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Minha quarentena em um ashram na Índia

Minha quarentena em um ashram na Índia

Cristina Medeiros

Sou Cristina e gostaria de convidá-los a compartilhar uma jornada através da vida cotidiana em um ashram, na Índia, durante o período de isolamento (quarentena) pelo coronavírus.

Sou catarinense, nascida em Itajaí e, em fevereiro deste ano, me inscrevi para uma formação em Yoga em um Ashram no norte da Índia, a uma hora da cidade de Rishikesh (conhecida como a capital mundial do Yoga). Após um mês, ao término da formação, no final de março, nos demos conta da situação mundial em relação à pandemia do coronavírus e chegamos a conclusão de que nosso período de estadia se prolongaria por mais um tempo.

A Índia está, neste momento, em sua quarta extensão do período de isolamento e para os estrangeiros as restrições são maiores. Como o ashram fica localizado em um pequeno povoado, temos algumas restrições para sair nas ruas. De qualquer maneira, temos um amplo espaço com muita natureza e um parque nacional de frente para o Rio Ganges e aos pés dos Himalayas. Também temos muito espaço de Yoga, jardim, biblioteca, sala de música com muitos instrumentos e muita área verde com vacas, pássaros e macacos por todos os lados, além dos gatos e cachorros que trazem mais alegria as nossa vida diária. 

A vida em um ashram:

Hari om é como saudamos as pessoas por aqui. Expressando: Do meu coração eu saúdo o ser Divino em você. 

Estar na Índia é uma experiência incrível e cheia de contrastes. O ashram é um lugar especial, onde temos práticas diárias, comida saudável, natureza e tempo livre para praticar tudo o que aprendemos durante a formação de yoga. A vida aqui é valiosa pela dedicação através das tradições que dão estrutura ao dia e ajudam a trazer clareza à vida.

O dia começa às 4h da manhã, quando o clima ainda está fresco e o silêncio está presente. De nossos quartos escutamos o som da concha tocam no primeiro despertar, um sinal de que, em breve, teremos, como todos os dias, cantos ao redor do fogo (Dhuni), que chamamos Arati – ritual  religioso hindu, uma forma de puja (oferenda) no qual fogo, incenso, flores e mantras são oferecidos em forma de amor e  devoção,  uma forma de  demonstrar gratidão à luz que a todos ilumina e purifica, mente, corpo e espírito.

Aqui, esta rotina é praticada há 40 anos, às 4h da manhã e às 7h da noite – ao nascer do sol e ao pôr do sol -, protegendo o espaço e trazendo mais harmonia para todos. Logo após o término, temos chai (chá feito com leite de vaca, especiarias e ervas aromáticas – delicioso!) quentinho para desfrutar e tempo livre para nossas práticas individuais.

Estamos neste momento em 14 pessoas vivendo aqui (7 estrangeiros e 7 Indianos). No início, éramos 40 pessoas, mas muitos receberam ajuda do governo de seus países para voltarem para casa. Pessoas de todo o mundo passam por aqui, no momento temos Brasil, Espanha, Austrália, Alemanha, Estados Unidos e Nova Zelândia.

Cada um tem sua prática. Eu tento manter minha disciplina com certa flexibilidade, mas com compromisso. Geralmente minha prática consiste em Yoga (asanas), Pranayamas (técnicas de respiração), Dhyana (meditação),  leitura e auto-estudo, e Shatkarma (purificação física), que inclui um banho refrescante no Rio Ganges –  o rio sagrado da Índia – que fica em um Parque Nacional, bem em frente ao nosso espaço. Lindo demais. 

Ao fim das práticas, por volta das 9h30, é o momento de Karma Yoga, que significa serviço desinteressado – voluntariado. No momento, devido a quarentena, não há os trabalhadores que geralmente ajudam na cozinha, então temos um pouco mais de demanda. Eu ajudo na cozinha cortando legumes e na limpeza e manutenção da biblioteca e de uma das salas de Yoga. É como uma pequena comunidade, um oásis em meio ao ruído da Índia lá fora. 

Às 11h, o sino toca e nos reunimos para o almoço – ou “brunch”, como chamamos aqui – cantando, a comida e servida. Comemos sentados no chão e em silêncio (mindful eating). Após almoço tempo livre.

Às 3h da tarde é hora do chai e cada um faz sua parte em seu Karma Yoga até o horário do jantar, às 6h da tarde. A comida é sempre bem preparada, com muitos condimentos e especiarias (que eu amo). O cardápio é Ayurveda e inclui dal (lentilhas), arroz, kadhi, salada, chutney, chapati (pão tradicional Indiano) e, algumas vezes, sobremesa.

Tenho percebido o quanto é importante agradecer as pequenas coisas da vida. Após o jantar temos novamente Arati e, em todas as luas cheias e lua nova, temos uma cerimônia muito especial – Yajna – onde oferecemos nossos cantos e preces pedindo proteção e amor à natureza e a todos os seres e a cura do planeta. Nestes tempo, temos orado para a cura e transformação de nossas vidas e da natureza durante o período de pandemia.

O maior aprendizado estando aqui tem sido este olhar interior, percebendo os processos mentais e emocionais e abrindo o coração para o fluir da vida. O momento é de aceitação de tudo o que está fora e dentro, trazendo mais clareza e consciência para as ações do dia-a-dia. Como dizia Gandhi, “nós somos a mudança que queremos no mundo”, e para isso é importante fazer nossa parte através de uma mudança de percepção, trazida para as ações em nossa caminhada na vida, em nossa relação conosco e com o mundo ao nosso redor.

São 9h da noite e, após meditar e ler um pouco, me preparo para dormir. Mais um dia se foi e amanhã teremos mais uma oportunidade. Meu coração é cheio de gratidão. Procuro rever meu dia e discernir o que poderia ser diferente amanhã. Meu quarto fica ao lado do parque e é possível ouvir o som do rio e dos pássaros noturnos.  Algumas vezes escuto animais caminhando na escuridão. Dizem que têm tigres e elefantes por aqui também. Há algumas histórias engraçadas contadas pelos moradores.

Fico feliz de poder compartilhar um pouco de nosso mundo por aqui.  Quando o mundo externo – e suas distrações – estão inacessíveis, uma saída é olhar para dentro e caminhar carinhosamente de encontro a nós mesmos.

Para manter a mente clara e o coração aberto para o fluir da vida, autoconhecimento é essencial. Meu compromisso tem sido escutar meu coração e mantê-lo em gratidão. Buscando estar no presente momento. Dando mais do que buscando receber algo. Observar mais antes de falar e ampliar a percepção para o que os olhos não podem ver. Conexão com a natureza é essencial e aceitação total de tudo o que é e do que eu sou.

Nos momentos dificeis: respira! Tudo passa.

Hoje posso dizer que eu não tenho planos para a vida. A vida, sim, tem planos para mim. Para saber quais são esses planos é só deixar todos os desejos do ego de lado e o que sobrar é obra Divina, é fluir da criação através da nossa existência. O milagre que chamamos vida.

Veja comentários (3)
  • Bom dia Cristina, que lindo artigo, gratidão por compartilhar, muito legal sentir quando as pessoas realmente conseguem viver dentro, estar interiozada, ao ponto de transmitir atraves da escrita, eu ja fico muito grata por poder perceber isso, é gratificante, pois me faz perceber que eu também posso conseguir. Gratidao

  • Paz e Alegria Cristina, sou de Salvador, tenho 63anos e conheci o Yoga aos 17 anos, bom ver sua experiência. Namastê 🙏

  • Acredito que este é o nosso chamado no momento: parar e ressignificar. Mudar os padrões, os hábitos, a percepção de nós mesmos e da vida. Exige um esforço, como qualquer mudança, mas quando tocamos nossa essência e nos encontramos com nossa verdadeira natureza, sem máscaras, vemos que o caminho vale pena. No fundo acredito que esta é a lição, aprendermos o caminho de volta para casa, dentro e nossos corações. Namaste! Hari Om.

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