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Niyama – Yoga e o relacionamento com nosso mundo interior

Niyama – Yoga e o relacionamento com nosso mundo interior

Aline Lago

No ocidente, na maioria das vezes que ouvimos a palavra Yoga, ela está relacionada às práticas físicas, os asanapranayamamudrasbandhaskriyas e meditação. Considero importante respeitarmos esse movimento, pois a maioria das pessoas chega ao Yoga através da prática de asana, porém, é importante deixar claro que o Yoga é uma prática e uma filosofia milenar, uma preciosidade para quem quer se conhecer, se transformar e se desenvolver.

E para mim, a melhor forma de zelar e transmitir a preciosidade do Yoga é através da nossa conduta. Com a intenção de que a força da transformação, do conhecimento e da purificação se expanda, compartilho aqui os dois primeiros componentes de uma jornada de encontro ao Yoga, à plenitude. Namastê. Om. Yoga.

Yama e niyama são citados em alguns textos importantes da tradição do Yoga, como por exemplo, nos Yoga Sutras de Patanjali, o primeiro e mais antigo tratado de Yoga que se tem registro, e no Hatha Yoga Pradipika, dentre outros. Assim, é com grande reverência e respeito à Patanjali e aos seu Yoga Sutras, que o utilizarei para nos aprofundarmos nesse estudo de Yama e Niyama.

Vale ressaltar que o Yoga Sutras de Patanjali, originalmente está escrito em sânscrito, possui algumas traduções que na maioria das vezes baseadas nas compreensões do tradutor. A tradução que utilizarei como referência é de T. K. V. Desikachar.

A palavra Yama, vem do verbo yam, que significa “refrear”, “restringir” e pode ser traduzida por refreamento, controle, domínio de uma tendência, de uma ação adharmica, sendo assim, Yama podem ser considerados orientações de como conduzir auspiciosamente as nossas relações com o mundo externo. A palavra Niyama pode ser traduzida como abster-se, deixar de fazer algo por um bem maior, são orientações de conduta para harmonização do nosso mundo interno. 

No primeiro post abordei os cinco Yama. Aqui, abordo Niyama, as cinco orientações para a harmonização do nosso mundo interno.

Saucha

“Limpeza, ou seja, manter limpo e asseado nosso corpo e o ambiente ao nosso redor.”

Este primeiro Niyama é conhecido como Saucha. Se estamos buscando o estado de Yoga, este niyama é essencial. Um ambiente limpo e asseado contribui para o bem-estar e harmonia. Quando entramos em um local e o encontramos limpo e organizado, nos sentimos bem e confortáveis no ambiente e isso contribui para a nossa organização interna, para nossa calma. Quando encontramos uma pessoa com a aparência asseada, limpa, nos sentimos bem diante daquela pessoa. Se queremos transmitir o Yoga é essencial que nosso aspecto físico esteja em acordo com este niyama, porque imagine só, uma pessoa cheirando mal, com roupas sujas, despenteada… Se temos um pouco de empatia não ficaremos bem diante daquela situação. Então, se banhar e se arrumar diariamente é essencial para se viver uma vida de Yoga, é contribuir com a simplicidade, pois ter a capacidade de transmitir boas sensações e bons sentimentos às pessoas contribui para o bem-estar interno delas, ou seja, para o estado de paz e simplicidade da mente.

Outro aspecto importante também de Saucha é a limpeza interna, a limpeza de pensamentos, sentimentos, ou seja, pensar e sentir coisas saudáveis que possam estar de acordo com os Yama, por exemplo. Nem sempre é fácil limpar, desapegar de um sentimento ou pensamento, mas se já somos capazes de perceber aquela atitude interna, como algo que pode gerar papa (resultados de más ações, deméritos) temos o dever, de trabalhar a limpeza e o desapego em relação àquela situação interna. Quando estamos bem internamente, nos sentimos mais leves, ou seja, mais limpos, mais confortáveis.

Santocha

“Contentamento ou a faculdade de estarmos confortáveis com o que temos e com o que não temos.”

Este segundo niyama é conhecido como Santocha. É muito comum, em alguns momentos da vida, experienciar o sentimento de frustação devido a algo que não correspondeu a alguma expectativa. Ou então, até mesmo, ter que aceitar uma situação que não pode ser transformada. Penso que o primeiro passo para se chegar a santocha é o acolhimento. Acolher uma situação, um aspecto da vida. Se acolher. E se algo não pode ser mudado, que ao menos, seja respeitado. E, à partir dessa ação, fica mais fácil compreender o que a vida quer nos mostrar ou ensinar com aquilo. Há quem diga que este niyama se relaciona também com a humildade, respeitar o universo, Isvara, a vontade de Deus.

Tapas

“A remoção de impurezas de nosso corpo e mente por meio da manutenção de hábitos corretos de sono, exercício, nutrição, trabalho e relaxamento.”

Este niyama é conhecido como tapas. Já vi algumas interpretações desse niyama e em todas basicamente se traduz como auto-esforço. É exatamente isso que temos que exercitar para remover impurezas do corpo e da mente, disciplina. Com disciplina, conseguimos manter o nosso ritmo de vida mais organizado. Um ritmo de vida mais organizado nos proporciona a oportunidade de viver melhor em todos os aspectos. Tapas é o niyama que nos orienta às práticas que possam remover as impurezas do nosso corpo, da nossa mente, mantendo um corpo e uma saúde equilibrada. Sempre que penso em tapas também o relaciono com a prática de asana, Pranayama e uma alimentação equilibrada.

Svadhyaya

“Estudo e necessidade de rever e avaliar nosso progresso.”

Este niyama, Svadhyaya, significa auto-estudo. Já vi também ser interpretado como estudo dos textos sagrados, mas estudar os textos sagrados é também desenvolver o auto-estudo, pois estes textos são muitas vezes referências para que possamos nos auto-avaliar. Quando temos objetivos claros, este niyama se faz essencial. É através de um auto-estudo que conseguimos descobrir o que nos falta para alcançar determinado objetivo. É através de um auto-estudo que conseguimos descobrir porque estamos vivendo exatamente dentro dos padrões que adotamos. E é através de auto-estudo que conseguimos perceber se estamos vivendo de acordo com o dharma, de acordo com o que orienta as escrituras. Este niyama é essencial para o nosso progresso, para que possamos desenvolver o autoconhecimento. Muitas vezes ao estudarmos de forma sincera alguns comportamentos que temos conseguimos acessar o subconsciente. O que realmente é revelador são as ações e quando temos capacidade de observar nossas ações e nossa vida tudo fica mais fácil de ser direcionado e transformado.

Isvara pranidhana

“Reverencia à uma inteligência superior ou à aceitação de nossas limitações diante de Deus, aquele tudo sabe.”

Este niyama é conhecido como Isvara pranidhana. Para um entendimento simples e objetivo, podemos relacionar este niyama com a prática de Savasana. Em uma aula de Yoga onde praticamos asanas sempre a concluímos com Savasana. Savasana é a postura que simboliza a inexistência da nossa individualidade. É o momento que nos entregamos, nos entregamos a ordem cósmica, a ordem universal. É o momento que nos entregamos para que o nosso corpo por mesmo só assimile os benefícios da nossa prática. É o momento que silenciamos a nossa mente, a nossa individualidade e buscamos estar inteiramente unos com o universo. Isvarapranidhana é quando conseguimos relaxar, fluir com a vida. É quando conseguimos nos libertar da necessidade de estar no controle de tudo. É quando conseguimos colocar nosso ego no lugar dele. É quando somos capazes de nos maravilharmos com as belezas da vida e reconhecer com gratidão que o universo nos dá aquilo que precisamos.

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