Oh, Schumacher College – por Renata Piazzon

Eco-consciousness and the means for effective change.

(Ecoconsciência e os formas efetivas de mudança)

Difícil — muito difícil — resumir a experiência em palavras.

The Old Postern
The Old Postern

Sorrisos e gentilezas vivendo em uma comunidade em que todos fazem tudo: tiram a mesa do café, almoço e jantar e limpam as louças (com a ajuda de uma máquina — a fofucha — que nos deixa com vergonha do quanto desperdiçamos água nesse processo no Brasil), reaproveitam os restos orgânicos para compostagem no super Ridan (e se quiserem ajudar ainda mais usam o incrível “Compost Loo” no meio da mata para as suas necessidades), reciclam tudo, preparam os melhores pães e cookies do mundo, limpam os dormitórios (que, aliás, mais parecem a sua pequena casa cozy em Totnes), cozinham (a cozinha em grupo é um dos momentos mais especiais da experiência, sem falar na comida em si — vegetariana e de babar!) e praticam jardinagem (quase tudo o que comemos vem dos jardins lindos próximos ao College).

Scumacher

E isso tudo rodeado pela natureza, por um rio lindo e congelante (faz parte da experiência entrar na água!), por Yew Trees de até 2.000 anos no Dartington Gardens e por uma trilha especial que leva até Totnes, a cidade que saiu do conto de fadas.

Schumacher
Yew Tree, Dartington Gardens

O ambiente da Schumacher nos convida para a reflexão, para o estudo, para o convívio e para o silêncio e essa forma holística de ensino nos permite pensar, sentir, intuir e experienciar.

Os professores? Deve ter algum processo de seleção secreto em que só entram pessoas com um pacto muito sério com a felicidade, com brilho no olhar, risadas leves e entusiasmo com a vida, além da surreal excelência técnica. É como se o lema fosse: “You are no inspiration to anybody without joy or without loving life”. Ou como o Satish Kumar, diretor fundador da Schumacher, prefere dizer:

“The purpose of life is to enjoy life. Celebrate life!”

Todos parecem ter um objetivo em comum — resgatar a nossa relação com a natureza e nos despertar para uma nova economia: justa, sustentável e em transição.

A agenda para esse resgate foi intensa. Começamos com um estudo sobre “deep ecology” e “gaia theory”, que estuda a relação do homem com o meio ambiente e propõe que o ser humano se questione sobre como vive a sua vida (deep questioning), experencie vivências na natureza (deep experience) e se comprometa a trazer mudanças positivas para o mundo (deep commitment). A aula foi seguida de um deep walking, uma caminhada em um dos lugares mais especiais que já fui a beira mar, em que Stephan Harding, coordenador do Masters em Holistic Science, nos presenteou com um “pocket show” da história do Universo e da Terra até os 4.6 bilhões de anos.

Schumacher
Stephan Harding
Schumacher
Deep walking

Depois de sermos “gaiados” por Stephan, voltamos à Terra para um lado mais prático com Rob Hopkins, que nos apresentou o Transition Towns e o projeto “21 Transition Stories for COP 21”, um movimento em que comunidades se unem para “reimaginar e reconstruir o mundo” por meio de pequenas ações.

Já são 1300 projetos em 50 cidades e tivemos o prazer de conhecer alguns e de estudar quais as características em comum entre eles que permitem com que sejam formados. O Brasil estava lá com o Transition Brasilândia (orgulho!), junto com projetos na Inglaterra, Escócia, Luxemburgo, África do Sul, EUA, País de Gales, França, Espanha, Holanda, Bélgica, Canadá e Portugal.

21 Transition Stories for COP 21, Rob Hopkins
21 Transition Stories for COP 21, Rob Hopkins

Totnes, região em que fica o Schumacher College, me impressionou e tivemos a oportunidade de fazer um “Transitions Tour” pela cidade para conhecer alguns projetos locais. Dentre eles, o Totnes Pounds (a moeda para incentivar a economia local), o ReEconomy (que busca desenvolver projetos de economia verde na região) e a New Lion Brewery (que desenvolve a economia local com cervejas artesanais). Totnes é o “silicon valley das comunidades resilientes”, a verdadeira green city. 🍀

Também aprendemos muito com Tim Crabtree, do Masters em Economics for Transition, sobre a new economic foundation, uma economia em que as pessoas e o planeta importam e que incentiva novos projetos de impacto social e ambiental em pequena escala (“Small is Beautiful”, E.F. Schumacher).

Tim Crabtree
Tim Crabtree

Como se não bastassem as aulas, fomos presenteados todas as manhãs e noites. Nas manhãs, espaço opcional para meditação seguido das “morning meetings”, oportunidade em que todos dividem as suas agendas e oferecem uma prática — uma leitura, uma música, uma dança — para começar bem o dia (deveríamos fazer mais isso!). E para encerrar o dia, palestra sobre Cosmologia, aula na lareira com Mac Mcartney e vivência indígena em fogueira na floresta com direito à roda da gratidão. 🙂 Tudo isso seguido do “The Edge of Chaos”, o famoso bar atrás de uma das salas de aula com cervejas artesanais e vinhos orgânicos.

Aqui, um parênteses: Satish Kumar.

Schumacher

Que exemplo, que homem, que líder, que coração, que presença. Eu nunca havia convivido tão de perto com alguém de tamanha simplicidade, generosidade e entusiasmo. Satish foi “jain monk” aos 9 anos, caminhou pela paz por 2 anos e meio sem nenhum dinheiro no bolso, se dedicou ao movimento do Gandhi pela não violência, é estudante da filosofia budista, seguidor dos ensinamentos do poeta e educador Rabindranath Tagore, editor da Resurgence & Ecologist e fundou duas escolas — The Small School, em Hartland e Schumacher College, em Dartington. 💚

Satish is “clearly a man who has honoured with exemplary courage and imagination the special destiny that brought him into this life”, Lindsay Clarke.

Saio com uma gratidão sem fim pela experiência, com muita vontade de voltar, com muito aprendizado sobre educação e liderança para transição e já com saudades da vivência em comunidade, em que se aprende tanto em tão pouco tempo, dos almoços ao ar livre, da música, das atividades sugeridas na lousa diária, da paz da biblioteca, do nosso sarau brasileiro e da tolerância, respeito, energia e paz que se cultivam naquele espaço.

O que fazer depois dessa imersão? Muitas morning meetings, muita yoga e meditação, mais olho no olho e menos telefone, muita natureza, muito estudo sobre a nova economia, muitas compras em feiras orgânicas e, quem sabe, virar vegetariana. 🙂

Obrigada ao time da Escola Schumacher Brasil por esse lindo projeto e por proporcionar essa ponte tão rica! Obrigada aos meus companheiros de curso e a todos que conheci neste período e que deixaram um pouco de si comigo. E, em especial, à querida Clau do Espaço Zym, pelo mais incrível jantar brasileiro preparado para todos no College.

Schumacher

This is not the end. 🙂

Schumacher

 

Renata Soares Piazzon: "Seja a mudança que você quer ver no mundo.", Gandhi

*Renata é advogada ambiental e apaixonada! Pela vida, por meio ambiente e por pessoas que mudam o mundo. Suas ideias estão no Nowmastê e no blog Caminho Verde.

2 Comentários

  1. oi renata,
    por favor vc poderia me dar informações como qual época foi, que curso fez, quanto tempo, e valores da schumacher college?
    grato,
    adriano.

  2. Olá Adriano! Eu estou fazendo o curso de Liderança para Transição, que acontece 1x ao ano durante 3 meses (começou em setembro) e é coordenado pela Escola Schumacher Brasil. Os valores variam muito conforme o curso que você optar. Vale dar uma olhadinha no site da escola! http://www.escolaschumacherbrasil.com.br

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