A escolha pelo parto em casa

Por Paula Gama

Minha avó materna pariu treze filhos na região da roça de Paraty. Não perdeu nenhum, todos nasceram saudáveis e ela só veio a falecer ano passado, aos cento e três anos, em casa, durante uma soneca. Por isso, quando engravidei da minha primeira filha há oito anos e o assunto do parto surgiu, nem titubeei: meu parto deveria ser normal, o mais natural possível, afinal parir não devia ser nada demais.

O médico que nos acompanhou na época não bancava o parto em casa apesar de ser um grande favorecedor do parto natural; que nada mais é do que o parto normal, vaginal, mas sem interferências medicamentosas.

Fomos então pra uma maternidade centenária paulistana realizar o parto natural. Foi tudo bem, considerando que o que estávamos fazendo parecia um ritual extraterrestre pros funcionários daquela instituição. Nunca vi lugar onde menos se compreendia a atmosfera de um parto como lá.

Ter vivido essa experiência pra lá de impressionante (mesmo tendo sido várias vezes truncada e interrompida pelos protocolos e tropeços da equipe da maternidade), me fez cada vez mais mergulhar em leituras e informações sobre o que é o fenômeno do parto. Uso a palavra fenômeno pois este meu primeiro parto havia sido o que eu poderia chamar de a experiência mais profunda, espiritual, transcendental e transformadora da minha vida. Foi a ocasião onde mais me senti próxima do completo aniquilamento do meu ego e da minha consciência. Onde o nível de entrega ao momento presente alcançou seu pico mais extremo em toda minha vida e onde senti mais vívida do que nunca a força de um animal cuja energia me invadiu bem no momento da última contração antes de minha pequena sair do meu corpo (naquele momento entendi o que os xamânicos chamam de animal de poder). Minha mente jamais esteve por tanto tempo em um lugar de tamanha ausência de pensamento. Enfim, nada pareceu tão real na minha vida quanto este parto.

Depois desse evento, pra mim tudo era possível. Descobri uma força em mim e incorporei uma sensação de poder pessoal como nunca havia antes. Sem anestesiar nada, eu havia experimentado sem reservas esse lugar em que se tem que se permitir a entrega ao medo da própria morte.

partoemcasa2Quando engravidei do meu segundo filho daí sim não tive dúvidas: o parto seria em casa, a não ser que existisse uma circunstância de absoluta necessidade de remoção para um hospital. Mudamos de médico e me aproximei ainda mais dos defensores do parto como um evento orgânico e natural, passível de ser vivido por qualquer mulher suficientemente saudável. Eu queria experimentar de novo essa coisa tão intensa e reveladora que é o parto, mas agora  cercada apenas por pessoas que eu escolhesse e num ambiente privado e protegido: minha casa.

Num evento tão único como o parto, nada melhor do que se sentir preservada, respeitada, cuidada e não invadida. Ajuda muito a não interromper o foco que é preciso pra que tudo flua harmonicamente. E assim exatamente foi o segundo parto. Sem interferências, respeitado, suave, perfeitamente amparado por uma equipe que sabia muito bem de que tipo de evento estava participando.

E a casa fica mágica: um ambiente de cerimônia espiritual durante e após um parto. Parece o dia seguinte à ceia de natal, quando você encontra aquele presente tão desejado embaixo da árvore de natal. Parece aquele pós sauna xamânica, em que o silêncio interno se expande pelo ambiente e não somos mais do que pura sensação do espaço. Parece sair de dias de retiro de meditação e ir tomar um lanche na padaria e perceber aquela padaria como o lugar mais inédito do planeta.

O bebê num parto domiciliar nunca deixa o colo da mãe e não precisa ser furado, remexido, observado, separado. Ele simplesmente fica. No colo de quem ele esteve mais próximo nos últimos nove meses. Ele mama logo depois que sai do corpo da mãe. Ele é recebido sem luzes e sons invasivos, sem presenças estranhas à mãe. Ele tem na sua chegada o mais perfeito cenário: um ambiente íntimo. De novo, não há intromissões. A mãe ainda pode tomar aquela canja que foi preparada especialmente pra este evento e repor as energias. Depois, mãe e bebê dormem juntinhos e começam assim esse novo momento de vida.

Meu terceiro parto não poderia ser diferente. Em casa! Que bom que a natureza do meu corpo me permitiu ter o privilégio de mais uma vez ser capaz de dar à luz de forma tão simples e orgânica, como eu acredito que deva ser. E a avó, que fez isso treze vezes no meio da roça me serve como musa inspiradora e reforçadora da crença de que parir não é nada demais…é simplesmente demais!

4 Comentários

  1. Assisti o belo documentário “O renascimento do parto” e realmente é um absurdo como hoje temos uma verdeira ‘indústria da cesárea’. O parto transformou-se em apenas mais uma operação entre muitas para os médicos tradicionais. Muitas mulheres perdem a oportunidade de estarem conscientes e plenas na hora do parto. Talvez um dos únicos motivos que podem levar uma mulher a escolher a cesariana hoje seja a dor (que deve ser intensa) no momento de parir. Dificilmente o bebê não pode nascer de parto normal, como vemos claramente no filme. Parabéns pelo site! Fernando do Valle

  2. Concordo com Paula Gama e acho que fez uma escolha certa – hoje, estranhamente, a gente tem de dizer, também, corajosa! Os médicos não se predispoem a ficar à disposição (as vezes horas – minha mãe levou 12horas para me ter!), do processo natural e desistimulam as parturientes a ter parto natural. Isso no Braisl né? Lá fora no primeiro mundo (ex US), os partos naturais são a maioria. Até aí a classe médica brasileira mostra sua mesquinhez. Parabéns Paula, pela coragem, experiência e compartilhamento textual. Obrigada!

  3. Fernando e Saly, o importante é sempre estarmos atentos, não é? Acreditamos que a escolha consciente é sempre a que nos conduz melhor. Sejam sempre bem-vindos em nossas páginas!

  4. Tive 3 parto normal mesmo,mas si soubesse que no futuro ia ter poblema perinio,teria escolhido cesária.

Deixe uma resposta

Por uma vida mais consciente

Você quer receber as novidades e promoções do Nowmastê no seu e-mail?