Paraty Yoga Festival traz ao Brasil a estudiosa do Yoga Tântrico da Caxemira Mariette Raina

Paraty Yoga Festival chega a sua terceira edição e promete mais uma vez ser uma experiência para todos os sentidos!

Yoga, dança, meditação, respiração, cura, música, palestras, artes-plásticas, o Festival oferece um espaço de transformação através da exploração interior, da conexão e da comunidade. “É um lugar para aguçar criatividade, o espírito ativo e também a serenidade e auto-reflexão.” explica Claire Ducry, idealizadora do evento.

Nesta edição, que vai de 30 de maio a 2 de junho, serão mais de 60 professores nacionais e internacionais, entre eles a francesa Mariette Raina, que há mais de 10 anos se dedica a prática e aos estudos do Yoga Tântrico da Caxemira, uma tradição das mais antigas e respeitadas no Yoga. Atualmente, ela trabalha em uma coletânea de ensaios sobre temas relacionados à metafísica dos tantras e da cultura indiana. Aborda temas como yoginis, sadhus ou o lugar da arte na jornada espiritual.

Aqui um papo com Mariette Raina (versão original em francês foi publicada no YOGASTYLE, Santiago – Chile/2018).

Como você chegou ou qual foi o caminho que a conduziu na direção do Yoga Tântrico da Caxemira?

Mariette – Sob o aspecto externo pode-se dizer que são os elementos da vida que nos trazem até aqui, onde estamos no momento em que falamos. Foi através da escultura, da pintura, do teatro e da dança, que eu, a princípio, muito nova, ouvi falar do olhar, da observação, do silêncio e do sentir.

Depois, minha mãe teve uma influência importante. Eu a observava percorrer o seu caminho interior, começando pela psicanálise, depois o xamanismo, o yoga e, mais tarde, a abordagem da tradição do Tantra da Caxemira.

Os livros de Éric Baret circulavam pela biblioteca; nesta época eu estava com 17 anos. Aos 21 anos eu fui viver em Montreal, para iniciar os meus estudos. E encontrei Éric. Sua presença dentro daquilo que há de mais simples, silencioso, incisivo e penetrante, ao mesmo tempo, foi um choque.

Comecei a praticar yoga, a frequentar seus seminários; depois me tornei assistente nos seus cursos.

Esta abordagem que permeia todos os espaços da vida, era completa; ela tocava o coração das coisas. Desde os primeiros encontros, ficou evidente para mim que este seria o caminho com o qual eu iria ressoar ao longo da vida.

Num plano interno, não há uma causa com efeito, nada me guiou a este caminho. Não é pessoal. Não se trata de um encontro com uma tradição; trata-se de um encontro consigo mesmo (a), cuja abordagem se faz através de uma tradição ou outra.

No fim das contas, se tivesse sido o sufismo ou o tricô, teria sido a mesma coisa. Não foi a tradição que me tocou primeiramente, mas este questionamento do SER e a investigação da realidade, no que ela tem de mais honesto e integrado, em todos os espaços da vida.

Em seguida, o silêncio inexplicável, que vai além dos nomes e da conceitualização.

Eu não penso que o enfoque caxemiriano seja mais profundo que outra mística, é apenas uma embalagem cultural tal qual se apresenta, diferente para cada tradição. Mas, na base, todos tratam deste retorno a si mesmo.

Quais são os fundamentos, os princípios e a filosofia sobre os quais este yoga está baseado?

Mariette – O único fundamento é a ESCUTA. Um olhar claro e direto da realidade. Ver o que é, sem o movimento de intervir. Deixar a percepção se desdobrar. Isto quer dizer me dar conta de minhas reações, meus medos, projeções e compensações.

Ver quanto tempo da nossa vida gastamos nos justificando, nos defendendo e calculando o que vamos ganhar ou perder face a uma situação. Ver o quanto nós seguimos este ou naquele caminhar espiritual, dizendo, que ele talvez vá, enfim, nos fazer feliz.

Espera-se, todo o tempo, fugir do que se sente, evitar a realidade, enquanto que tudo se encontra lá. Portanto, esta abordagem é assim simples: um retorno à presença, não como eu a imagino, mas como ela existe, aqui, neste momento.

Esta abordagem é ausente de esperança, ela não vai em direção à algo, ela não faz promessas. Ela volta àquilo que é essencial.

Quais são as diferenças fundamentais entre este yoga e o habitual, que nós praticamos no Ocidente?

Mariette – No plano concreto da prática, a maneira como trabalhamos não se foca na postura e ainda menos no desempenho. Não há nada a alcançar, porque perfazer uma postura de yoga nunca faz alguém feliz a longo prazo. Isso nunca nos ajuda a sermos livres de nós mesmos, ou não nos impede de reagir quando a nossa mãe nos critica ou quando o nosso amante nos deixa. Se fosse assim, todos os ginastas e contorcionistas seriam felizes, o que não é o caso.

Pois no nosso enfoque do trabalho dos asanas, não enfatizamos a postura, mas sim, o seu desdobramento no sentir; como eu vou até a postura, como eu a vivencio, como eu volto dela. É aí que eu vou descobrir as compensações, as esperanças, as patologias, e é por esta observação que a tranquilidade, não ligada a um objeto, vai se instalar em mim.

Os asanas são similares nos dois yogas? Existem diferenças nas suas execuções? Quais? Como se trabalhar com os pranayamas, a meditação, etc?

Mariette – É idêntico, porque temos todos o mesmo corpo e, então, um número limitado de posturas. Quando você observar bem, vai ver que somente há algumas posturas principais importantes; e o resto das proposições são suas variantes, ou a mesma postura repetida desde um outro ângulo ou numa outra direção (deitada, em pé, sobre a cabeça etc.).

Dentro desta visão caxemiriana, existem alguns detalhes importantes que caracterizam esta prática, se se pode dizer. As mãos em repouso, por exemplo, estão sempre com as palmas voltadas para o solo, e nunca para ar, como em Shavasana.

Ou ainda, não trabalhamos com a musculatura das costas, a gente sempre diz que “não há costas no yoga”. O contato com o solo é uma exploração importante na nossa prática, nós nunca pressionamos o solo, nós o ultrapassamos, nós o atravessamos em todas as posturas. Portanto, as variantes estão nos detalhes, mais do que nas posturas propriamente ditas.

Acontece o mesmo com os pranayamas. Para citar outro exemplo, durante muitos anos, Kapalabhati é trabalhado com o baixo ventre, três dedos abaixo do umbigo, e não com o diafragma, a fim de se evitar traumatizar ainda mais esta zona extremamente sensível.

Quanto à meditação, ela se integra no espaço da escuta, entre as posturas, ou ao fim da prática – é um “deixar viver”, “deixar ressoar” o que acontece comigo, deixar a percepção se dilatar, e não impor ao mental de não pensar, ou de ser mais isso ou menos aquilo. Mais uma vez voltamos ao nosso princípio fundamental: a ESCUTA.

Este yoga não inventa nada, ele é um eco das práticas tradicionais que existem há milênios, quer dizer, as práticas que apontam para a dissolução de SI.

Observe a prática do sabre(um tipo de espada), por exemplo, aquele das artes marciais, ou, ainda, a arte da caligrafia. Não se aprende a fazer, mas a desfazer. Procura-se o movimento depurado, orgânico, que reencontra a globalidade. Para o yoga é a mesma linha de exploração. O que eu posso soltar, no corpo, que é inútil para o asana que eu exploro: uma nuca comprimida, uma mão afetada, uma tensão no dedo do pé, uma nádega contraída? Procura-se o retorno à globalidade, dentro da qual o corpo será livre para se posicionar organicamente.

Não se aprende o asana – é preciso deixá-lo emergir, tal como ele existe por trás das minhas compensações, a partir do momento em que eu paro de ir em sua direção e que, ao contrário, eu o deixo vir a mim.

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