O cineasta e/ou o professor de Yoga

Cristiana (Titi) Dias Baptista 

Recebi com uma enorme surpresa o Inbox no Facebook de um conhecido, ele dizia: “Cristiana, eu sou professor de Yoga e queria conversar com você”. Não demorei 2 minutos para jogar no meu grupo de amigas mais antigas no WhatsApp: “Gente, vocês sabiam que o André Doria é professor de Yoga????”.

A minha surpresa vinha obviamente daquele pré conceito básico de que para ser professor de Yoga você tem que ter nascido fazendo um cachorro olhando pra baixo. E o André, até então, me parecia um cara “normal”, diretor de cinema, ex-jogador de polo aquático, cheio de amigos, casado, pai de quatro filhos, enfim, alguém que na minha cabeça seria mais fácil ser encontrado em um bar tomando cerveja à 1 da manhã depois de um longo dia de trabalho, do que às 6h, de turbante, dando uma aula de Kundalini Yoga.  

Ultra curiosa fui encontrar o André e aprendi mais um pouquinho sobre o ser humano e essa capacidade linda de se reinventar. Aqui ele conta um pouco como uma pessoa que não nasceu fazendo cachorro olhando pra baixo e que trabalha em uma das áreas mais vaidosas que existe – a do Cinema – pode sim, também ser professor de Yoga.

André no Monkey Temple, Kathmandu, Nepal.

Conta um pouco sobre a vida como cineasta. O que te levou ao cinema e como ele faz parte da sua vida?

André – Eu sou proprietário de uma pequena produtora chama Family Films Ltda. Eu escrevo e dirijo, e acabo produzindo e fazendo o necessário para as coisas acontecerem.  Eu me formei em Estudo da Mídia e Cinema no Queens College de Nova York, escola do CUNY.  Já fiz alguns curtas metragens, alguns premiados em festivais internacionais, “3 Pés Acima da Terra” e “Despertar”, premiados em Nova York e Argentina.

Desde a juventude sentia a necessidade em fazer algo ligado a arte ou comunicação. Considerei Jornalismo e, na faculdade, decidi ser roteirista até um professor de roteiro profissional em Nova York me recomendar ser diretor também. Achava que ser diretor era um pouco demais para mim, mas fui me acostumando. O ato de fazer cinema, criar uma cena, atingir a emoção adequada, os atores, amo e adoro tudo isso. Agora o lado da burocracia e o festival de egos inflados tem me cansado cada vez mais. No fim das contas, me parece que os diretores fazem filmes para saciar seus egos e nada mais, não me parece muito verdadeiro.

Estou produzindo e dirigindo um documentário sobre o grande sambista Wilsom Moreira, uma unanimidade no mundo do samba, mas pouco conhecido ainda fora dele. Outro projeto que me encanta é uma série de filmes curtos junto com um site com filmes de ficção sobre cidadania, respeito, educação, preconceito, ética e sem humor latente. Se chamará NORMOSE – Anomalia de Normalidade. Comportamentos usuais que parecem normais pela frequência que acontecem, mas que se reparamos bem são reflexo de uma sociedade doente onde os valores estão confusos.

Você conheceu o Yoga quando morou em Nova York, como foi o processo de se tornar professor?

André – Comecei Yoga em um clube onde eu jogava Polo Aquático em Manhattan (New York Athletic Club), por volta de 1999. Era uma Yoga de clube, um pouco mais acelerada, a sala ficava no 8 andar de frente para o Central Park, muito legal.  Depois disso eu parei por alguns períodos e voltei ao Brasil em 2002, depois do atentado nas Torres Gêmeas.

No Brasil, comecei a fazer outros tipos de Yoga, até o Rodrigo Yacubian, um amigo médico e também jogador de Polo me apresentar a Kundalini Yoga. O Rodrigo faz um trabalho sensacional levando a Kundalini Yoga para dentro dos hospitais e desenvolvendo trabalhos científicos sobre os benefícios da Kundalini Yoga no tratamento de algumas doenças. Ele está trabalhando junto com professores de renomadas universidades americanas.

Eu pratiquei com a Renata e depois com a Marcia e Dharam Kaur da Kundal, onde eu intensifiquei a prática. Dharam regularmente me incentivava a fazer o curso de formação, mas, apesar de interessado no assunto, eu resistia, pois não me via como um professor de Yoga. Foi só depois de algum tempo que decidi aceitar para entender melhor do assunto que tanto me encantava. Queria também conhecer mais sobre esse tipo de Yoga para todos, mesmo sabendo que não tinha a intenção de dar aula, talvez por medo. Mas ela sempre enfatizava que depois do curso, a energia mudaria e eu ia gostar de dar aula…

No segundo fim de semana do curso eu fui o primeiro aluno escolhido para dar aula. E não uma aula normal, mas uma Sadhana matinal às 5h da manha para o grupo todo, aberta a todos, de branco, com turbante. Foi meu teste de fogo, fiquei nervoso, mas gostei da energia e me senti bem, todos gostaram. Ao final da aula, ela veio para mim e disse que eu estava pronto para dar aulas. Acho que naquele dia virei professor de Kundalini Yoga e rapidamente já comecei a substituí-la em algumas aulas.

Hoje dou aulas diariamente no no You Yoga, no Jardins, em São Paulo e também aulas particulares.

Existe algum paralelo entre a vida de professor de Yoga e a de cineasta? Onde essas duas atividades se encontram e onde elas se antagonizam?

André – Eu já dei treino de Polo Aquático algumas temporadas no Estados Unidos, e também já fui capitão de vários times. É um papel parecido ao do diretor e ao do professor de Yoga. Incentivar, representar e elevar o grupo em qualquer situação.

André com o Dr. Rodrigo Yacubian no Sat Nam Festival, Deserto de Joshua Tree, Califórnia

A comparação que eu faço é que ministrar aulas é como teatro, você precisa estar lá para acontecer, se não estiver a coisa não acontece. Diferente do cinema que, uma vez filmado, a cópia vai sozinha para os lugares.

A coisa mais difícil para mim foi ame costumar com a disciplina de dar aula de Kundalini Yoga diariamente. Você tem de estar pronto, inteiro, diariamente. Bem diferente da rotina de um cineasta. O estilo de vida é muito diferente, o cinema namora com a boemia, conversas e filmagens noite a dentro. Impensável fazer uma Sadhana às 4h30 da manhã em um sábado, além de uma prática individual diária às 6 da manhã.

O que mais te seduziu na Kundalini Yoga?

André – Pensando agora, eu acho que foi o fato de Kundalini Yoga ser o oposto do estereótipo do Yoga – existem pessoas gordas, idosas, crianças. Acho que realmente o que mais me atraiu inicialmente é que é uma Yoga para todos e a não competição. Ou a pessoa com excesso de peso não tem direito aos benefícios de uma prática?  É uma prática real para pessoas normais, que trabalham, estudam, tem família, voltada para beneficiar qualquer pessoa, até mesmo pessoas enfermas num leito de hospital. O que difere é a intensidade em que o aluno vai praticar.

A Kundalini Yoga é bem devocional. Você diria que o seu caminho para se tornar professor fez parte de um processo de despertar espiritual?

André – A aula de Kundalini Yoga é dividia em cinco partes, ela começa com um Pranayama, (exercício de respiração) e um aquecimento onde movemos várias partes do corpo, especialmente a coluna. Depois tem um Kriya, que é um grupo de exercidos pré-estabelecidos com uma finalidade especifica, como para energização, diminuir estresse ou digestão, entre centenas de outros. Os Kriyas com as posturas, Asanas, se assemelham aos Asanas das demais Yogas, postura do triângulo, saudação ao sol, pose do camelo etc… Depois vamos para o relaxamento e depois a meditação final, muitas vezes com mantra.

A devoção faz parte da prática, talvez pelo fato de ter sido decodificada por Yogi Bhajan, um mestre Indiano Sikh (aquela religião onde as pessoas usam turbante e alguns homens deixam uma barba longa) pode confundir algumas pessoas. A Kundalini Yoga é para todas as pessoas devotas de alguma religião ou não. Na Kundalini Yoga existe uma busca de transformação interna, assim como também tem exercícios, alongamento e outros.

Claramente, a meditação e os mantras são fundamentais numa prática de Kundalini Yoga, por isso também ela é conhecida como “Yoga da Consciência”.

É natural que com a frequência da prática, acabemos desenvolvendo mais esse lado espiritual e nos conectando com o nosso ser infinito.  É importante notar que, em havendo devoção, ela não é para um guru ou para alguma imagem.

Yogi Bhajan dizia que não queria formar seguidores, mas sim professores. Assim, ela é uma devoção e uma admiração a nossa existência no planeta, a criação individual e coletiva. Buscamos uma mente neutra para levarmos o estado meditativo para nossas vidas, transformando nosso entorno em um lugar melhor.

O que te motivou a ir atrás desse despertar?

André – Foi um processo, não teve um fato em si que desencadeou. Outra coisa foi sentir a verdade no método. Sabemos que vai fazer bem a você, mas se não quiser fazer, tudo bem, não ficamos atrás dos alunos. Acho até que pecamos um pouco nisso, pois estou seguro que muitos que nunca ouviram falar de Kundalini Yoga se beneficiariam com a prática. Na Alemanha é a Yoga mais praticada no país.

Mas como é essa transformação? Você teve que abrir mão de alguma coisa? Como foi esse caminho?

André – É um caminho gradual, uma busca, onde são feitas escolhas e gradualmente vamos nos distanciando de alguns hábitos e adquirindo outros mais saudáveis e mais alinhados com a nossa busca. Com a meditação e a prática de Kundalini Yoga esse caminho se torna natural. Acontecerão deslizes e a volta para o caminho. Até o momento em que aquilo está tão aprofundado em você que o seu caminho literalmente já é outro. Esse momento é bem interessante e não é algo forçado, proibido, não é isso.

Com o tempo de prática você e o seu corpo começam a perceber que algumas coisas que você fazia já não valem mais a pena. E começa a perceber o beneficio de outras, como não comer carne, por exemplo.

É um processo, não é do dia para a noite, por que se for, não dura. Com o tempo e a maturidade escolhemos os caminhos que vão fazer bem a nós mesmos, e a outras pessoas, caminhos que a humanidade mais necessita nessa época conturbado em que vivemos.

Curtiu? Se interessou pela Kundalini? Quer bater um papo com o André? Você pode mandar uma mensagem comentando no final do post, mandar um WhatsApp no (11) 97046-2222 ou procurá-lo no You Yoga, Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 1970, (11) 4323-4782.

2 Comentários

  1. André sua aula de Kundalini é fantástica,
    A sua Ascencao atinge a todos. Tks

    Mauro

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