O maior pecado do mundo é não sintonizar rotina com o que faz vibrar a alma

Por Fernanda Nicz*

Ando pensando em pecado. Do pecado de não se saber ou de por aí andar sem amar detalhes da rotina ou da paisagem percorrida. Do pecado absurdo que é não encontrar mar calmo pra derramar todo o potencial que habita-te. Não é crime hediondo? É crime e castigo. É crime não oferecer ao mundo o melhor que há em ti. É castigo a ti, que ao confundir deslumbramento com encantamento, acomoda-se e aposenta o verbo buscar.

Mas pra tua sorte, a vida é maior que ti e não vai deixar-te aí muito tempo, no lugar errado. De duas, uma; ou você acorda e parte pra ação sem adiar o alarme do despertador ou a vida te puxa o tapete sem deixar-te qualquer outra alternativa que não reconstruir. Recomeçar no lugar certo (a esta fase de ti), sem pecado – perto dos parecidos, dos que enxergam o que há de mais original em ti e, por saberem-te tudo que és, ajudam-te a trazer à tona tua estrela, por vezes escondida, ofuscada ou impedida de brilhar em espaços “não adequados”.

“Algum tempo depois” o lugar/mar escolhido e comemorado na fase de vida anterior pode já não mais dar conta de todo potencial hoje transformado, lapidado, já quase sem nenhum resquício de crenças antigas. Vale lembrar: nada é estático, tudo muda o tempo todo, seres são mutantes e evoluem e o mar é calmo a quem o quer ver assim. Se o que enxergas hoje é o contrário da almejada calmaria de um dia é sinal de que alguma coisa está fora ordem. Alguma coisa acontece no seu coração… É hora de olhar pra dentro. Mudar de lugar ou mudar o olhar.

O outro lado do pecado – Pecado é confundir habitual com natural – alertava Ghandi – só porque virou rotina ou disseram ser sua sina. Pecado é separar aprendizado de rotina. Pecado e egoísmo maior do mundo é passar a vida – perder tempo – sendo o que não é e guardando em si tudo que existe de belo e único que poderia transbordar ao mundo. Pecado é insistir em viver uma rotina que combinava com o que VIBRAVA e não com o que se descobriu agora VIBRAR.

Aqui, cabe o mais lindo de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê INTEIRO:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê TODO em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim, em cada lago a lua TODA
BRILHA, porque alta VIVE.

Não se é o mesmo a vida toda. O que faz sentido e vibra na alma hoje pode não ser eterno. Quase nunca é. É preciso morrer varias vezes numa vida – Nietzsche. Metamorfose ambulante humana. Liberdade é não abrir mão de insistir em fazer/viver o que se ama. Liberdade é coragem de fazer um movimento quando o espaço já não é suficiente pra tudo aquilo em que te transformaste.

E é praticamente impossível descobrir talento pra música num lugar em que não há instrumentos musicais – exemplo do professor Clóvis de Barros que não canso de lembrar/citar. E cada pedaço do mundo tem uma geografia própria que pode ser usada para mudanças/evolução, já informou-nos a ecologista e antropóloga budista Joan Halifax. Assim, deslocar-se não é pecado, pelo contrário, é elemento fundamental pra dar vazão ao belo e singular que habita-te.

 

*Fernanda Nicz é escorpiana (ascendente em peixes e lua em câncer…tudo água, emoção à flor da pele), estudou cinema e jornalismo e, atualmente, estuda kundalini yoga. Além do Brasil, viveu na Inglaterra, EUA, Itália e Portugal.

Em 2014, criou o projeto Minideias (https://fernandanicz.wordpress.com ) e tornou-se andarilha/peregrina em busca de personagens e paisagens inspiradoras. Percorreu ecovilas e fazendas agrícolas a procura de simplicidade, natureza e minimalismo. Este ano, depois de alguns meses na ecovila Tribodar (Alentejo), segue pelo mundo, dando continuidade ao Minideias.

2 Comentários

  1. Me vi inteira aqui!

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