O caminho do diamante

Por Aline Micelli*

Acredito piamente que a história de grandes pessoas capazes de contribuir, não só para a comunidade do Yoga, mas que desenvolveram o dom de tocar os corações dos seres, invariavelmente passa pelas experiências de perda, dor e sofrimento. Através dessa porta de entrada do desapego é que se ganha à oportunidade de desenvolver firmeza na sadhana – prática espiritual.

Ainda que, na contemporaneidade, o Yoga esteja envolto a apelos comerciais e físicos é preciso que se cultive um olhar mais profundo. Algo verdadeiro acontece quando existe à realização de que a prática penetra camadas profundas do ser, capaz de transformar não só o corpo, mas também a mente e a energia. Essa transformação energética leva a um caminho espiritual, seja ele qual for. O que se entende por espiritualidade é que talvez esteja equivocado.

Ser espiritual não está relacionado a andar num certo grupo, seguindo padrões de comportamento, linguagem ou vestimenta. Muito menos está ligado ao fato de professar uma determinada linha filosófica ou religião. Para estar no caminho espiritual não é preciso demonstrar nada no exterior. A raiz da espiritualidade está localizada na semente que tem a esperança de romper a casca e desabrochar.

Esse potencial para a liberação é que deveria ser compreendido como caminho espiritual. Os obstáculos que enfrentamos ao longo da vida são como catapultas, que nos lançam em direção ao desconhecido. Esse momento do salto, quando não temos garantias, segurança, estabilidade, é onde mora todo o mistério da criação. Mergulhar nesse plano desconhecido é o caminho do Yoga.

Nesse instante, onde é aberta a passagem para emoções fortes como, por exemplo, a mágoa ou a raiva, muitos acabam fazendo a escolha da fuga, negando a dor que possa ser provocada pela situação. O que acontece é que o ciclo da vida utiliza esses momentos para o nosso florescimento. São nesses testes, grandes ou pequenos, que a existência lembra que devemos recorrer aos mecanismos praticados durante o sadhana.

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Quando tudo no exterior parece falhar a prática espiritual, que através da repetição está ancorada dentro do ser, tem o poder de devolver a sustentação, recuperando as forças e renovando. Fechar os olhos e realizar meditações simples, com respirações profundas, visualizações, é valoroso no processo de cura. Tudo depende da coragem e determinação de quem está nessa passagem. O tempo é individual, mas quando uma pessoa atinge a liberação de um sofrimento todo o universo é beneficiado, visto que na visão não dualista nada está separado.

Nas escolas filosóficas do oriente existe a analogia com o diamante, a pedra mais preciosa e a única com o poder de destruir e continuar ilesa. O diamante só adquire esse dom após passar por longa e dolorosa pressão, num processo demorado e que modifica um simples carvão em uma joia. Assim também é com quem experimenta a dor provocada pelas mudanças, ainda mais as que parecem bruscas, como a perda de um parente, derrocada financeira ou doença.

Nada disso pode modificar a energia da vida que nutre. A consciência que conserva. Esse é o brilho interno que extrapola para o exterior e protege da ilusão de separação. Quem adquire essa capacidade de existir na presença da realidade primordial consegue sentir o gosto do néctar da vida. Sua presença é capaz de tocar e modificar a todos. Essa pureza pode e deve ser alcançada aqui e agora, nesse exato instante. Porque a realidade única é que só o amor é real. O medo não existe. Você pode e deve brilhar como um diamante.

As flutuações entre o medo e o amor seguem existindo. São as chamadas flutuações da mente, que se movem como um macaco de galho em galho, pensamento em pensamento. Porém, novamente com a prática, o desgaste de tempo em determinadas questões é menor. O praticante consegue adquirir mais agilidade para despertar do processo mental e seguir em frente.

A diferença de um diamante pro outro pode ser o tamanho. Alguns parecem maiores, mais vistosos. Entretanto, não podemos esquecer que todos possuem as mesmas qualidades na sua composição, novamente, é preciso retirar o véu do julgamento e da comparação, para entender que o potencial está presente em todos os seres. Não se apegue a resultados imediatos, tão pouco acredite numa grande e futura iluminação. É mais simples.

A gente se engana achando que é bijuteria, mas somos todos diamantes!

Namastê!

Aline Micelli - “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”, Rosa Luxemburgo, filósofa alemã.

*Aline é professora de Vinyasa Flow Yoga, Hatha Yoga e Yoga Restaurativo na sua mais nova iniciativa chamada Aline Micelli Yoga. Pratica e ministra aulas de Yoga há 15 anos, é colaboradora do portal Nowmastê, gosta de cozinhar (já fez isso profissionalmente), é repórter, capoeirista e dança flamenco. Compartilha seus cursos, aulas, palestras e workshops (também informações e textos) na site alinemicelliyoga.com.br

Um Comentário

  1. Poty Ubirajara Fernandes Viana diz:

    Lindo Aline. Li e reli. É forte e verdadeiro. Traz um pouco de paz, conforto e esperança. Só tu para me fazer sentir mais capaz e seguir em frente, enfrentar turbulências e ver que a dor por momentos, nos faz unidos, e é capaz de nos mostrar que a vida tem um caminho que leva à felicidade e ao amor. Que nem você quando tinha 8 anos: meu amor por ti é que nem a inflação. Cada vez aumenta mais. Cachiri, tu é um diamante que já nasceu lapidado. Beijo.

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