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Não importa quem ou o que é, mas sim o que isso desperta em mim

Não importa quem ou o que é, mas sim o que isso desperta em mim

Virgilio Magalde

O que essa pessoa me causa? O que aquele objeto que me apego significa para mim? Por que tenho tanta repulsa a ele ou aquilo? De onde vem a atração? Enxergamos mesmo as coisas como são ou como pensamos ser?

Pense em um objeto que hoje você tem desejo. Pode ser algo que você quer comprar, que sonha em ter ou que já tem. Que sentimentos e memórias esse objeto desperta em você?

Pense em uma pessoa que você tem aversão ou que de alguma forma você não gosta. Que sentimentos e memórias essa pessoa desperta em você?

De acordo com alguns ensinamentos, somos atraídos ou temos aversão a alguma pessoa ou a algum objeto de acordo com o sentimento/energia/memória despertado em nós. Isso quer dizer que independente do formato que alguma coisa se apresente para nós, o que realmente importa é como vamos interpretar isso.

Que sentido damos aos fatos? Para dar exemplo de um objeto:

Uma bola pode nos despertar um desejo de jogar bola, um medo dela nos atingir ou uma repulsa por acharmos que não jogamos direito. Simplificando: temos a atração ou a aversão, dificilmente vamos ter o pensamento neutro sobre isso. Isso tudo pode ter um significado interno baseado no sentimento que temos ao nos deparar ou imaginar essa situação, a energia que isso desperta em nós e as memórias passadas sobre as nossas experiencias com isso.

Já em relação a uma pessoa:

Podemos ver uma pessoa que não conhecemos e nos sentir atraídos ou termos alguma aversão – que muitas vezes não sabemos ao certo explicar. Algum traço físico ou da personalidade pode despertar em nós um desejo de ter essa pessoa cada vez mais perto ou de ter-la cada vez mais distante (risos).

Quando você olha uma bola você enxerga o seu traçado, sua geometria e sua composição ou apenas o que ela significa para você? Da mesma forma, ao olhar para outra pessoa, você enxerga todas as suas características visíveis ou o que ela representa para você?

Neste momento, você está lendo esse texto e estabelecendo significados de acordo com a sua experiência de vida, não é mesmo? Ou você está interpretando que são apenas palavras?

Perceba essa palavra: CRIANÇA

O que ela desperta em você?

Sua imagem como criança, algum parente seu, algo perturbador, algo que lhe incomoda, algum tipo de pressão, algum ressentimento, alguma memória do passado, alguma falta…

Imagine quantas coisas pode despertar em nós com somente essa palavra. Quantos significados internos e memórias são resgatadas ao pensar na palavra “criança”. Quanta diversidade de sentimentos isso pode causar para varias pessoas.

O que eu não quero ver é o que eu não quero para mim, o que eu não gosto de lembrar e o que me causa medo ou ressentimento. Você pode imaginar uma situação assim com você atualmente?

Aquela pessoa eu não quero ver nem pintado de ouro, não quero ver nem Cola-Cola com aquele nome e nem saber por onde anda”

O oposto também acontece, na verdade só acontece a atração porque também existe algo como a repulsa. Um não é exatamente o oposto do outro, mas sim o complemento. Imagine se só nos atraíssemos ou se só tivéssemos repulsa? Que ser humano seríamos?

A atração está ligada a algo que vemos, tocamos, provamos, cheiramos ou algo que ouvimos nos agradar. Esse agrado está relacionado a alguma interpretação que temos ligada a um sentimento ou memória passada. Experimentamos já isso ou algo parecido e nos agradou, ou então agradou a alguém em quem confie. Outra possibilidade, é dessa imagem nos despertar um sentimento que já temos dentro de nós, só que não estava tao evidente.

Como a risada de um bebê… a risada desperta em nós uma vontade de rir também. Não que nós não pudêssemos rir antes (ninguém amarrou a nossa boca), mas apenas que esse fato despertou uma alegria momentânea em nós, aquele sorriso que já existe em nós – só que muitas vezes não é expressado.

Até esse ponto conversamos que temos desejos e aversão por pessoas ou objetos e exemplificamos essas situações. Você consegue observar que olhando apenas a questão do desejo e aversão, seja por objeto ou seja por pessoa, ambos são bem parecidos. Desejo por ter ou por manter longe.

O apego ao trabalho, a um carro, a uma casa, a um celular, a uma tecnologia da moda, a uma viagem, a um local, a um produto… o apego a uma pessoa especifica ou grupo de pessoas, a características de certas pessoas ou a relacionamentos.

O apego é a transformação do desejo a algo pessoal — que me define. É querer abraçar quem ou o que eu desejo e não querer soltar mais. Antes de objetos, locais ou pessoas, o apego é inicialmente a um sentimento, energia ou memória passada. É querer aquele sentimento sempre presente.

Em uma vida em que tudo está em constante mudança, o abraçar algo e não querer soltar pode gerar uma grande tristeza e decepção pois nada será para todo sempre, nem mesmo “você”.

Agarrar algo e dizer que quero sempre — aqui e dessa forma- é a fórmula para alimentar o medo e gerar sofrimento no futuro.

Nessas horas pode surgir aquele pensamento: vou fazer tudo ao contrário então. Mas perceba que o caminho contrário não é abrir mão de tudo e não se importar com nada, mas sim observar esse movimento de atração e repulsa e considerá-lo como tal.

Isso está acontecendo e faz parte dessa realidade que estou. Não me culpo, apenas deixo passar, deixo ir…

Identificando, tudo a seu tempo desaparece. Nomeie-os: isso é apego, isso é desejo, isso é repulsa… E deixe-os ir.

“Sofremos, não porque somos basicamente maus ou porque merecemos ser punidos, mas por causa de três trágicos mal-entendidos. Primeiro, esperamos que aquilo que está em constante mudança seja previsível e possa ser aprisionado. […] Em segundo lugar, procedemos como se fôssemos separados de todo o resto, como se fôssemos uma identidade permanente, quando, na verdade, nossa situação é ‘sem ego’. […] Em terceiro lugar, procuramos a felicidade sempre nos lugares errados. O Buda chamou esse hábito de ‘confundir sofrimento com felicidade’, como uma mariposa que voa para a chama.” Pema Chödrön, Os Lugares Que Nos Assustam

Om

Virgilio

Mais um pouco. O grande mestre espiritual Krishnamurti disse:

“Quando você ensina uma criança que um pássaro se chama ‘pássaro’, a criança não voltará a ver o pássaro nunca mais.” O que verá será a palavra “pássaro”. Isso é o que verá e sentirá; e quando levantar os olhos para o céu e ver esse ser estranho e alado a voar, não vai se lembrar que o que está lá é, verdadeiramente, um grande mistério. Já não recordará que, em realidade, não sabe o que é. Já não vai se lembrar que essa coisa voando pelo céu está acima de todas as palavras, que é uma expressão da imensidão da vida. É, em realidade, uma coisa extraordinária e maravilhosa que voa pelo céu.” Adyashanti

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