Pontes a serem atravessadas

Por Gloria Arieira via Vidya Mandir*

Photo by Jake Melara on Unsplash

Ao longo de nossa vida temos pontes a atravessar, mudanças a fazer, aprendizados a concluir.

Brahman é um e imutável. Nada faz. Mas através de Maya Shakti manifesta o universo em toda a sua beleza e ordem lógica, inteligente, em pequenos detalhes e mantendo tudo coeso, em funcionamento.

Uma ordem, um padrão através do qual podemos analisar o universo é a dos gunas. Os três gunas – sattva, rajas e tamas – compõem: conhecimento, movimento e estática (ausência de conhecimento e movimento). Os três são importantes e sempre presentes no universo. Outra estrutura constante é a forma física do corpo e do universo, a forma sutil, que é o mental-intelectual, e a forma do não manifesto, que se manifesta em físico e sutil constantemente. Quantas coisas são ocultas e se manifestam; outras tantas que estão manifestas desaparecem. Como o dia que desaparece, dando lugar à noite. Como o desejo que se aquieta. No corpo falamos em vata, pitta e kapha. Na mente são muitas as expressões: a clareza, o desejo, a alegria, a raiva, o cansaço, o sono. E tudo isso em constante movimento! E, na vida de cada um de nós, existem pontes a serem atravessadas, aprendizados que devem ser feitos nas várias fases da vida. Que é outra ordem que estrutura o universo, a vida humana. As fases são mencionadas nos Vedas como: de estudante, casado, aposentado e renunciante. Em cada fase existe um propósito específico, mas em todas permeia o propósito de alcançar a maturidade para o autoconhecimento e a entrega a este – o propósito mais significativo de toda a vida.

O Sama Veda possui um lindo e significativo texto.

Setun tara. Dustaran.
Akrodhena krodham tara.
Shraddhaya ashraddham tara.
Danena adanam tara.
Satyena anrtam tara.
Esha gatih. Etad amrtam. Iti Sama-vedah.

Atravesse as pontes. São difíceis de serem atravessadas.
Atravesse a raiva com a ausência da raiva, sem ter raiva porque teve raiva.
Atravesse a ausência de confiança com a tentativa de confiar, dando uma chance.
Atravesse a incapacidade de dar, de oferecer, doar, através da tentativa de dar, do exercício de doar.
Atravesse o falso trazendo a verdade, a transparência, a clareza.
Esse é o caminho. Isso é a imortalidade (o caminho para descobrir a imortalidade). Sama Veda.

Nossas pontes são sempre difíceis de serem atravessadas. As pontes dos outros parecem fáceis para nós!

Para atravessar nossas pontes temos que descobrir quais são elas. Nossas pontes são difíceis de serem atravessadas e, também, de serem reconhecidas. Elas estão escondidas para nós, fazem parte de nossa personalidade e as identificamos como parte de nós; por isso não conseguimos ver como objeto, como não-eu, para ser possível atravessá-las. Fazem parte de um lado oculto, escuro, não visível para nós. Esse oculto pode ser comparado ao mundo oculto das cobras, debaixo da terra, onde estão invisíveis, mas de onde saem, vêm à tona. E a cobra é comparada, na tradição védica, ao ahamkara, o ego, com suas ilusões. A águia dourada, Garuda, comparada ao conhecimento, à clareza, ataca a cobra, mas depois a solta, deixa livre.

Na história de nagas e Garuda, temos o sábio Kashyapa casado com duas esposas: Kadru, mãe de 1.000 cobras, e Vinita, mãe somente de Garuda. As cobras e sua mãe enganam a mãe de Garuda para servi-los. Mas Garuda, depois de uma longa história, liberta sua mãe da maldição das cobras, naga-dosha, conseguindo o néctar da imortalidade, amrtam, de Vishnu. Garuda por fim perdoa as cobras, pois são seus irmãos.

Cobras vivem embaixo da terra, em buracos, e cuidam, com apego, da área onde habitam. Elas aparecem enroladas no pescoço e no corpo de Shiva, simbolizando o ego, a personalidade, que para Shiva é somente uma decoração, um ornamento. Elas também representam o samsara, os ciclos sem fim de nascimentos e mortes dos seres vivos, pois as cobras trocam de pele e continuam sua vida.

A clareza de conhecimento pode destruir o ego, que é o eu ilusório, mas trazê-lo depois à vida de forma livre, livre de ilusão. O ego retorna em sua beleza, por ser único e original, porém agora sem a ilusão de considerar-se perfeito. Assume sua forma, sem a ilusão de ser ela a realidade do Eu.

Com o conhecimento de Brahman, entendemos a forma do ego – com gunas, belezas e feiuras, dinâmico, em transformação, com todos os doshas, os defeitos de limitação – e podemos então acolhê-lo como é, com suas imperfeições.

As pontes a serem atravessadas são aquelas que nos cegam e aprisionam à personalidade, ao ego. Ao atravessá-las, podemos ser como somos, com expressões diferentes, mas sempre plenos, satisfeitos pelo completo e eterno que somos.

Om tat sat
Gloria Arieira

*Gloria Arieira é uma da grandes estudiosas do Vedanta. Sua escola – Vidya Mandir – ficar no Rio de Janeiro. Saiba mais sobre ela, seus cursos e ensinamentos no site Vidya Mandir ou pelo Instagram. Ah, também tem podcast no Spotify, veja aqui.

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