Os reflexos na sala de prática

Por Aline Micelli*

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Como professora de Yoga uma coisa que me policio muito é para nunca perder o meu olhar como praticante. Essa coisa de se colocar no lugar do outro, é algo pra ser levado ao pé da letra dentro de uma sala de prática. Quando eu toco em alguém pra corrigir uma postura tento inclusive acompanhar a respiração daquela pessoa. Formando assim um elo para que possa realmente fazer diferença não apenas física para alguém. Quero que meus alunos e alunas me sintam perto.

Quando comecei a praticar lembro como era importante esse apoio. Não era tão necessário que o professor tivesse o melhor ajuste do mundo, aquele que me fizesse colocar a mão no lugar certo. Era o respeito que essa pessoa me transmitia, o modo como ela corrigia alguma coisa, a maneira de passar ensinamentos importantes dentro da prática.

Fui uma aluna feliz, sempre tive a minha disposição excelentes professores e colegas de prática. Dentro do universo do Yoga não sei se é sorte ou coincidência, mas a gente acaba encontrando um monte de gente bacana. Quando mudei de Porto Alegre para o interior de São Paulo e depois para a capital paulista foi muito importante o carinho e apoio que a comunidade de praticantes me deu. Novamente, estava amparada.

Mas, claro, o Yoga como qualquer outro caminho é uma coisa individual que apenas partilhamos pequenas partes com um grupo. Dentro da gente estão fervilhando uma tonelada de processos, ideias, insights, coisas difíceis de serem expostas. Mas, elas vêm à tona durante a convivência e é ai que o Yoga deixa de ser algo individual e forma essa teia nas nossas relações e como agimos quando em interação com elas.

Estudei bastante para ser professora, mas até então ainda não tinha visualizado que tinha chego à posição de realmente me sentir preparada para instruir alguém. Mas, quando queremos ver algo fora, a vida está sempre pronta para nos enviar um reflexo na forma de outra pessoa ou situação. E, foi justamente o que aconteceu, no último sábado percebi que tinha chego minha hora bem no meio da minha aula.

Era um aluno, que como eu no início de 2011, quando voltei a praticar de verdade, estava gordinho. Vestia uma camiseta que, com certeza, cobriria a sua visão e o sufocaria no primeiro cachorro olhando pra baixo, que é uma postura de quatro apoios com o quadril empinado pro teto enquanto a os calcanhares chegam ao chão. E, além de tudo, estava ele de meias! Meias que o faziam escorregar e que junto com o suor provocado pela movimentação do corpo eram um perigo.

A aula era para despertar o fogo interno e todo mundo estava empreendendo um enorme esforço para vencer a letargia de mais um sábado de manhã. Até para mim, que ministrava, demonstrava e ajustava estava bem complicado. Mas meu aluno que era um reflexo do meu próprio ser estava lá, guerreiro, indo em frente. Por um pequeno instante ele parou em Tadasana, em pé e achei que tinha desistido. Não, ele seguiu em frente!

A realidade é que poderia ter ajustado bem mais, falado pra tirar as meias, pego um cinto além dos bloquinhos, feito muita coisa. A abordagem que escolhi foi que ele pudesse perceber o que estava acontecendo. O máximo que fiz foi chegar próximo a ele numa outra sequência de ásanas mais complicada e falar que estava ótimo. E, foi no momento certo.

“Está ótimo”. Foi só isso. Usado no momento certo, quando a perna estava numa altura certa, a respiração parecia que ia parar e o coração saltar pela boca. Vi diante dos meus olhos um milagre. Ele nascendo como um Yogi, porque fez o resto da prática inteira com uma super motivação (mesmo com meias) e eu como professora. A palavra união novamente mostrando sua força.

Ninguém nasce como nada nesse mundo se não através do olhar, ou seja, do apoio do outro.

NOWmastê!

Foto: Parmatma Cris, professora do Yoga Flow

*Aline é jornalista formada pela PUCRS, professora de Yoga há mais de 10 anos, com formações em Hatha Yoga e há dois anos formada pela professora Micheline Berry em Vinyasa Flow Yoga. Cozinheira, taróloga, fla menca e apreciadora da humanidade. Tem também um blog no qual divide suas histórias lúdicas, escritos pelo seu lado mais selvagem, chamado Lili e o Mundo.

2 Comentários

  1. Maria Cristina Barbosa diz:

    Adorei sua fala Aline querida…este é mesmo o caminho querida…olha meu amor…dou aula ha quase 20 anos, tenho 50 e esta é minha postura sempre…o acolhimento, o estar junto, disponível, perto…a prática é algo que o aluno constrói com toda sua individualidade que pode vir com vários medos e nosso papel, neste momento, é ser “apenas” o outro ele…como um real e verdadeiro Namaste <3 ! lindo caminhar bjos

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