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O filho de Sírius

O filho de Sírius

Carlos Walker

Por Carlos Walker*

Sírius e Sol alinhados. O Cinocéfalo acopla. O homem assume o corpo do cão para poder descer às regiões mais terríveis. Macaco ou humano? Sem sombra de dúvida, nenhum dos dois. Primeiramente veio o cão.

Egípcios mumificavam os cães para que juntos aos seus donos (na cápsula invisível da morte) viajassem a bordo de seus corpos. É só rebobinar, paralisar o tempo, converter o momento e reprisar o inverso da chegada. Logo avistamos o disparar da partida de Laika no foguete dos deuses-humanos. A vira-latinha russa, o primeiro ser vivo a viajar o espaço  orbitando o nosso planeta. Talvez a saudade longínqua, nostálgica, a de voltar à sua estrela de origem. Mas o mistério de uma amizade imponderável e invencível reduziu o cão ao olhar cativo de seu dono. Para sempre.

O cão está latindo pra lua numa língua lasciva. Avisando chegadas e partidas, acusando pactos ancestrais já esquecidos; do seu Eu com o Eu de todos os humanos. Cara de um, focinho do outro.

Dos lêmures voadores e babuínos reclonando-se em formas de ursos, hienas, lobos, chacais, coiotes, até chegar ao mais sedutor dos homens atuais, o moderno e erótico lobisomem. De sua estrela Sírius, na constelação do Cão Maior, mistérios chegarão. Nos uivos da canção noturna, que corre por túneis estelares incandesce a flâmula do céu brasileiro e de todas as nações do mundo. Os homens oram enquanto os cães ladram e as palmeiras esvoaçam nas praias da noite.

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Na igreja ortodoxa do oriente, São Cristóvão é representado com corpo humano e a cabeça de um cão. Reza a lenda, que antes de se converter Cristóvão devorou um homem e passou a latir como um cão; mas ao se arrepender e em prostração, foi recompensado por Deus readquirindo a forma humana.

O coração do homem é um cão maior, que late e bate de amor, em busca de seu guru-dono. Humanos não aguentam ficar solitários. Mas o cão sem dono abocanha sua própria solidão vagando por ruas, terrenos baldios de abandono enquanto o archote da estrela lateja-lhe o cio.

Até hoje não se tem conhecimento de maior cumplicidade amorosa, de lealdade mais nobre e amizade mais divina; a do cão com o ser humano. Talvez um dia, depois de tantas guerras por toda a Terra, os homens não viverão mais aqui. Mas ficarão os cães ladrando contra o céu rubro. Os últimos pastores de almas humanas…

Deus não mais duvida e a ciência um dia comprovará o ponto comum da descendência espiritual entre ambos. Anjo canino caído neste paraíso infernal de variadas matilhas. O cachorro reconhece no homem a sua ancestralidade cósmica e o homem nele, a sua vida animal, instintiva.

Estórias dentro de histórias recontam a mais antiga amizade, projeto de pacto e amor desses dois seres tão diferentes, que numa certa escala de consciência, um dia fundiram-se.

Na noite nebulosa dos longos pesadelos, onde a luz tênue da alma levita sobre os pântanos, avançam relâmpagos vivos saídos do inconsciente grego, babilônico, hindu, germânico, celta, romano:  o cão Ostro, o cão Cérbero e sua tríplice goela, o cão Asterion, o cão Argos de Odisseu, o gigante cão de gelo Garm e outros carrancães.

Assim como nas páginas mitovideográficas dos “sonhos de criança”, saltam Lassie, Rin Tin Tin, Bidu, Ideafix, Totó e Scooby-Doo dentre  outros ludicães.                

Era uma vez, um parágrafo imemorial – “Da cúpula translúcida e suspensa da mecânica celeste, a noite astronômica engendra nebulosas, constelações e anãs-brancas. Véus de névoa esgarçam-se, espalha-se poeira  cósmica e estrelas precipitam.

Aqui de cima, num relevo de abismos, ponto deste planeta primitivo, ecos de uivos e ganidos ressoam pelas cavernas. O luar banha as redondezas da terra, e as sombras descem em  degraus de planícies, que aos poucos se avermelham.

Ali, no mais alto desfiladeiro, um ser com cara de pêlos e olhos cinzas mira extasiado em direção aos vórtices astrais, que se abrem ao longe, no profundo infinito. Seus olhos fulguram à luz de cristais azuis, no frio noturno e glacial que o ar condensa.

Após impensável viagem, Seres-Cães aportam  ao seu destino-missão-final:  Terra – o planeta dos filhos de Sírius.

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*Carlos Walker, IO Escola de Astrologia

Tel: 11- 97129-9876  – [email protected]

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