Parem de romantizar a zona do desconforto

Por Dulcinéia Sañtos*

Foto de Erik Ward/Unsplash

Você conhece a zona de conforto? Eu não.

É uma coisa que estão falando tanto que acho que é algo com que todo mundo está familiarizado, mas eu descobri que eu não conheço.

Minha família era pobre. Eu passei fome. Meu pai era alcóolatra e batia na minha mãe (que aliás, nunca quis ser mãe). Quando eu tinha 9 anos eles se separaram. Eu e minha irmã ficamos de lá pra cá, e depois fomos viver com a nova família que meu pai tinha formado. Aos 17 anos, quando eles se separaram, meu pai sumiu. Vendi os móveis de casa, comprei uma passagem pra São Paulo e fui morar com a minha mãe, com quem eu não tinha contato há 6 anos. Durou 6 meses. Morei na casa de um, na de outro, até que consegui alugar outra casa e levar minha irmã pra morar comigo. Eu tinha 18 anos, cuidando de outra criança de 16.

Quando ela se casou, voltei a morar com a minha mãe. Dessa vez durou menos ainda. Morei de novo na casa dos outros, até que consegui me sustentar. E ai de mim se ficasse sem emprego, se fizesse alguma besteira que normalmente passaria batido pra minha idade. Enquanto isso, arrumava um namorado problema atrás do outro.

Até que, aos 36 anos, resolvi largar tudo e vir morar na Suíça, com uma pessoa que eu só tinha visto pessoalmente duas vezes. De gerente de uma empresa de consultoria, passei a dar faxina. Voltei a estudar. Quando a relação não deu certo, voltei pra São Paulo e aproveitei a oportunidade para voltar pro mundo corporativo e acertar minha vida financeira, já que eu devia pra todo mundo.

Depois, com alguma ajuda, voltei pra Suíça. Faxina de novo, morando num quarto que só cabia uma cama, uma mesa e um guarda-roupas de duas portas.

Aos 42 anos conheci uma pessoa e me casei. Felizmente vivemos uma vida confortável, mas aí começou o outro round:a carreira. Todo santo dia é: “o que eu vou postar? como conseguir mais clientes? como eu posso vencer sem criar uma personagem?  o que eu posso fazer diferente?”. A evolução: “como posso servir melhor? o que eu tenho que aprender hoje pra ter mais sucesso? como ser uma pessoa melhor?”

Este ano, escrevi um livro. Como vender o livro, se eu gravei um vídeo de 18 minutos outro dia, que teve três visualizações?  Três, e não é figura de linguagem. E todo marketeiro que eu contrato quer inventar uma estratégia nova, uma pessoa nova.

Então, quando alguém diz: “você precisa sair da sua zona de conforto” eu tenho vontade de gritar. Sério.

Não sei quem de nós está vivendo na zona de conforto. Todo mundo que eu conheço está lutando com suas limitações, com suas sombras, com seus demônios, com sua evolução pessoal. Alguns numa situação um pouco mais confortável, aparentemente têm mais opção de escolha, mas essa possibilidade de escolha também é a dor de muita gente.

Então, pare de julgar o que é confortável para os outros.

Pare de fazer com que os outros se sintam mal quando as coisas estão andando de um jeito fácil.

Pare de romantizar este lugar inalcançavel, onde não ter conforto é uma coisa boa.

Pare de falar sobre sair da zona de conforto.

E, sobretudo, pare de fingir que você já conseguiu.

Obs.: Para adquirir meu livro “A Namorada do Dom”, onde conto sobre as lições que aprendi com os meus relacionamentos, mande uma mensagem para @dulcineia.curadeamor

*Dulcinéia Sañtos é autora do livro “A Namorada do Dom“, onde conta sobre as lições que aprendeu com seus relacionamentos e como, através deles, foi parar do outro lado do mundo. É também terapeuta multidimensional, life coach e praticante certificada da ferramenta MBTI® de tipos psicológicos. Acredita que se não aprendemos as lições da vida não passamos pro próximo nível do jogo. Saiu de casa cedo e foi morar no mundo – agora está na Suíça, onde estudou Antroposofia por três anos. Gosta de tomar cerveja no boteco enquanto papeia, de aconselhar, da língua portuguesa, de cozinhar, de ficar só e de flexibilidade de horários. É esotérica, mas acha que estamos encarnados pra viver as experiências terrenas com o pé no chão – de preferência dançando. Seu livro pode ser adquirido por email ou pela Amazon.

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