O ponto-cego do despertar

Por Adriana Forte*

Foto por Caleb Whiting on Unsplash

A história é antiga e se repete há anos. Ela é mais ou menos assim: um guru, adorado por milhares de pessoas, subitamente cai do pedestal. Os devotos, confusos e desiludidos, passam a questionar se tudo o que viveram e aprenderam com ele foi ilusão.

Quando pensamos em tais gurus, alguns nomes vêm à mente: Bhagwan Shree Rajneesh, mais conhecido como Osho, Sai Baba, Andrew Cohen e mais recentemente o nosso guru local e líder espiritual Prem Baba.

Todos eles tinham milhares de devotos. Considerando que os devotos possuíam um certo grau de inteligência e discernimento, uma pergunta vem à tona. Porque essas pessoas teriam “se deixado enganar” por tanto tempo por um “guru charlatão” (como a revista Época descreveu Prem Baba)?

Apesar de provavelmente haver veracidade em algumas alegações contra esses gurus, a maneira como tendemos a abordar assuntos como este é extremamente reducionista e aparentemente nos oferece apenas duas opções: Charlatão ou Deus Encarnado. Mas a vida, como sabemos, não é preto no branco. Entre o “charlatão” e o “Deus Encarnado” há muito espaço.

Não estou aqui para debater os erros de Prem Baba. Não é incomum ver pessoas reconhecidas e respeitadas abusando deste poder em benefício próprio. De forma alguma defendo esta conduta. O que quero oferecer é uma lente mais ampla para olharmos o mesmo problema com outro enfoque.

No texto abaixo, ofereço uma reflexão integral (com base na Teoria Integral) sobre o escândalo envolvendo o líder espiritual Prem Baba – reflexão que não é abordada pela mídia.

Comecemos pelo começo.

O que é a Teoria Integral e o que ela tem a oferecer neste contexto?

A Teoria Integral é uma Meta-teoria composta de diversas teorias. Um mapa formado a partir de outros mapas que nos ajuda a ter uma nova compreensão do ser humano e da realidade. Seu objetivo é integrar os conhecimentos (psicologia x espiritualidade, ocidente x oriente, interno x externo, individual x coletivo, etc…) para que possamos ter perspectivas mais amplas e completas sobre tudo. A Teoria Integral foi desenvolvida por Ken Wilber e inclui os trabalhos de pioneiros em várias áreas, inclusive da psicologia, filosofia e espiritualidade. Alguns deles são: Buda, Einstein, Freud, Jung, Goleman, Piaget, Aurobindo, Kegan, etc…

Esta Meta-teoria nos ensina a observar a realidade por meio de múltiplas perspectivas. Quando nos damos conta, por exemplo, do ângulo por onde estamos vendo um certo problema, e que este ângulo por si só é parcial , o problema original deixa de ser “o” problema, e passa a ser tratado como parte do problema.

Seguindo esta lógica, eu diria que o problema maior despertado pelo “escândalo Prem Baba” não é a falibilidade humana por trás do guru, mas uma compreensão equivocada sobre o que significa ser um guru. Compreensão equivocada tanto por parte do guru, quanto por parte dos devotos e da sociedade.

Explico.

Segundo a Teoria Integral qualquer problema, situação, objeto ou pessoa, habitam, a cada momento, o que chamamos de “os quatro quadrantes”. Eles são dimensões ou perspectivas diferentes sobre o mesmo problema, situação, objeto ou pessoa (o mapa dos mapas).

A ilustração abaixo mostra alguns aspectos presentes simultaneamente na realidade do líder espiritual Prem Baba.

O quadrante superior esquerdo traz toda a parte interna do indivíduo. O que está incluído nisso? Basicamente tudo o que não podemos ver mas sentimos. Pensamentos, emoções, sonhos, ambições, valores morais, valores éticos, sombras, despertar espiritual. Enfim, tudo o que sabemos e não sabemos sobre nosso vasto universo interno habita este quadrante.

O quadrante superior direito oferece a perspectiva do que acontece do lado externo do indivíduo. Ele foca em tudo o que pode ser visto ou medido. Este é o lado da verdade empírica, da ciência. Por exemplo: anatomia, fisiologia, ações, comportamentos, talentos, performance, etc.

O quadrante inferior esquerdo nos mostra o lado interno do grupo. Os valores do coletivo, a cultura do grupo, país, religião, time, acordos morais e éticos, expectativas, cultura do relacionamento, da família e a maneira como nos sentimos em diferentes contextos.

No exemplo de Prem Baba a cultura da sanga (grupo espiritual) habita este quadrante. A sanga trás certos valores e crenças que tornam essa cultura forte. Um exemplo de crença que muitas sangas espirituais têm é que o guru não deve ser questionado. Outra crença é que o Guru é infalível, ou ainda que o “despertar espiritual” signifique que ele não tenha mais sombras ou lados obscuros em sua personalidade. O guru, por sua vez, também traz uma certa maneira de se comportar diante da sanga. Há expectativas e acordos não explícitos de ambas as partes. Jogos de poder, ou hierarquias energéticas, emocionais, psicológicas, projeções de pai/mãe. Tudo o que é interpessoal está aqui.

O quadrante inferior direito mostra o lado externo do coletivo. O sistema educativo, politico, judiciário, as instituições, os processos e as condutas, por exemplo. Um Partido Politico, um Centro Espírita, o Movimento Awaken Love, de Prem Baba, e a Internet são exemplos de sistemas e estão localizados do lado inferior direito do mapa.

Além dos quadrantes, a Teoria Integral trabalha com linhas, níveis, estados de consciência e tipos de personalidade.

Neste artigo focaremos nos quadrantes, linhas, níveis, estados de consciência.

Abaixo você encontra uma breve definição de cada um destes itens.

Estados de Consciência: estes são mutáveis, podendo ser intensificados ou modificados por meio de estímulos como o sono profundo, meditação, vigília, sonhos… Muitas práticas espirituais como meditação, xamanismo, rezas, contemplação e respiração focam nos Estados de Consciência. Quando praticantes espirituais relatam experiências de comunhão com Deus, paz suprema, estados de euforia eles estão se referindo a suas experiências de pico em Estados de Consciência que são, por natureza, transitórias. Quando nos referimos a alguém como um ser “desperto” estamos nos referindo ao estado de consciência desta pessoa que, neste caso, é “um com o todo”.

Linhas de Desenvolvimento: na Teoria Integral se fala de 24 linhas diferentes. Elas representam diferentes inteligências (elas não são estáticas e se desenvolvem com o tempo). Por exemplo: inteligência espiritual, cognitiva, ética, moral, emocional, interpessoal etc…

Níveis: todas as nossas linhas de desenvolvimento, ou inteligências, crescem e amadurecem. Os níveis de consciência nos mostram em que nível de evolução ou maturidade estão as linhas de desenvolvimento. Uma pessoa pode ter uma linha extremamente desenvolvida e outras menos. Em certas pessoas, por conta de traumas ou outros fatores, algumas linhas estacionam e não se desenvolvem mais.

A Teoria Integral mostra que se de um lado o egocentrismo é perfeito para uma criança de três anos (faz parte do desenvolvimento do ego daquela criança), ele é sinônimo de patologia psicológica em um jovem de dezoito.

Todos (ou muitos de nós) temos paciência para os “defeitos” (linhas de desenvolvimento menos amadurecidas ou até mesmo “atrofiadas”) de uma criança. Nós aceitamos a imaturidade infantil porque sabemos que é, de certa forma, natural. O que não entendemos é que tal imaturidade está viva em todos nós, adultos, e requer o mesmo grau de paciência ou compaixão que oferecemos às crianças.

Isso porque o desenvolvimento adulto é confuso e não segue manual de instrução. Somos uma combinação de aspectos muito desenvolvidos, parcialmente desenvolvidos e outros pouco desenvolvidos. Acredito que esta falta compreensão em relação ao nosso próprio desenvolvimento como seres humanos cria muita confusão.

No caso Prem Baba, o que li até o momento trata do assunto de forma polarizada, onde existe apenas uma verdade possível: “ele é incrível e onipotente” ou “ele é um charlatão”. Ao meu ver, essa visão reducionista desonra a inteligência e complexidade humanas.

Uma pessoa, como vimos nos exemplos acima, pode ter linhas de desenvolvimento de extrema maturidade e simultaneamente ter linhas de desenvolvimento que necessitem atenção e carinho. Além disso o mesmo ser humano pode ter Estados de Consciência muito avançados e ser inclusive um “Ser Desperto” mas ainda assim ter aspectos da personalidade que sejam patológicos, como o egocentrismo.

Nós, seres humanos, somos muito mais complexos do que a visão caricaturesca que lemos nos jornais. Uma pessoa nunca é somente “ruim” ou somente “boa”. Há obviamente uma soma, onde podemos ver se a equação de certo indivíduo fica mais para o “negativo” ou para o “positivo”. Existem pessoas que tem muito mais linhas de desenvolvimento imaturas do que maduras (quadrante superior esquerdo) e o resultado das ações destes indivíduos (quadrante superior direito) trará um impacto para a cultura e o sistema (quadrantes inferiores) que serão percebidos como negativos.

No caso de Prem Baba, quando coloco em uma balança imaginária todas as suas ações e contribuições nos últimos dez anos, não consigo enxergar o “charlatão”. O que enxergo é um homem, com capacidades muito elevadas em alguns aspectos do seu ser (talvez no Estado de Consciência, talvez na Linha Espiritual) e outras menos elevadas. Um de seus maiores equívocos, ao meu ver, foi o de não entender o seu próprio desenvolvimento.

Quando o guru não entende que o seu despertar não lhe garante amadurecimento moral e ético e a sanga (e também a sociedade como um todo) espera dele o comportamento de um pai perfeito, esta é uma receita para decepção. Tanto de um lado, quanto do outro.

Ao meu ver, uma das primeiras coisas que devemos questionar é a relação Guru x Discípulo e o quanto esses “acordos invisíveis” que existem no campo interpessoal nos deixam presos a expectativas desnecessárias.

O ponto-cego, ao meu ver, acontece quando ignoramos um ou mais quadrantes e também não entendemos a distinção entre o despertar (Estado de consciência) e o crescer (linhas e níveis) . As matérias que li se referem muito as ações, condutas e comportamento de Prem Baba (somente o quadrante superior direito de um dos personagens). Mas não tocam nos outros aspectos/quadrantes.

Somente uma análise que envolva múltiplos ângulos pode oferecer algo que se aproxime a uma verdade construtiva, ou algo que possamos realmente utilizar para crescer e amadurecer a nossa forma de enxergar as coisas.

Sobre a abordagem da mídia em relação a assuntos como esse, pergunto se há uma real curiosidade por trás das perguntas colocadas. E se há esta real curiosidade, que ela não se esgote e que nos inspire.

Meu desejo é que cada vez mais artigos sobre temas polarizados, como este, possam abrir nossas mentes e nos ajudar a ver mais longe, com mais perspectivas e mais verdade.

*Adriana Forte é uma incansável investigadora da consciência humana. Ela é mãe, co-fundadora do Totalmente Humano (www.totalmentehumano.com) e trabalha com desenvolvimento adulto, empoderamento feminino, coaching e facilita retiros e workshops. Ela mora fora do Brasil há 16 anos e seu próximo retiro no Brasil (que será ministrado em inglês e co-facilitado por Jesse Mackay) acontecerá no final de Novembro. http://www.totalmentehumano.com/totalmenteincorporado

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