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O caminho do coração

O caminho do coração

Nowmastê

Por Aline Micelli*

Fronteira entre o Brasil e o Uruguai do Pampa gaúcho.
Fronteira entre o Brasil e o Uruguai do Pampa gaúcho.

Hoje foi o primeiro dia que coloquei os pés para fora do apartamento. Faz mais de uma semana, acredito, que cheguei da minha viagem. Aquela que ousei traçar um roteiro, mas que a vida, com seus modos misteriosos e outras vezes de forma tão simples e clara, resolveu traçar um novo caminho.

O sol estava forte e meu corpo também, fiquei todos esses dias praticando Yoga. Por algum motivo é minha forma de voltar pra casa e ao mesmo tempo integrar tudo que aconteceu no caminho. Deveria ter sido alegre voltar pra minha cidade natal, rever os amigos, os filhos das amigas, abraçar o pai, sentir o cheiro da vó, beijar o rosto do tio e ser amorosamente recebida no primo. Sem dúvida, tudo isso é maravilhoso, mas por outro lado mexeu demais comigo.

Não quero aqui falar de tempo perdido, de desilusões passadas, nem de prisões criadas pelos meus medos tolos. É mais forte do que isso, é um sentimento de ter virado outra pessoa e ao mesmo tempo ser tão aquela mesma que achei que havia abandonado. Ela está lá, em algum lugar do meu corpo, viva. Sou eu pequena, ainda tentando entender tanta coisa que aconteceu.

O lugar da inocência é sagrado e puro, mas não se enganem, pode ser também um lugar doloroso. Na casa de minha avó estavam intactas as minhas cobertas de infância e alguns dos objetos de decoração da antiga casa em que morei com meus pais. Eu dormia nos meus lençóis de criança, acordava ouvindo minha vó lembrando as nossas histórias e tudo aquilo foi tocando em pontos demasiadamente dolorosos.

Precisei ter coragem para seguir adiante nesse vale assombrado de recordações. Não tive uma infância horrível, fui muito bem cuidada, tinha tudo que queria e desfrutava muito minha privilegiada posição de filha única. Mas, um dia, quando eu menos esperava, minha família foi dividida em duas e a pequena Aline, com seus 9 anos, se incumbiu da missão de amadurecer da noite pro dia.

No meio de tantos acontecimentos lembro-me do passado, na casa de uma benzedeira entre a fronteira do Brasil com o Uruguai. O veredicto era que eu estava possessa por alguns espíritos e que deveria passar por uma espécie estranha de exorcismo. Não era isso, eu só queria meus pais de volta, mesmo assim fui vítima e espectadora daquele belo espetáculo. Que culminou numa bela igreja, onde apenas uma cruz enorme, que pendia do chão até o teto, aguardava para me dar refúgio. Pode parecer estranho, mas foi nesse instante que comecei a construir os caminhos da minha fé. Acabei sendo uma dessas pessoas interessadas por Deus, Buda, Hashem, Olorum. Assim como o personagem Pi do maravilhoso filme ganhador do Oscar, eu amo cada face desse ambiente invisível, raro, imaculado! Lugar onde reside a esperança humana. Como a minha naquela época, que fiquei grata por ter arrumado um refúgio dentro do coração e que a ele/ela coloquei o nome que quis, confraternizei com muitos seres e devo todos os ensinos.

Estou me recuperando de tudo e com forças renovadas. É preciso ter coragem, porque a recompensa dos encontros consigo mesmo sempre valem a pena.

NOWmastê!

 aline 

*Aline é jornalista formada pela PUCRS, professora de Yoga há mais de 10 anos, com formações em Hatha Yoga e há dois anos formada pelaprofessora Micheline Berry em Vinyasa Flow Yoga. Cozinheira, taróloga, flamenca e apreciadora da humanidade. Tem também um blog no qual divide suas histórias lúdicas, escritos pelo seu lado mais selvagem, chamado Lili e o Mundo.

Fotos: Instagram – lili_micelli

 

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