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Onde você realmente está agora?

Onde você realmente está agora?

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Por Milca Ribeiro*

Ontem estava no carro, parada no farol, observando uma senhora saindo da padaria carregando, em uma mão, um saco enorme de pães e, na outra, uma sacola que parecia bem pesada. Acompanhei com o olhar o caminhar lento e distraído dela ao sair da padaria em direção a esquina onde eu me encontrava. O farol já estava fechado há um bom tempo. Quem, como eu, estava no carro ou na rua deve ter percebido que ele iria abrir em poucos segundos. Entretanto, a senhora caminhava num ritmo só dela, envolta em seus pães e pensamentos.

Somente quando o farol abriu para os carros parece que ela se deu conta dele. Como se tivesse acordado e num impulso atravessou a rua correndo, desequilibrada pelo peso extra e idade avançada. Quase foi atropelada. Alguns motoristas pararam, outros simplesmente passaram quase que por cima dela. O que leva uma pessoa a arriscar a própria vida simplesmente para atravessar a rua, quando era obvio que não havia urgência nenhuma na ação? Um impulso impensado, automático para aproveitar alguns segundos e chegar mais rápido ao outro lado da calçada? Para que? Ou simplesmente pura falta de consciência, de presença? Por que fazemos isso? Onde estava a atenção desta mulher naquele momento? Onde estava a atenção dos motoristas que passaram o farol mesmo vendo a senhora se aproximar atrapalhadamente?

Tenho reparado bastante nas respostas automáticas das pessoas a situações cotidianas e cada vez fico mais preocupada aonde vamos parar? Onde está nossa presença? Onde estão nossos pensamentos ? Onde realmente estamos a cada momento?

Até mesmo dentro de um espaço dedicado ao bem-estar é impressionante ver o grau de automação das pessoas. Fico pasma ao ver no corredor de uma sala de yoga pessoas tão imersas em seus pensamentos que não conseguem perceber nem o movimento ao seu redor, não conseguem esperar os alunos da aula anterior deixarem a sala, talvez na ânsia de tirar as coisas da frente vão se enfiando na sala no contrafluxo, como se quisessem acabar logo com isso, passar para a próxima tarefa. Desrespeitam os outros alunos e professores sem notar o que estão fazendo e para que? Por que? o que ganham com isso? O mais assustador é que as pessoas não se dão conta de que fazem isto o tempo todo, em diversas situações.

Viver no piloto automático, ou seja, fazer uma ou o pior, várias coisas ao mesmo tempo pensando em outras é um equivoco comum e perigoso. Achamos que estamos sendo super produtivos, fazendo várias coisas ao mesmo tempo, e ainda sendo capaz de pensar em outras tantas, mas no fundo, a função de autopiloto nos torna distraídos, reativos, e até mesmo mais improdutivos. Há vários estudos e pesquisas que confirmam que pessoas que se dedicam com atenção plena a uma tarefa de cada vez, são muito mais eficientes, cometem muito menos erros e no final aproveitam muito melhor o tempo, pois não precisam refazer tarefas com tanta frequência, e como estão realmente focadas conseguem resolver problemas e criar soluções muito mais rápido do que pessoas que vivem constantemente em estado multitarefa.

Falta de consciência, de presença é um dos fatores mais preocupantes da sociedade atual.

Cada um vive imerso na sua bolha mental que distorce o tempo e a realidade de acordo com a situação, com suas emoções e expectativas. A percepção do tempo corresponde ao estado momentâneo da nossa consciência, se estamos presentes e plenamente conscientes, o tempo não existe. Se estamos imersos em pensamentos passados ou futuros viramos escravos do tempo de onde emergem a angustia e a ansiedade e reagimos ao mundo de forma automática sem nos darmos conta das reais consequências disto.

Nós todos temos 24 horas por dia para viver. Como nós enxergamos este tempo e o que fazemos com ele pode fazer uma grande diferença em nossa vida. Nossa percepção pessoal do tempo é incerta, dependendo de nossa condição mental do momento: às vezes sentimos que temos tempo suficiente, que temos tempo sobrando, ou que nunca temos tempo para nada.Precisamos na verdade, olhar para as nossas expectativas em relação a nós mesmos.Precisamos estar conscientes simplesmente do que estamos tentando realizar, e quando pagamos um preço muito alto para isso, precisamos nos perguntar: vale a pena correr tanto? Vale a pena passar a vida apressado, fazer tudo correndo sem saber direito o porquê ? E principalmente, precisamos estar atentos ao nosso estado de presença. Onde realmente estamos a maior parte do dia? Como diria o professor alemão Otto Scharmer, “precisamos prestar atenção onde está a nossa atenção”.

Mas como desligar este piloto-automático? Como tomar consciência de onde realmente estamos e do que estamos fazendo? A prática regular de Mindfulness funciona como um exercício mental de presença. Um treinamento, cada vez que percebemos que a mente começa a vagar, trazemos nossa atenção de novo ao momento presente simplesmente ao levar nossa atenção à respiração, ao corpo, ou à outro ponto aonde escolhemos focar conscientemente nossa atenção.

Quando escolhemos viver no presente executando com atenção plena uma única tarefa por vez o tempo desaparece. Praticando Mindfulness começamos a dominar o tempo e não ao contrário. Se você estiver com pressa, por exemplo, estará consciente da sua pressa, estará atento a ela e assim poderá fazer escolhas baseadas na reflexão e não na reação, e isto faz toda a diferença.

A real consciência do tempo e o estado de presença podem trazer uma transformação realmente significativa em nossas vidas. Praticar Mindfulness é uma simples questão de escolha e treino. É entender que assim como nosso corpo precisa de cuidados, nossa mente também precisa, e este cuidado tem que ser regular e permanente. Praticar, praticar, praticar. É muito simples, vamos começar? Pare por apenas um minuto, feche os olhos, faça uma respiração profunda e reflita, onde você realmente esta agora?

Milca

*Milca Ribeiro, praticante de yoga e meditação desde 2005, professora especializada em Hatha Yoga pela FMU, com aprofundamento em Meditação e Vedanta pelo Instituto Yoga Terapia em Campinas, instrutora Mindfulness pela MTI – Mindfulness Trainings International.

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