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O que você veste?

O que você veste?

Nowmastê

*Angelica Mathias

Angelica Mathias

Estava eu em uma aula de marketing na faculdade onde cursava moda, o professor era excelente, mas não conhecia o que era moda por trás de todo glamour que se via, aquele não era o ramo dele, mas estava empolgado em nos ensinar como vender muito e como economizar no desenvolvimento de uma coleção, quando ele citou que iria trazer uma aluna de uma outra universidade que estava comprando um prédio comercial em SP pois havia conseguido entender como ganhar muito dinheiro exportando peças da China. Conforme nos explicava, observei um brilho surreal nos olhos dos meus amigos de classe, que delícia pagar x em uma peça e vende-la a 20 vezes mais do valor inicial. Isso no atacado, porque para o consumidor final o valor dobraria, e mesmo assim seria viável para todos no fim das contas.

Esse professor foi contando com orgulho dessa aluna, e uma atmosfera de ambição tomou conta da sala, a maioria dos alunos não trabalhavam no ramo, e não entendiam o quanto era cruel aquilo que ele estava falando, talvez nem o professor soubesse…

Eu sempre fui tímida, mas tive que me posicionar naquele momento, não poderia deixar aquilo passar despercebido. Levantei a mão, ainda que meio tremula. E ele:

– Pois não.

– Professor, eu discordo que esse seja um bom negócio.

– Como assim?! (Disse levantando uma das sobrancelhas)

Expliquei então, que na China não existe regulamentação no trabalho como aqui no Brasil, que enquanto trabalhamos 8 horas por dia, 44 horas semanais, lá eles passam mais de 12 horas produzindo, e só vão embora se atingirem a meta, é a chamada “ escravidão moderna”, eles aceitam essa situação pois a miséria é tanta que é melhor pouco a nada. A situação de trabalho é degradante, trabalham no chão sujo, as maquinas com fio desencapados, sem o básico de estrutura para trabalhar, colocando em risco a vida de todos que ali estão, entre muitas outras irregularidades que não dá pra listar em uma página. Tentei falar sobre como a aluna dele financia esse tipo de crueldade, e em como isso afeta a economia do pais, já que produzindo e comprando lá, nosso dinheiro circula fora e de forma indevida, sendo que poderia gerar empregos pra muitos profissionais daqui, como os que estavam em nossa sala (a maioria trabalhando em área distintas).

Ele me escutou com atenção, em nenhum momento debochou de minha opinião, e por um segundo achei que teria ajudado a esclarecer algumas questões, mas a frase que me doeu foi a seguinte:

– Ah, mas lá eles estão acostumados com essa situação, assim como nós brasileiros estamos com a nossa.

Apesar de triste, aquilo me fez refletir. Como conscientes de tudo isso ainda temos a coragem de fechar nossos olhos? Por qual motivo desistimos uns dos outros? Porque o dinheiro se tornou algo mais importante do que a qualidade de vida de nosso irmão? Até quando vamos nos acostumar com a esmola de quem “governa” tudo?

Questione a peça que está colocando em seu corpo. Quem criou, modelou, costurou? Dê preferência para as pequenas marcas onde o proprietário acompanha o desenvolvimento de tudo do começo ao fim, emprega e dá boas condições de trabalho para seus profissionais.

Valorize sua costureira de bairro, que faz com muito amor.

Uma peça de roupa trás com ela a energia de quem a tocou, vista seu corpo com peças que tenham um bom histórico, não o vista com sofrimento. Carregue boas energias pra si, de nada adianta ter consciência do que se come, do que se pensa, do que se faz e deixar esse assunto de lado.

Valorize a sua vida e a de quem está a sua volta.

Somos todos um.

Namastê!

Angelica Mathias

*Angelica Mathias é exploradora de si mesma, boa ouvinte e questionadora.

Designer do Ateliê Mathias

www.ateliemathias.com.br

https://www.facebook.com/pages/Ateli%C3%AA-Mathias/537612099596119?fref=ts

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