Os 84 asanas do Yoga

Por Flavia Venturoli Miranda*, membro do conselho da Aliança do Yoga** 

Yoga Sutra

“O asana é firme e confortável
pelo relaxamento da ação e a meditação no infinito
assim os pares de opostos não ferem”
YS II.46 à 48

Goraksha Shatakam

“Asana, pranasamyama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi são os seis membros do yoga.
Há tantos asanas quanto jivas (viventes) existem. Maheshvara, o grande senhor, conhece todas as suas variedades.
Dos 8.400.000, Shiva estabeleceu que 1.600 devem ser executados.
De todos apenas 2 asanas são particularmente especiais. O primeiro é o siddhasana e o segundo kamalasana.
O yogi sempre destrói as doenças com os asana, os erros com o pranayama e os distúrbios mentais com o pratyahara.”
GoSh 4 à 7, 54

Hatha Pradipika

“Os asanas. Os asanas são tratados em primeiro lugar, e é a primeira parte do hatha. Assim, se deve praticar os asanas, que dão firmeza ao yogi, o mantém saudável e tornam seus membros flexíveis.
Assim, com o asana, o senhor yogi livra-se do cansaço, e é desejoso pela prática de bandha.
O yogi sábio, firme no asana, é comparado a um deva.”
HP I.19, I.57 e IV.72

Gheranda Samhita

“O asana traz fortalecimento.”
GhS I.10

Hatharatnavali

“Asana como o primeiro membro do hatha é narrado aqui por mim. A execução de asana traz estabilidade, saúde e destreza ao corpo.
Vou descrever alguns dos asanas entre os 84. Estes asanas relatados por Adinatha outorgam boa saúde e felicidade.”
HR III.5 e 8

Asana é uma palavra sânscrita que significa assento, trono, parada. Em português, é traduzido como postura. O asana é uma das oito partes descritas por Patañjali, o sábio que sistematizou a filosofia do yoga a mais de 2 mil anos. No sistema de Patañjali, asana é uma das ferramentas externas do yoga, cuja função é apenas parar o corpo, para aquietar a mente. Nesse período, vê-se o corpo como um obstáculo para introspecção e autoconhecimento, já que o objetivo máximo do yoga é a cessão da identificação com a mente (ou seja, com o corpo em todas suas manifestações) para revelar o verdadeiro observador que transcende a mente/corpo

Mais de 1 mil anos depois, o tantra, com outro ponto de vista, sistematiza o hatha yoga. Aqui o corpo é considerado existente e sagrado, apto como instrumento de refinamento e sutilização, para que as habilidades inatas (e esquecidas) da manifestação sejam reveladas, as siddhis (perfeições), buscando a imortalidade e libertação em vida. O asana, ainda que meramente o primeiro dos vários passos para a libertação, ganha relevância pelo fortalecimento e divinização do corpo, que assim não é mais afligido por sofrimentos internos e externos. Com o corpo alquimiado, ou seja, transmutado num corpo divino há estabilidade para a busca principal que é a libertação.

A quietude não é natural ao corpo e nem a mente, já que a matéria e a energia são ativas e tendem ao movimento e a multiplicação. O caminho para se alcançar a estabilidade e domínio do corpo (e mente) é pela ação, treino, prática intensa e contínua, até que a ação não seja mais inconsciente e sim arbitrária. Para trazer conscientes as ações é preciso conhecer suas razões e reações e então se apoderar voluntariamente delas. Portanto, o corpo (e a mente) não reativo, não regido por impulsos, reflexos, pode ser parado. O assentamento permite a meditação e o trabalho profundo do yoga acontece.

Nas escrituras do yoga, o objetivo do asana é a estabilidade, a parada, a imobilidade. Então, por que há tantas variedades e tipos de asanas?

A prática de vários asanas traz saúde, pois combate males físicos (tornando a coluna saudável, as articulações flexíveis, o aprimoramento do sistema circulatório e imunológico, etc.) e mentais (eliminando fadiga mental, desânimo, excitação, hesitação, etc.).

As escrituras enumeram 8.400.000 asanas, ou poeticamente, “os asanas são tantos quantos seres vivem.” Destes 84 são os melhores. Especula-se que esse número imenso de asanas, esteja associado ao número de nascimentos que os seres passam até alcançarem o privilégio de nascerem como humanos, segundo o pensamento indiano. Desse modo o vivente, ao praticar o asana, realiza e incorpora a experiência de todas as vidas passadas, ora transpondo os obstáculos, ora desfrutando de seus prazeres.

A maioria das escrituras explicam apenas poucos asanas, e praticamente todas citam que 2 são os mais importantes: siddhasana e padmasana. Ambos são asanas de meditação (o primeiro essencialmente de meditação e o segundo indicado para os pranayamas). Dentre estes o siddhasana é o melhor. Novamente reforçando que o objetivo dos asanas é principalmente meditar. Por tanto, os demais milhares de asanas servem como preparo para esses dois principais.

*Flavia Venturoli Miranda, membro do conselho da Aliança do Yoga, é formada pelo Curso de Formação de Professores de Yoga Narayana, onde leciona atualmente. Em 2006, recebeu o título de Kushalanayakah (Professor Competente) e o certificado do Curso de Especialização em Yoga pelo Colegiado de Yoga do Brasil Dharmaparishad, do qual foi vice-presidente e onde lecionou vários textos clássicos de Yoga, como Siddha Siddhanta Paddhati (2004), Yoga Yajnavalkya (2005), Yoga Vasishtha (2007). Participou de cursos de Yoga com a família Desikachar (2003 a 2006) workshops com Masterji Viswanatha, Fatherji Joe Pereira (2008, 2009, 2011) e Bholanoth Yogi (2011 e 2012) Em 2006, abriu no Ipiranga sua escola Mahavidya Yoga. É pesquisadora de textos clássicos e das deusas indianas sobre as quais deu uma palestra na III Conferência da Aliança do Yoga (2005). Escreveu alguns livros e fez a tradução da Shiva Samhita no livro “A Escola dos Nathas e as Origens do Hatha Yoga” da Tantrayana Editora.

**Aliança do Yoga é uma organização autônoma que fornece apoio e assessoria a todos os instrutores de Yoga, estabelecendo padrões mínimos de formação profissional e estimulando a educação contínua dos profissionais de Yoga. Aberta a todas as tradições, instituições e organizações, assim como também a profissionais independentes. A Aliança respeita e apoia as diferentes tradições yogues e mantém um registro nacional de instrutores atuantes que aceitam e respeitam os padrões mínimos estabelecidos.

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