Lendo agora
O Quarto de Jack sobre o olhar psicológico

O Quarto de Jack sobre o olhar psicológico

Avatar

Por Luiza Franco*

O Quarto de Jack Emocionante para quem consegue sentir empatia pela tragédia. Uma moça de 17 anos é sequestrada e mantida em cativeiro por oito anos. Nesse período, ela tem um filho com o sequestrador que a estupra regularmente. Chocante e infelizmente real. Apesar de não constar que o filme é baseado em fatos reais, fatos muito parecidos já foram noticiados pelo mundo todo. Abuso sexual atinge uma em cada 10 mulheres no mundo. Dados reais, mas que infelizmente não pensamos ou falamos muito a respeito.

O filme é comovente e nos faz pensar em como os seres humanos se comportam. Para que Jack não percebesse o que acontecia, Joy criou um mundo paralelo para eles viverem onde o quarto era todo o planeta e o que aparecia na televisão era de outro planeta ou fantasia. Eles brincavam, riam, faziam exercícios, estudavam e liam livros, tudo sem nunca sair do quarto.

Jack teve uma infância saudável e feliz enquanto estava no quarto porque não tinha necessidade de nada, ele tinha o principal que toda criança precisa, o amor da mãe dele. Depois que saiu do quarto ele desejava voltar para lá, pois era o mundo que conhecia. Não brincava com os brinquedos novos e sentia falta da rotina com a mãe.

Para as crianças, a única coisa que importa é o amor e como é na infância o momento em que mais estamos conectados com a nossa essência. Se tivermos nossas necessidades básicas bem satisfeitas, precisamos apenas de amor. Para os adultos isso também se aplica. Assim, todo o resto é ilusão criada para consumirmos cada vez mais.

Nós somos capazes de nos acostumar a absolutamente tudo. Somos seres sensíveis e indefesos, submissos e ingênuos, somos facilmente manipulados e enganados. Conseguimos perceber isso quando ouvimos discursos de grandes líderes, nos emocionamos e somos convencidos pelas palavras e pelo tom de voz e não pensamos se o que ouvimos é a verdade ou se nos fará bem. Por isso políticos e pastores fazem aulas de oratória.

O filme se divide em duas partes, dentro e fora do quarto, prisão e liberdade. Tudo o que Joy queria era sair do quarto e voltar para a família e quando isso acontece, ela não se vê feliz e entra em depressão profunda. Esse momento do filme representa as nossas fantasias de liberdade. Muitas vezes acreditamos que ao mudar de situação seremos mais felizes, ao sair de um casamento, da casa dos pais, de um emprego, ou qualquer situação em que nos sentimos presos, mas mudar de realidade não é garantia de felicidade.

A fuga nem sempre é o melhor que podemos fazer. Claro que em casos de prisão física ou emocional, quando não temos escolha, o melhor que podemos fazer é tentar fugir. Mas na maioria das vezes, nós mesmos nos colocamos em prisões. Nós escolhemos não ser livres quando não pensamos sobre nossas escolhas.

A única liberdade que existe é a consciência.

Aprofundando um pouco mais e levantando uma questão polêmica, podemos pensar nos motivos pelos quais Joy não tentava escapar a todo custo. Acredito que seja porque a maioria das pessoas tende a se conformar com a realidade e acreditar que algumas coisas são impossíveis. É o que vemos na vida das pessoas, muita gente acredita em coisas sem pensar a respeito. Um exemplo disso é a questão do Brasil, o Brasil está em crise, mas serão 100% dos brasileiros afetados pela crise? Muitas pessoas que perderam o emprego apostaram em realizar um sonho antigo e se tornaram ótimos empreendedores, ganhando muito mais dinheiro do que em empregos comuns. Então a crise não é para todos, e tudo depende do quanto a pessoa está disposta a se dedicar para conseguir o que quer.

O insucesso de alguém está mais relacionado com o medo e a preguiça que uma pessoa sente do que com fatores externos.

 

Luiza Franco*Luiza Franco é Psicóloga clínica, Coach de vida e carreira, Professora de psicologia, artista, curiosa, criativa e apaixonada pela mente humana. Conheça mais do seu trabalho no seu site pessoal onde aborda assuntos relacionados à psicologia, consciência, desenvolvimento pessoal, autoconhecimento e muito mais.

Veja o comentário
  • Achei muito interessante a sua análise do filme, já assisti e me emocionei muito, mas o livro é muito mais do que se vê no filme. Apesar de adaptado pela autora, algumas coisas acabaram de fora, por exemplo a mãe do menino tem um irmão, e em certo trecho o Jack é apresentado a ele, o qual tem uma filhinha de 3 anos. É interessante a comparação que a autora faz com o menino e 5 anos e a prima, de 3. Isso mostra bem o que você disse sobre consumismo. O livro, apesar de não ser literalmente verídico, a autora diz que se inspirou no caso Fritzl, ocorrido na Austria. E como no filme, no livro o avô do menino não o aceita e some de repente da história. Talvez seja uma dificuldade da autora em contextualizar o personagem de forma positiva (como é o caso do padastro, o Leo), quando na história real ele é o próprio sequestrador.
    um abraço

Deixe uma resposta

Vá para cima