Lendo agora
O que pulsa por dentro muda o tempo todo – Janela como espaço de encantamento

O que pulsa por dentro muda o tempo todo – Janela como espaço de encantamento

Avatar

Por Fernanda Nicz*

Espaço novo

Não cabem mais ex-passos

Espaço incerto

O interno vai caber no externo?

Os novos passos, aos poucos, espaçam-se.

fe-nicz

Da janela (literalmente) lateral do meu quarto de dormir a vista é do Miradouro Santa Luzia, na histórica região de Alfama, Lisboa, Portugal. Se for pra morar um tempo na capital portuguesa, que seja na parte mais antiga, cheia de vida, alma, cantos, contos, encantos – sempre pensei assim. Em São Paulo, seria Avenida Paulista. Por aqui, o Miradouro Santa Luzia é meu lugar preferido. É lindo e porque é lindo todos merecem visitar e fotografar.

Difícil algo tão bonito permanecer intacto/deserto/vazio/abandonado. Desbravar beleza é desejo humano. Assim, (quase) tudo que é lindo vive preenchido e, ora ou outra, satura-se. E por estar diante de tanta beleza, minha janela vive preenchida, dia e noite, sem intervalo. É gente de todo o mundo, música de todos os tipos, flashes e buzinas. Soma-se, ainda, o ir e vir barulhento dos TuK Tuks e do famoso elétrico 28.

15577634_1375469452497725_236857681_n
Cinema na janela – Quando estudei cinema, meu mestre era o italiano Michelangelo Antonioni (dos “tempos mortos” – filmes mais pausados). Gostava também dos diálogos do Eric Rhomer e da câmera do Godard. Gosto de Julio Meden, Patrice Leconte, Wim Wenders…amo cinema! Mas o filme da minha janela é moderno demais, acelerado demais, barulhento demais. Lisboa pulsa 24 horas na minha janela. Lisboa me expulsa da janela. A janela que encanta é a mesma janela que cansa. E quando o mundo dos excessos torna-se insuportável (ultimamente quase sempre), fecho cortina e janela. Mas o filme continua, sem imagens; cheio de som e fúria.

Há tempos que uma janela não assume papel tão importante em minha vida. Quando “era jovem”, passava horas sonhando à janela com uma música romântica de fundo na “radiola” do meu quarto, em Curitiba. Amava observar o movimento das nuvens (quando, em São Paulo, há uns cinco anos, conheci e entrevistei o incrível músico e fundador do Congreso de Observadores de Nubes, Germán Diaz, morri de encantamento! http://laespiral.deusto.es/observador-de-nubes-musico-y-criador-de-capones/), amava ainda mais quando um avião passava. Era um ritual, como um momento de meditação diária (nem eu sabia que já meditava!). Sentava-me em cima da escrivaninha, colocava o disco e sonhava olhando pro céu. Pensando agora; a janela acompanhou os momentos mais meus na juventude.

Hoje, a janela impregnada de beleza, que tantos deslumbramentos suscitou, acelera o desejo de novas – e calmas, silenciosas – paisagens. E então, no sonhado novo espaço, na janela lateral do meu quarto de dormir, o filme aconteceria (acontecerá) em câmera lenta. Ou em preto e branco. Ou mudo. Menos informação, mais contemplação. Menos vozes, mais sensações. Apenas paisagem. Mais espaço pros intervalos entre um pensamento/sonho e outro.

15555906_1375469279164409_895271936_n
Dualidade – A história da janela reforça a dualidade da vida/das coisas, a ideia do “devir” abordada por Nietzsche e resgatada por Viviane Mosé em O Homem que Sabe; a vida impõe desconstrução e reconstrução constantes. Tudo que alguma vez teve uma propriedade definida experimenta a desintegração destas mesmas propriedades. Todas as coisas trazem, em si, seu contrário. Um dia já gostei do filme da minha atual janela. Hoje, o desejo é de espaço/vazio pra enxergar outra coisa na janela. E eu? SOU o que ERA quando gostava do que conseguia ver na janela? Certamente há, ainda, um pouco de identificação com quem julgava SER quando amei a vista dessa janela e, assim, uma parte minha “aceita” manter-se confortável dentro do espaço conhecido. Outra parte, mesmo com um pouco de medo, sabe, lá no fundo, que pode VIR a SER o que quiser – o que fizer bem, o que fizer sentido, tudo de melhor que puder SER. E sabe da importância da mudança de espaço e, consequentemente, de janela, para dar inicio ao filme que, além de desencadear o que de melhor há em mim, colocar-me- à em ação.

Porque acredito, como disse o professor Clóvis de Barros Filho, que há o LUGAR certo para que eu desenvolva a excelência de mim mesmo (meu propósito/dom). Ou seja, não adianta, internamente, existir um potencial (e há em todo ser) se o ambiente não permite que tal potencial se manifeste. O local é importante e influencia sim no desenvolvimento do melhor de si. Clóvis de Barros exemplifica: é muito difícil descobrir talento pra música num lugar em que não há instrumentos musicais… A pessoa pode passar a vida inteira sem saber o que a natureza esperava dela e então a vida tende a ser menos espetacular… e o ser acomoda-se. Pior; acostuma-se.

O que minha alma anseia expressar por meio de minha existência?
Thiago Berto, fundador da escola livre Ayni (pra guardar pra assistir https://www.youtube.com/watch?v=9OYKLjrfB4g)

janela

O professor Clóvis encontrou seu lugar na sala de aula e acredita que, neste mundão gigante e diversificado, cabe a cada SER ir atrás da “sua praia”. Descoberto seu espaço, a busca da excelência dentro de sua própria especificidade é felicidade. Porque cada ser tem uma natureza única e há um pedaço do mundo no qual expressar e colocar em ação tal natureza é simples e fácil. Tudo flui e encaixa. Aqui, um vídeo bem curtinho de um cara que fala muito (e bem) sobre o assunto; Gustavo Tanaka – https://www.facebook.com/authorgustavotanaka/videos/345010522531039/. É possível ainda, ir um pouco mais além e citar a importância da sintonia entre propósito externo e proposito interno. Eckhart Tolle aborda o tema em seu livro Um Novo Mundo. E mais; o lugar perfeito hoje pode não mais o ser amanhã. O que pulsa por dentro muda o tempo todo.
Mas quando no lugar certo, diante da janela adequada, no caminho de menor resistência e maior fluidez, o ser segue se aperfeiçoando para, enfim, devolver ao mundo, em forma de performance, o que o mundo lhe deu em forma de potencialidade.

Vídeo com a palestra intitulada MOTIVAÇÃO, do professor Clovis de Barros.
https://www.youtube.com/watch?v=q4E8g9L2PK4

13664810_1162243557131504_394184010_n

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com ) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

Vá para cima