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Mente cheia ou mente vazia?

Mente cheia ou mente vazia?

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Por Renílson Durães

“A plenitude da atividade humana é alcançada somente quando nela coincidem, se acumulam, se exaltam e se mesclam o trabalho, o estudo e o jogo; isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo.” Domenico de Marsi

Fomos ensinados que é importante estarmos sempre ocupados (e preocupados), cheios de coisas para fazer, estimulados desde pequenos a darmos conta de muitas atividades. Alguns de nós somos cobrados: “Você não se preocupa! Cabeça vazia só pensa besteiras! Não tira o pé do chão! Deveria agir assim, estar acolá! Você tem que fazer isso! Tem que aprender aquilo!…” e tantos outros “tem quês”.

Em estado de “pré ocupação”, ocupamos a mente com pensamentos irreais ou possíveis acontecimentos que, em 90% dos casos, não se concretizam. E se aconteceram mesmo, já teremos desperdiçado nosso discernimento mental, a ponto de realmente não sabermos o que fazer quando é necessário agir. A mente acelerada está cheia de medos infundados, ameaças (ideologia do terror), condicionamentos, possibilidades, arrastando o passado e projetando-se no futuro.

E assim ficamos “pré parados”. Na verdade, antecipadamente parados, aguardando o tempo da ação e da reação a possíveis fatos. De forma que já não temos foco ou energia para fazermos o que realmente está aqui ou logo ali, iminente, solicitando nossa atenção e atitude. Permanecer perdido em preocupações, ruminações mentais, sofrimentos e angústias não pode resultar em outra coisa, senão tensões.

Atenção ao momento presente é uma das principais orientações da filosofia oriental. Ela me permitiu compreender que a atenção me leva, na verdade, a “negar da tensão”. Sim, porque se a pessoa está em plena percepção, ela não entra no redemoinho das tensões desnecessárias, se desvencilha de muitas inquietações. Consegue direcionar a energia com maior equilíbrio, estabelecer foco e prudência e, por consequência, subtrair o melhor interesse ou resultado do que se passa em seu entorno.

Certos ensinamentos que internalizamos e tomamos como verdades se transformam em crenças danificadoras. Estamos condicionados a aceitar sem contestar que “cabeça vazia é oficina do diabo”, e procuramos encher a mente com inúmeras coisas, ainda que de somenos importância. Bem sabemos que a mente pode estar cheia, mas de informações inúteis, conteúdos maliciosos ou mal-intencionados, pensamentos repetitivos – portanto cheia, mas a serviço de forças suspeitas. O oriental, ao contrário, alerta que a mente precisa focar no que é absolutamente necessário no momento. Que é preciso esvaziá-la, serená-la, e selecionar o que realmente importa. Que uma mente assim devolve o poder de ação ao agora, está aberta à criatividade, aos insights e à expansão. Por outro lado, esta é paradoxalmente a condição essencial para estabelecermos o contato com o Sagrado.

Estar atento é, portanto, fazer o que precisa ser feito, inteiro, consciente. Ser zen é responder à demanda do momento. Se estiver comendo, coma e saboreie; se consternado, chore; se estiver na batalha, lute; se estiver brincando, divirta-se. Para cada coisa, o seu tempo. Este estado para o oriental é natural, comum.

Para nós, no entanto, esse estado é uma busca. Por aqui, o comum é estarmos fazendo uma coisa pensando em outra, com a mente noutro lugar. Até porque, nossa cultura de monopólios e interesses consumistas, de alienação e aparência, pode deixar a, qualquer um de nós, vulnerável, nervoso, alheio ou fora de si, sujeito a reações desproporcionais como desajustes nas relações sociais, agressões no trânsito, violência doméstica, até mesmo atos completamente maquinais como esquecer crianças no carro.

Conseguir algum grau de tranquilidade e centramento é um desafio, sendo necessário aprender, treinar, com persistência e disciplina. Não é fácil nos rendermos à inatividade. Qualquer trégua que percebemos em nossa agenda e, o mais incrível, na de nossas crianças, tratamos logo de preenchê-la com alguma atividade produtiva.

O ideal será distribuir a energia de forma harmônica para as várias áreas da vida e fazer as coisas com mais fluidez e leveza. Não negligenciar áreas como família, espiritualidade, lazer, ou os hobbies – elas reabastecem a mente e o corpo para a lida com as questões profissionais e financeiras, permitindo maior domínio das situações cotidianas.

Evidentemente não se pode ter controle absoluto em todos os aspectos da vida, mas podemos exercer domínio cada vez maior sobre nossa atitude mental, levando em conta que nossos pensamentos podem determinar nossos comportamentos. E tomar consciência de que nossas ações e comportamentos e influenciam também o mundo externo. Para isso, podemos lançar mão do que houver de bom e terapêutico entre os conhecimentos humanos, de modo a reduzir os riscos e aumentar o conforto e a qualidade das relações entre os seres.

*Renilson é graduado em Filosofia, Professor de Yoga, Coach Mentor ISOR pelo Instituto Holos e Practitioner em PNL, Terapeuta Corporal Sistêmico, Palestrante Interativo, Consultor nas áreas de terapias corporais e Yoga.

Ministra aulas de Yoga e terapias (workshop, terapia corporal sistêmica ou complementar e palestras) para grupos ou personal, acolhendo um público de diferentes idades e circunstâncias, atuando em organizações públicas ou privadas.www.rdnucleo.com; [email protected].

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