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O peregrino e a beleza da estrada – Por Fernanda Nicz

O peregrino e a beleza da estrada – Por Fernanda Nicz

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Dedicado à amiga Camila Barp.

Há menos de um mês de terminar a primeira etapa do projeto Minideias (total de seis meses): coração pleno mas à flor da pele, alma levemente amadurecida, corpo latejando, olhos devidamente presenteados e encantados, mente borbulhando de novas ideias.

Antes de contar sobre a experiência com permacultura numa fazenda no sul da Sicília, da semana de trabalho e aprendizado numa Fattoria Escola na Umbria e da energia e força da Sardenha (próximos artigos), permitam-me apresentar os elementos que me acompanharam na estrada – elementos da natureza e da minha própria natureza – que me ensinaram, sutilmente, muito, sobre a vida e, principalmente, sobre mim mesma, meus limites, minhas escolhas. Sim, a natureza dá lições de graça, pena que muitos não têm tempo para contemplá-la. Mas se quiser começar a entender um pouco mais, indico o site do consultor e professor de I Ching e Taoísmo, Roberto Otsu: http://www.robertootsu.com/index2.html. Para os mestres chineses, sabedoria significa seguir as leis da natureza, fundamentalmente porque o homem é parte dela. “A água vai pelo caminho mais fácil”, “o bambu curva-se no vendaval para não quebrar”, “o oceano é grande porque fica no lugar mais baixo”. E por aí vai. Quer experimentar de perto? Abra a porta. Escolha uma estrada. Vá de encontro à natureza.

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Funciona assim. Ao dar o primeiro passo, alguns elementos já se apresentam como conta meu conto de cabeceira; A Donzela sem Mãos (livro Mulheres que Correm com os Lobos, da Clarissa Pinkola): E partimos sob uma luz diferente, sob um céu diferente, com um chão desconhecido por baixo de nossos pés. A riqueza do desconhecido e a beleza do novo foram companheiros de viagem que, a cada curva da estrada, confirmavam o caminho. Parceiros fiéis. Elementos fundamentais aos que desejam experienciar andanças; coragem e curiosidade. Coragem para caminhar sob/para o desconhecido e curiosidade/vontade de presentear olhos, mente e alma com o novo. O inspirador Rubem Alves complementaria: Quero viver enquanto estiver acesa, em mim, a capacidade de me comover diante da beleza.

O chão e os passos – Terra, areia, grama, pedras. Texturas diferentes provocam diferentes sensações. Obrigam a ir mais devagar ou acelerar os passos quando menos se espera. E tudo se altera no corpo e na mente que acompanham os passos. Passos amplos, delicados, pés que afundam, passos que se endireitam ou não passam. E o chão vai além de passos. Chão não é só pra pisar. Pode ser libertador experimentar acomodar o corpo todo ali. Ao acomodar a coluna na areia, nas pedras, na grama respirei melhor. Mais fundo.

Entre espaços, às vezes não bastam tantos passos, entram em cena então, os elementos (não naturais) que levam, de um espaço a outro, quase sempre num pequeno espaço. Trem, navio, ônibus e seus espaços (quase sempre) estreitos. Estreitos propositalmente. Estreitos para obrigar os seres a aprender a acomodar corpo, mente e ideias em qualquer lugar/momento da vida. Difícil encontrar a melhor postura/encaixe. Estabilidade e serenidade em qualquer situação é arte que requer tempo e, às vezes, muita andança pra assentar. Aprendizado puro.

Os espaços são estreitos, mas as janelas e a vista sempre são grandes, propositalmente. É que, aquele corpo que não para de se mexer, quando finalmente se acomoda começa sua terapia de estrada. Sonhos, lembranças e expectativa pelo que virá na próxima parada são tão grandes quanto as janelas. Posso dizer que nestes seis meses fiz muita terapia. Mesmo mal acomodada nas pequenas poltronas, o que via nas grandes janelas eram paisagens absurdamente inspiradoras e convidativas a uma visita profunda e intensa a mim mesma, à vida que escolhi.

Sabores, sons, cheiros – Salgado, doce, amargo, picante e o poder de mexer com a energia. Costumes e hábitos alimentares alheios. Na Itália, “pasta” é “primo piato”, ou seja, eles comem primeiro a massa e depois a salada. Eles combinam o almoço no café da manhã e o jantar, na hora do almoço. Eles fazem, de fato, a melhor (al dente) pasta do mundo!

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No campo – ecovilas e fazendas orgânicas – comi melhor, de forma mais saudável. Nas cidades, demorei a encontrar algo familiar e o corpo sentiu. Sentiu também a poluição sonora. Carros, música alta e televisão incomodam muita gente. Barulho da água do mar/rio/lago, canto de pássaros, barulho de sinos de ovelhas, cabra, burro, gato, cachorro fazem parte da sonoridade da natureza e não perturbam, ao contrário, acalmam. O mais interessante, que nunca prestei tanta atenção, foi a sonoridade do vento. Não só a sonoridade, mas o “carinho” do vento forte batendo no corpo. Sim, a natureza acarinha e faz companhia. Indescritível.

Acostumei-me com o cheiro do mato, da terra, das plantas. Com o cheiro de arnica ou de óleo essencial. Também com o cheiro da citronela e do gerânio que utilizei muito como repelente de “zanzara” – pernilongos italianos.

Dos elementos em mim – Quando sozinha na estrada, olhares provocam sensação contraditória. Olhares alheios ganham força. Há olhos de ternura, cúmplices. Há olhares insistentes que assustam. Há olhares que, sem querer, se demoram. Há os olhos que encantam e olhares de canto. Meu olhar curioso presenteou-me tanto em/de todos os cantos. Dia e noite. E quando é dia e quando é noite? Não há nada que indique o instante exato em que o dia se transforma em noite. Os sábios chineses perceberam que não existe separação entre os opostos. Uma coisa se transforma na outra, uma coisa gera outra. Entre o dia e a noite, existe um período que se chama transição. Transição significa que se percebe o trânsito. Quando se percebe que existe transição entre todos os conceitos, assim como existe transição entre o dia e a noite, é possível chegar a um acordo entre os opostos. É possível CONDESCENDER, tolerar as oposições de forma saudável e criativa. Sábia natureza. Tudo é UNO.

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Aliás, o tempo é um capítulo à parte quando não se está submetido ao ritmo frenético imposto por uma rotina escolhida de acordo, não com a verdadeira paixão e mais aguçadas aptidões, mas com o dito “certo” por determinada sociedade. Aqui, lembro que quando entrevistei o Michael e a Moabi Lopes da Tribodar (https://tribodar.com/), ele me contou que uma das grandes preocupações da ecovila é a educação. Citou algumas pedagogias interessantes como a da escola democrática Sudbury e alguns preceitos do suíço pioneiro da reforma educacional, Johann Heinrich Pestalozzi. “O que se defende é uma pedagogia mais prática e ligada à natureza, com maior valor à liberdade da criança. A ideia é que o que a criança vai aprender parte dela. O adulto é um guia. Assim, a criança desenvolve o que tem mais aptidão e é responsável pelo próprio aprendizado”. Ou seja, a sementinha da paixão deve ser alimentada desde cedo.

O tempo e o ritmo na natureza fazem corpo e mente alinharem-se a seu estado natural. Corpo? ahhhhhhhhhhhh!!! Este gritou da metade de agosto até aqui. Talvez por não ter prestado atenção nele, começou a chamar, latejante. Hoje é impossível passar despercebido. Talvez eu tenha ultrapassado seus limites. Talvez o tenha utilizado como uma máquina a serviço dos meus sonhos; carregando peso, usando o computador em qualquer lugar com qualquer postura, tensionando braço e mãos para fotografar. Faz parte. Aprendi.

Por fim; escolho terminar a lista de alguns elementos em mim, com o rei absoluto; o coração. Lá no início, quase fez me perder ou desviar o caminho. Balançou forte. Aos poucos, mas muito aos poucos, foi se acomodando, ocupando seu lugar sem invadir todas as áreas do meu ser. Quando acelerava demais e não havia mais espaço em mim; meditava, deitava na grama, observava o movimento das nuvens e escutava o vento. Terapia natural.

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O coração se apaixonou ainda mais pela água. Mar (que vi e senti de todas as cores, temperaturas), lagos e rios. Apaixonei-me por bichos e animais, principalmente por gatos (que em quase todas as fazendas estavam por perto; livres, mas carinhosos). Apaixonei-me pela língua italiana, que hoje, me sinto à vontade para falar. Apaixonei-me por cozinhas (e aprendi a cozinhar para muita gente!), amei tomar banho observando o céu ou sentindo o sol, amei estar no “banheiro” e ver estrela cadente. Amei cada serzinho novo, suas histórias e seus sonhos. Como cantou Milton Nascimento; depois de colocar o pé na estrada, conviver com tanta inspiração, beleza e amor; “sei que nada será como antes”… Eis a grande beleza da vida – muitas vezes negadas pelo forte apego dos seres às coisas, pessoas e lugares -; a impermanência.

Dedico este texto à amiga Camila Barp.

 Aqui, a música inteira: http://www.youtube.com/watch?v=Dh5QcjwDpKw

*Fernanda Nicz é escritora, professora de kundalini yoga e escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele!). Estudou cinema e jornalismo e viveu, além do Brasil, na Inglaterra, nos EUA, na Itália e, atualmente, está em Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com) com o objetivo de provocar revisão de valores na sociedade, instigando e inspirando mudanças ao apresentar novas possibilidades de “estar no mundo” e diferentes “formatos de vida”. Andarilha/peregrina na eterna busca de personagens e paisagens inspiradoras, percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo.  Depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue, agora, escrevendo o livro; metade romance, metade crônicas, de seu Minideias.

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