Lendo agora
Para onde vamos com tanta pressa?

Para onde vamos com tanta pressa?

Monika von Koss

Por Monika von Koss*

Todo mundo tem pressa hoje em dia, apesar do ditado popular nos advertir de que “a pressa é inimiga da perfeição”. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas quando alguém me diz que deseja chegar rapidamente a resultados, sempre me lembro do poeta grego Konstantínos Kaváfis e seu maravilhoso poema Ítaca, inspirado no épico sumério que relata a viagem de Gilgamesh em busca da erva da imortalidade:

“Se partires um dia rumo a Ítaca, / faz votos de que o caminho seja longo / repleto de aventuras, repleto de saber / … / Mas não apresses a viagem nunca / Melhor muitos anos levares de jornada / e fundeares na ilha velho enfim, / rico de quanto ganhantes no caminho / sem esperar riquezas que Ítaca te desse.” 

Porque temos pressa? Aonde queremos chegar? Às vezes tenho a impressão de que as pessoas querem é escapar de onde estão, deixar para trás uma situação desconfortável e não ter que lidar com ela. E aí me lembro de minha temporada na comunidade espiritual de Findhorn/Newbold House nos idos de 1990. Todo dia havia um horário para a meditação coletiva e aos sábados, ela era realizada por meio do canto. Uma canção em especial me ficou gravada. Sua letra dizia: “Estamos em uma viagem sem fim pela eternidade, apenas se aquiete, não há outro lugar para ir.”

Não ter lugar para onde ir, aquietar-me ali mesmo onde me encontrava, trazia um sentimento de muito conforto, de muita tranquilidade. Claro que isto significava que eu teria que lidar com o que estivesse acontecendo naquele exato momento e posso assegurar que isto nem sempre foi fácil. Mas foi uma experiência que me trouxe uma riqueza interior verdadeira, aquela que se acumula como consciência no âmago do ser. Aquela que nos leva para mais perto de quem somos verdadeiramente.

Ultimamente têm-se falado muito do ‘poder do agora’. Mas o tema não é novo; a Gestalterapia já fala em permanecer no aqui-e-agora há décadas. O mestre sufi Gurdjieff recomendava a seus discípulos que parassem suas atividades várias vezes ao dia, para se lembrarem de quem são. Fazer-se presente em cada instante é um exercício que demanda disponibilidade para acolher a realidade que se apresenta, seja ela como for, sem entrar em depressão, sem resignar-se, sem raiva ou crítica.

Acolher o momento presente pelo que ele é, o torna uma oportunidade de aprendizagem, uma ocasião para entrar em contato com nossas emoções e experiências mais profundas, mesmo que sejam dolorosas. Toda compreensão sempre vem precedida de uma tensão desprazerosa, tensão esta que é liberada quando surge o reconhecimento, trazendo uma sensação de alívio e uma experiência de prazer pela nossa capacidade de transformar dor em sabedoria.

Mas para isto precisamos de tempo, precisamos nao ter pressa em resolver tudo de imediato, precisamos ser capazes de sustentar um período de tensão, de angústia, de não saber o que fazer. Precisamos rezar para que a nossa viagem pessoal a Ítaca seja longa. Pois assim vamos acumulando experiências, intensificando sabores, densificando e amadurecendo nossa essência no decorrer do tempo.

O momento presente é a única realidade que nos permite fazer isto. Eckhart Tolle afirma em seu livro que ele é a única coisa que existe. “O eterno presente é o espaço dentro do qual se desenvolve toda a nossa vida, o único fator que permanece constante.” O passado passou, o futuro está por vir, mas aquilo que está acontecendo neste exato momento pode acrescentar mais uma pétala à nossa flor, mais uma tonalidade à nossa cor, mais um tom à nossa música pessoal, única e intransferível.

Para utilizarmos o poder do agora, precisamos deixar cada momento presente nos envolver plenamente. Quando estamos presente, temos a possibilidade de agir de maneira eficaz para reformular nosso rumo, para retocar nosso roteiro, para redirecionar nossas emoções, sentimentos e sensações, rever e atualizar nossas crenças e objetivos. Em assim fazendo, estaremos sempre sintonizados com a vida dentro e fora de nós. Então sim podemos dizer que estamos vivendo.

 

MonikaKoss

* Monika é psicoterapeuta de abordagem energética transpessoal, com longa experiência em atendimento clínico, complementou sua graduação em Psicologia com especialização em Psicanálise e diversos estudos adicionais em técnicas corporais e energéticas, Xamanismo e Budismo Tibetano. Suas pesquisas do Feminino e da Deusa resultaram em cursos, workshops e rituais realizados no Espaço Caldeirão, além de textos e livros publicados. Atualmente encontra-se em Formação para Praticante de Fractologia – a Ciência da Cura, ancorando no Brasil o trabalho desenvolvido pela Dra. Catherine Wilkins da Austrália.
www.monikavonkoss.com.br

Veja comentários

Deixe uma resposta

Vá para cima