austrália, onde atualmente moro com meu esposo. Ainda não sei quais serão os próximos passos e os próximos destinos dessa aventura, mas algo já posso dizer: não sou a mesma que chegou aqui no dia 1º de outubro de 2017.

Sinto-me mais livre, mais em paz, mais criativa, mais atenta a detalhes simples e a fatos aparentemente sem relevância, mais consciente do meu corpo e do ambiente que me circunda. Tenho escutado com mais atenção ao meu eu superior, à minha intuição. Expresso gratidão com mais frequência, leio e escrevo mais. Estudo temas pelos quais nutro curiosidade. Dedico mais tempo aos meus amigos e a pessoas queridas, mesmo que virtualmente. Vivo o presente sem tanta ansiedade pelo que virá. Sinto-me cada vez mais conectada à minha essência, a quem sou de verdade. Sei que a expressão do meu espírito é luz e amor, e o meu propósito nesta existência é o de servir.

Que este tempo que me espera me ensine, diariamente, a melhor forma de cuidar, empaticamente, dos desafios que assolam a minha e a nossa humanidade.

*Lara Lobo, diplomata em licença, vivendo um ano sabático na Austrália.
Coach Ontológica em formação, escritora, professora de Yoga e apaixonada por desenvolvimento humano.
Instagram: @laralobom

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